A
terra sempre bruta do nordeste entra em cena
de
novo em
Canta
Maria , mas aqui há uma
novidade melodiosa, até no título
cantante: trata-se de uma história
de amor. Bruta, é claro, pois ninguém
escapa da geografia. Se for lembrado que
o romance é um ménage à trois,
como se diz na delicadeza de sentimentos
na França, novidade de comportamento é que
não falta ao agreste do filme, principalmente
levando-se em conta que a história
se passa nos anos de 1930. Naquela época
e naquele lugar vivem, num clima de guerra
determinado pelo terrível cangaço,
os amantes em triplicata. Filipe (Marco Ricca),
um amansador de cavalos, monta na sela de
Maria (Vanessa Giácomo), cujos pais
foram mortos pelo próprio Lampeão
(José Wilker), e casa com ela. Ele
ajuda seu sobrinho Coriolano (Edward Boggis),
que trabalha com couros, e que cobiça
secretamente a morena Maria. O tio desaparece
para ser caixeiro-viajante e circula pela
caatinga o rumor venenoso de que a mulher
está dando para seu sobrinho emprestado
Filipe reaparece, dá uma surra em
Coriolano e aí é que Maria
também some. Ela reaparece vestida
de cangaceira, ao lado de Lampeão,
como se fosse a célebre Maria Bonita.
Todos, menos Lampeão, que foi morto
e teve a cabeça cortada, são
felizes no fim.
O filme é tirado de um romance do
elogiado escritor sergipano Francisco J.C.
Dantas e trata, apesar dos tiros e do sol
de rachar chapéus de couro, de ciúme.
Dá para lembrar, bem de longe, o que
se passou no clássico de François
Truffaut Jules et Jim (estranha mas apropriadamente
rebatizado aqui de Uma Mulher para Dois ),
envolvendo os refinadíssimos devassos
Jeanne Moreau, Henri Serre e Oskar Werner,
todos europeus do começo do século
passado. No sertão, apesar dos maus
modos, é a mesma coisa. Maria é bonita,
feliz e alegre, até um pouco espevitada,
bem ao contrário dos carrancudos Filipe
e Coriolano. O insidioso ciúmes os
corrói, mas não a ela. Não
se sabe se Maria pulou a cerca, mas para
os animais cercados dá na mesma. Ela
faz a comida para os dois, mas não
arruma a cama deles. E o fato de, inexplicavelmente,
se transformar em pistoleira cangaceira,
ao lado do Lampeão que matou seus
pais, só pode ser atribuido a um desses
surtos de realismo mágico que ainda
assola ficção latino-americana.
Aqui, com uma certa pregação
feminista de que certos homens, embora toscos
e adoráveis, só podem ser tratados
a pau. No sentido de porrete, claro.
O diretor e roteirista
Francisco Ramalho Júnior tem bons créditos (
Besame Mucho, O Cortiço, A Flor da
Pele ), além de ter produzido o hit
algo homossexual O Beijo da Mulher Aranha
, de Hector Babenco, e peças de teatro.
Aqui, transportado para as filmagens em Cabaceiras,
municípo de quatro mil habitantes
no vale do Cariri, na Paraíba, Ramalho
volta às telas mas a cor local não
lhe garante um crédito tão
bom quanto os anteriores. Falta vida nesta
saga que deveria ser mais sanguínea,
pelo assunto que lhe corre nas veias, e mesmo
a participação da trepidante
Daniela Mercury nas canções
originais é discreta demais. Enfeitam
a narrativa personagens com rápida
aparição e nomes curiosos (Soldado
de Bigode, Loquinho, Prefeito Tio de Maria)
e as quatro sequências curtas do figurão
José Wilker, que na tela é capaz
de tudo, ser Tiradentes, Juscelino Kubitscheck
ou Lampião. Marco Ricca já está consagrado,
Edward Boggis ainda espera escapar de Malhação
e Vanesa Giácomo, a cabocla justamente
de Cabloca e de Sinhá Moça
, faz sua estréia no cinema saudando
o povo e pedindo passagem para papéis
melhores, sem mandacarus em volta. Pelo esforçado
elenco, e mais que pela paisagem, ponto para
Ramalho na sua história que poderia
ser chamada "éramos três".