Crítica:
Lúcia Helena de Camargo
Sacha Baron Cohen: ex-Borat e atual Brüno, o modelo austríaco gay de 19 anos que passa a vida armando estratégias para tornar-se célebre. Para isso, vale até comprar uma criança na África, dando um I-Pod como pagamento.
Celebridades, de Woody Allen, e Prêt-a-Porter, de Robert Altman: sátiras consistentes aos universos da fama e da moda.
Se você aprecia os programas que promovem pegadinhas, aqueles com câmeras escondidas, que mostram as pessoas em momentos desavisadamente ridículos, então vai adorar Brüno, novo filme do inglês Sacha Baron Cohen, que estreia nesta sexta (14) nos cinemas brasileiros. O longa segue na mesma linha do anterior de Baron Cohen, Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América: documentário em alguns trechos, encenação em outros, um misto de ambos na maior parte do tempo.
A versão que chega ao País foi ligeiramente alterada em relação à exibida nas telas americanas e europeias. A Sony informou que a cópia brasileira é igual à australiana. A principal mudança foi cortar a sequência do relacionamento do protagonista com seu assistente pigmeu, na tentativa de receber classificação etária menor. Na Austrália deu certo. Lá foi classificado para maiores de 15 anos. Aqui, apenas quem tem 18 anos ou mais poderá assistir à comédia.
Darfive - Brüno, anunciado como uma sátira ao mundo da moda, tem como personagem principal um modelo gay austríaco cujo objetivo na vida é ficar famoso. E para conseguir a meta, vale tudo. Ele vai à África e compra uma criança negra, dando como pagamento um I-Pod, é encontrado em uma cama de hotel acorrentado a seu assistente (ambos vestindo peculiares peças de roupa feitas de couro preto) e contrata uma canhestra assessoria para ajudá-lo a achar uma causa humanitária ainda não encampada por nenhuma celebridade. Meio ambiente, órfãos abandonados, refugiados, doenças, todas parecem já apadrinhadas. "Darfur já era. Que tal se eu apoiar Darfive?", cogita.
Em determinado momento, Brüno tem uma epifania: ele não conseguiu ficar famoso em razão de sua orientação sexual diferente. Então procura um médico cuja especialidade é a mesma da brasileira Rozângela Alves Justino, conhecida por propor-se a "curar" homossexuais, transformando-os em heterossexuais.
Bebê nazista - Entre as bizarrices, pais interessados em tornar seus bebês astros da TV ou do cinema são entrevistados por Brüno. Um pai concorda em que seu filho lide com fósforos, outro acha natural que seu pequeno faça o papel de um oficial nazista que empurra um carrinho levando judeus para a câmara de gás. Uma mãe não vê problema em fazer uma lipoaspiração na criança, se ela não perder os cinco quilos necessários para que possa encarnar o papel. Detalhe: a menina pesa menos de 20 quilos. Difícil crer que essas pessoas estão realmente dispostas a submeter a prole a tamanhos acintes. Mas no mundo da busca pela fama a qualquer custo, tudo é possível.
Luta livre - Outra parte que deixa dúvidas sobre ser verdadeira ou encenada é estrelada pelo misterioso Straight Dave, suposto lutador de luta livre – Brüno, claro – que se apresenta como "machão" e depois revela-se gay, de maneira escandalosa, em pleno ringue. A multidão ensandecida não perdoa: vaia, atira coisas. Essa, como muitas outras cenas, exagera no tom. De propósito, claramente, para evidenciar o preconceito, o puritanismo. No entanto, o excesso acaba por estragar a crítica, como alguém que insiste em explicar a piada...
Seja como for, o exagerado Baron Cohen goza de crédito com a comunidade artística. Prova disso: conseguiu levar Sting, Bono e Elton John para cantar com ele o clipe final.
Em resumo, a sátira à busca desesperada pela celebridade é legítima. Ninguém aguenta mais ricaças Hiltons e afins, atuais e ex-participantes de Big Brothers dizendo asneiras ou tirando a roupa apenas para chamar a atenção da mídia – ávida por frivolidades expostas de famosos. O problema é: e daí? O que há de novo nisso? Claro, sempre existe espaço para um escracho bem feito, mas antes de sair de casa para ir ao cinema avalie se seu humor combina com aquilo que Baron Cohen considera engraçado. Em caso afirmativo, vá em frente, porque encontrará diversão. Do contrário, veja ou reveja um dos filmes citados abaixo, mais felizes no mesmo propósito ao qual Brüno se propõe.
Brüno (Estados Unidos, 2009, 81 minutos).
Direção: Dan Mazer.
Com Sacha Baron Cohen.
Toda celebridade será castigada
Na comédia Prêt-à-Porter (Estados Unidos, 1994), Robert Altman traz Marcello Mastroianni, Sophia Loren, Kim Basinger, Stephen Rea, Forest Whitaker, entre outros atores famosos, em cena com modelos e figurinistas, durante a temporada de lançamento das coleções de moda em Paris.
O diretor faz uma crítica ácida e certeira à superficialidade que impera nesse universo. Cenas reais feitas nos bastidores dos desfiles misturam-se às gravadas pelos atores. O filme provocou mal-estar entre pessoas ligadas à moda. Caricaturado, o estilista Karl Lagerfeld chegou a trocar farpas, via imprensa, com Altman. Há participações especiais ainda de Julia Roberts, Tim Robbins, Lauren Bacall e Danny Aiello.
E Woody Allen foi no cerne da questão da fama a qualquer custo em Celebridades (Estados Unidos, 1998). Kenneth Branagh encabeça o elenco, vivendo Lee Simon, um repórter que entusiasma-se além da conta com suas atribuições de relatar como vivem os ricos e famosos. O ator britânico encarna o alter-ego do diretor de maneira admirável, incorporando à sua interpretação todas as caretas, caras e bocas típicas de Allen. Neurótico, verborrágico e inadequado, inicialmente tem a missão de entrevistar a protagonista de um filme que começa a ser rodado (Melanie Griffith). Mas nem tudo será simples. Ele envereda por caminhos que não conhece, encontrando gente muito estranha em festas por demais esquisitas. Entre essas pessoas, um astro totalmente desvairado (Leonardo DiCaprio) e uma garota de grandes olhos, que ele toma para musa (Winona Ryder). Além disso, Lee cava oportunidades para mostrar o roteiro de cinema que escreveu. E perde o rumo definitivamente quando conhece uma modelo deslumbrante (Charlize Theron) que sente prazer sexual em todas as partes do corpo. O filme tem atuações de Hank Azaria, Judy Davis, Joe Mantegna e Donald Trump, fazendo o impagável papel de ... Donald Trump.
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