Crítica:
Por Lucia Helena de Camargo

Marco Ricca estreia na direção com o longa-metragem Cabeça a Prêmio. A trama é baseada no livro homônimo de Marçal Aquino. O escritor já teve antes suas obras O Invasor e Os Matadores levadas às telas, ambas estreladas por Ricca. Assim como autor e diretor, o elenco se conhecia antes das filmagens – com exceção dos dois atores uruguaios. "É um filme de amigos. Só pude fazê-lo porque minha sorte é ter amizades. Dinheiro eu não tenho", diz o diretor. "Eles trabalharam para mim por muito menos do que valem."

Mesmo pagando pouco, o longa custou R$ 4,3 milhões. A verba foi conseguida junto à Petrobras, BNDES, governo estadual e iniciativa privada. Ambientadas em zonas fonteiriças entre Brasil, Paraguai e Bolívia, as externas foram filmadas na cidade de Sidrolândia, no Mato Grosso do Sul. A produção é caprichada, da escolha das locações à trilha sonora, que inclui o tango Por una Cabeza, celebrizado na voz de Carlos Gardel. Para escolher o local no qual a família vive, a produção visitou cerca de 60 fazendas.

O roteiro, assinado por Felipe Braga em parceira com o próprio Ricca, teve colaboração de Aquino, que, politicamente, elogia a adaptação. "Fidelidade só é boa no casamento," diz. "O Felipe desrespeitou o livro como eu desrespeito os livros que adapto, mas o essencial está lá."

Cabeça a Prêmio conta a história de um clã de pecuaristas do centro-oeste brasileiro que aproveita suas conexões para manter, paralelamente, uma rede de negócios ilícitos. O chefe é Miro (Fulvio Stefanini), irmão mais velho, casado com Jussara (Ana Braga). Otávio Muller vive Abílio, o irmão mais novo, encarregado do "serviço" de campo. Elaine (Alice Braga), filha única de Miro, engata um romance com Dênis, o piloto da fazenda, interpretado pelo ator uruguaio Daniel Hendler, já visto nos longas argentinos Leis de Família e Abraço Partido. Para parceiro de trabalho de Daniel foi escolhido seu conterrâneo Cesar Troncoso (de O Banheiro do Papa e Em teu Nome.

No outro núcleo do elenco, que acaba entrando em intersecção com o primeiro ao longo da trama, estão Cássio Gabus Mendes e Eduardo Moscovis, capangas cuja ação vai definir quem morre e quem merece continuar vivo. Moscovis faz o tipo caladão e soturno. Quase nada diz com palavras. Comunica o que precisa por intermédio de olhares precisos e expressão corporal. Sua mulher é dona de um bar. Ele morre de ciúmes das atenções dela a outros homens. Já a Gabus Mendes coube o papel do sujeito escrachado, explícito, por vezes grosseiro. "Nada contra, mas sua mulher é puta, meu amigo", diz, brutalmente, ao amargurado colega.

Uma particularidade do texto de Aquino transposta de maneira eficiente para a tela é que o espectador consegue acompanhar os dramas particulares de cada um dos personagens. E ninguém ali é totalmente inocente ou feliz. "O filme é angustiante porque a vida é assim", resume Marcos Ricca.

Cabeça a Prêmio (Brasil, 2010, 104 minutos. Direção: Marco Ricca. Com Alice Braga, Fulvio Stefanini, Cassio Gabus Mendes, Eduardo Moscovis, Otavio Muller, Ana Braga, Via Negromonte, Daniel Hendler e Cesar Troncoso.

 

© Copyright 2007 Diário do Comércio - Todos os direitos reservados