Crítica:
Por Geraldo Mayrink

       O ano de 1968 – quem se lembra? – foi espantoso em acontecimentos. No Brasil foi quando se promulgou o ato mais forte da ditadura militar, mas no resto do mundo a coisa era ainda pior. É um pedaço deste "resto do mundo" que ressurge em Bobby, e o nome do título pertenceu ao senador Robert Kennedy, candidato à presidência dos Estados Unidos assassinado no dia 5 de junho após um discurso no hotel Ambassador, seis anos depois de seu irmão, o presidente John, ter sido também assassinado. O filme acompanha a trajetória de 22 personagens fictícios reunidos no hotel Ambassador. São vidas atormentadas por preconceitos e injustiças e que vêem um último sinal de esperança no idealismo de Kennedy. Apesar de batizar o filme, Kennedy está longe de ser a principal figura em cena. Tragicamente, é só um coadjuvante.

       Um pouco à maneira de Robert Altman, com suas cenas da vida, o diretor-roteirista Emilio Estevez exibe um painel, com elenco de notáveis. Aqui estão o porteiro aposentado (Anthony Hopkins) que não esquece seu passado e joga xadrez com um amigo também aposentado (Harry Belafonte). Em volta deles, o gerente do hotel (William H. Macy), que trai a mulher cabeleireira (Sharon Stone) com a telefonista (Heather Graham), a cantora bêbada (Demi Moore) escalada para apresentar o candidato Kennedy no palco do hotel, a garçonete (Mary Elizabeth Winstead), que veio de Ohio e ensina dois jovens sobre como usar LSD, o famoso ácido lisérgico e novidade na época, um socialite deprimido (Martin Sheen, pai do diretor) que sem muito entusiasmo tenta agradar sua esposa mais nova (Helen Hunt), mexicanos chamados Rodriguez e Vargas e por aí afora. Toda esta fauna humana é contemporânea dos massacres americanos em Ke-Sahn e My Lay, do assassinato do pastor Martin Luther King (que disse: "Eu tenho um sonho"), da França paralisada por uma grande revolta de estudantes, a canção Mrs. Robinson se espalhando pelo mundo e o musical Hair estreando no Baltimore Hotel. Pouco depois da meia-noite de 5 de junho, feito o discurso de vitória no salão de baile do Ambassador, Kennedy foi baleado na cabeça por um certo Shiran Shiran (preso até hoje) mas, consciente, perguntou se cinco outras pessoas feridas passavam bem. Morreu no dia seguinte, aos 42 anos.

      Emilio Estevez tinha seis anos naquele 5 de junho e depois de se transformar em ator e diretor sempre quis filmar esta história. Apesar no nome, que pode ser atribuído à personalidade do pai, libertário de quatro costados, cheio de responsabilidade social e ativista liberal católico, Estevez é americano de Nova York. Foi casado com a linda Demi Moore, que em outros tempos recebia a proposta indecente que celebrizou um filme, e apresentada aqui quase irreconhecível de tão envelhecida. Aos 44 anos, Estevez escreve e roteriza suas próprias histórias, chamadas Lembranças Vivas e Trabalho Sujo, entre outras de maior ou menor expressão, e das quais Bobby é a mais bem realizada. Estevez é um americano patriótico, crente em valores elevados, embora não os leve muito a sério. Um resumo das intenções deste ideário está expresso no último discurso de Kennedy na noite em que o balearam: "As segregações, a violência, a desilusão com a nossa sociedade, seja entre negros ou brancos, entre pobres e ricos, mostram que podemos recomeçar e agir em conjunto. Somos um grande país, um país altruísta, um país piedoso". Mas havia balas no ar e nenhuma piedade, e as balas continuam explodindo muitos anos depois em acontecimentos e filmes sangrentos como Tiros sobre Colombine e Elefante. É o que Estevez tem a declarar sobre ilusões perdidas.

 

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