Crítica:
Por Erika Corrêa

O novo filme de Quentin Tarantino que entra em cartaz nesta sexta-feira (08/10/2009) no Brasil já  é a melhor bilheteria de estréia do diretor nos EUA e o maior sucesso comercial de sua carreira (US$ 116,8 milhões em sete semanas).  

Com o tema focado na Segunda Guerra Mundial e elaborado sobre uma espécie de vingança contra os nazistas, Bastardos Inglórios tem diálogos afiadíssimos, um enredo inusitado e uma tensão que não permitem perceber suas quase duas horas e meia de duração.

“Os Bastardos” são soldados judeus americanos que seguem para a França ocupada para matar nazistas com toques de crueldade. O tenente Aldo Raine, o Apache, (Brad Pitt) antes mesmo de partir para tal missão frisa para seu pelotão: “[Os nazistas] Verão a evidência da nossa crueldade nos corpos estripados, desmembrados e desfigurados...”.  

Para espalhar o terror, o tenente conta com um esquadrão de oito homens com manias e trejeitos mais que bizarros - caso do soldado Urso Judeu (Eli Roth), que usa um taco de beisebol para esfacelar o crânio e os miolos dos oponentes.  

Humor negro, sangue e violência explícita são características esperadas de um longa-metragem de Tarantino. No entanto, o mais instigante em Bastardos Inglóriossão os diálogos que antecedem as cenas de ação e brutalidade. As falas são extensas, inteligentes e tangem à perversidade. À maneira do mestre Hitchcock, que se utilizava do plano-seqüência para aumentar o suspense, Tarantino se serve dos diálogos bem elaborados e tensos em busca do mesmo efeito.
   
Contado em capítulos (são cinco ao todo), o espectador se depara no primeiro deles com uma paisagem campestre da França, onde um fazendeiro corta lenha e uma de suas três filhas pendura roupas no varal. A chegada de soldados nazistas ao calmo local prenuncia encrenca.

Sem nenhuma dúvida, Tarantino mais uma vez homenageia seu ídolo: o diretor italiano Sérgio Leone, e recorre ao silêncio, às falas pausadas, ao close, e até mesmo à trilha sonora, que é de Ennio Morricone.  O diálogo travado entre o coronel Hans Landa (Cristoph Waltz) e o fazendeiro é simplesmente genial.  

Assim também é o bate-boca em uma taberna entre dois membros dos Bastardos Inglórios, a atriz e agente Bridget Von Hammersmark (Diane Kruger) e um coronel da Gestapo. As falas são mais eletrizantes do que própria reação que vão acender.    

Tarantino consegue provocar o riso no contexto do nazismo, fazer uma ficção em que o assassinato de Hitler pode ser verossímil, sem que isso seja questão moral ou purgatória do mal. Afinal, nenhum personagem sai ileso de seu sarcasmo. Se faz chacota dos alemães, não deixa por menos aos americanos.   

Em certa cena, a atriz Bridget Von Hammersmark pergunta indignada se os americanos sabem outro idioma além do inglês; Brad Pitt tenta um “Buongiorno” com tanto sotaque caipira, que arranca gargalhadas da platéia; por outro lado, o coronel da SS Hans Landa mostra-se um exímio poliglota.

Ainda mais surpreendente é a canção Cat People (Putting out Fire) de David Bowie, que acompanha um dos capítulos. O músico inglês nasceu somente em 1947 e estourou nas paradas na década de 1970. Aparentemente pode não ter nenhuma conexão com a Alemanha, mas Berlim já foi sua residência e serviu de inspiração para Bowie em álbuns como Low e Heroes, ambos 1977, e Lodger, de 1979. Hoje prepara novo álbum na capital alemã. 

A escolha do elenco do filme não podia ser melhor. Brad Pitt já vale o ingresso, mas quem brilha é o vilão Hans Landa, que deu ao austríaco Cristoph Waltz o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes. Aliás, Tarantino parece sempre reascender a carreira de alguns atores que estão no ostracismo, como foi o caso de John Travolta em Pulp Fiction.  

Waltz, esquecido pelo cinema alemão e quase desconhecido internacionalmente, subiu ao palco de Cannes e agradeceu a Tarantino: “Você me devolveu minha vocação”. O público e os fãs de Tarantino também agradecem.

 

 

© Copyright 2008 Diário do Comércio - Todos os direitos reservados