Crítica:
Por Josafá Crisóstomo
Os franceses e também os italianos são realmente muito habilidosos em filmar comédias dramáticas. Guillaume Canet não é uma exceção. Ele conseguiu utilizar uma fórmula de certo modo já batida, mas prendendo ainda assim nosso interesse durante o filme. Qual é a tal fórmula? Reunir um grupo de amigos íntimos, em uma mesma casa de praia durante as férias, quando são suscitados conflitos a partir dessa convivência mais próxima.
O diferencial é que aqui, o grupo em questão foi para o litoral abandonando em Paris um amigo. Ele que sempre acompanhara o grupo nas férias de anos anteriores, agora está hospitalizado devido ter sofrido um grave acidente de moto.
Os problemas do grupo começam em suas vidas privadas. Assim sendo, eles têm início em Paris. Antes mesmo de saírem em viagem, o fisioterapeuta Vincent (Benoit Magimel) faz uma confissão que incomoda muitíssimo Max (François Cluzet), o mais bem sucedido do grupo, dono da casa de praia e de um barco, e que, além disso, é também o mais intolerante de todos. Ambos são casados e suas respectivas esposas e crianças os acompanham nas férias. A questão é que os dois mudam o modo de agir reciprocamente, vivenciando uma situação nada confortável para ambos e para o grupo, mas que também será a responsável pelos momentos mais hilários, quando não trágicos, do filme.
A namorada de Ludo (Jean Dujardin), aquele que está internado e abandonado no hospital, chama-se Marie (Marion Cotillard), uma mulher instável emocionalmente. Já Eric (Gilles Lellouche) é um ator que, embora tardiamente se descubra apaixonado pela namorada, sempre se comportou como um mulherengo. Já Antoine (Laurent Lafitte) é também muito apaixonado por Véronique (Valérie Bonneton), mais uma amiga do grupo. Ela o faz sofrer e a crise desse relacionamento acabará por provocar, durante essas férias, algum aborrecimento coletivo. As atuações dos atores estão todas excelentes, mas merece destaque a de Laurent Lafitte, porque suas expressões facial e corporal mudam por completo quando sua personagem se sente mais segura emocionalmente.
O título em português avança na direção do apelo transcendente – lembra um título que poderia ser o de um filme de temática espírita. Mesmo que exista uma brecha no filme para um apelo dessa natureza, essa não é a intenção presente no título original: Até a eternidade não tem nada a ver com Les Petits Mourchais. A expressão em francês diz respeito àquelas pequenas mentiras que acabam por salvar as aparências, e que é exatamente como assistimos cada um do grupo conduzir seu drama pessoal diante dos outros, o que, definitivamente, revela-se como uma alternativa descabida entre amigos.
Se algum senão é preciso ser feito ao filme, diz respeito a certas cenas que sugerem um plus que não combina com o tipo de cinema em geral produzido na França e mais o aproximam daqueles filmes americanos que passam na televisão aberta em horário vespertino. Como quando temos uma cena exagerada de declaração de amor em público, ou uns excessos da trilha sonora, ao conduzir cada efeito melodramático. Contudo, tais apelos até poderão ser tolerados, se você é do tipo que aceita que entre amigos tudo é possível, e, principalmente, se já entendeu que depois da meia idade – todos eles passaram dos 30 anos – há uma certa urgência em conduzir a vida para algum entendimento. Nesse filme, cada qual fará o que for possível para isso. Além disso, evidentemente nunca será demais ouvir Nina Simone.