Crítica:
Por Erika Corrêa
Basta derreter o açúcar lentamente, acrescentar algumas gotas de limão e água quente e está pronta a deliciosa calda amarronzada. Além de ser usado na culinária, o caramelo também pode servir como cera depilatória, uma receita caseira que há tempos sumiu dos salões de beleza para dar lugar a produtos mais modernos e práticos.
No entanto, no salão Sibelle a cera caseira é preparada exatamente assim: a calda é resfriada em um mármore e esticada antes de ser aplicada nas pernas e buços das clientes. O que justifica a velha técnica é o endereço: o salão fica em um bairro de Beirute, no Líbano, onde o antigo e o moderno convivem não só na arquitetura como também nas tradições.
É este o cenário do primeiro filme de Nadine Labaki, que foi selecionado para o Festival de Toronto 2007 e para a Quinzena dos Realizadores de Cannes 2007, e chega nos cinemas brasileiros com quase dois anos de atraso.
Como uma espécie de Institutio de Beleza Vênus (Tonie Marshall/1998), transposto de Paris para Beirute, a diretora aborda sensivelmente o universo feminino, só que aqui enraizado aos costumes orientais.
Layale é a proprietária do salão, tem 30 anos, cristã, e vive com seus pais, como a maioria das moças solteiras no Líbano. Amante de um homem casado vive a esperança de que ele largará sua família para ficar com ela.
Dentre suas funcionárias estão: a mulçumana Nisrine, que está preste a se casar e não contou para o namorado que não é mais virgem e Rica que é homossexual. Ainda para engrossar a trama estão Jamale, uma amiga e assídua do salão, que tem pavor de envelhecer e não aceita a chegada da menopausa e a vizinha Rose, uma senhora costureira que cuida da irmã que está esclerosada.
A diretora que faz o papel da protagonista Layale optou por trabalhar com mulheres que não são atrizes profissionais, todas com profissões distintas.
Mesmo que não haja uma abordagem política direta e a história se debruce às paixões e dissabores da mulher – tema universal - o filme acaba se resvalando nas particularidades culturais, reflexo da história do Líbano, um país que viveu uma guerra civil por quinze anos (1975/1991).
Assim tudo é muito colorido, as roupas podem seguir a tendência ocidental, mas a mulher libanesa não é discreta e exagera nos acessórios aos nossos olhos. O caramelo é doce, mas ele arranca também os pelos e faz doer. Essa é a metáfora mais interessante do filme.
As mulheres encaram com naturalidade a beleza e o sofrimento. Em uma ótima cena, um guarda local aceita um tratamento de beleza e passa por uma sessão do caramelo a arrancar-lhe o bigode. Sua feição denuncia o estranhamento de qualquer homem que dificilmente vai compreender como as mulheres podem ser tão malucas assim.