Crítica:
Por Geraldo Mayrink
O mal-disfarçado e ainda irrealizado sonho francês de se parecer com Hollywood ganha ares de realidade com Asterix nos Jogos Olímpicos¸ feito para evocar superspetáculos épicos do porte de Ben-Hur ou Spartacus, entre tantos. O célebre gibi de Albert Uderzo e Goscinny aparece aqui com todo o luxo e riqueza de um desfile de gala na Marquês de Sapucaí, numa comparação nacional, coisa que nenhuma história em quadrinhos, a não ser as americanas, ousa sonhar.
O patriotismo francês contra os cruéis invasores romanos está intacto, mas as coisas mudaram muito desde os tempos de Nero e a tela agora abriga uma multidão de sotaques (embora todos falem apenas francês), movidos por dinheiro alemão, espanhol e italiano.
As filmagens foram feitas nos ultramodernos estúdios de Alicante, na Espanha, não houve economia no número de câmeras nem na construção do monumental estádio olímpico, repleto de multidões realmente filmadas ou multiplicadas em computador, numa falsificação espetacular. É a única homenagem, até agora, à Olimpíada de Pequim.
Mas nelas não reinam os simpáticos Asterix e Obelix (Clovis Cornillac e Gerard Depardieu) e sim César, com toda imponência e classe oferecidas por Alain Delon. O homem "bonito demais para ser honesto", como uma vez o classificou o diretor Luchino Visconti, vai mais uma vez para o trono. Aos 72 anos, ele paira acima de tudo e de todos, repetindo o tempo todo: "Ave, eu".
Essa é uma das graças do personagem, tão paranóico que tem provadores de comida, de espelhos, de tudo, na certeza de que seu filho adotivo Claudius (Benoît Poelvoorde) quer assassiná-lo. Mas há outras anedotas nas pistas.
O sorridente centurião vestido de vermelho que pilota uma biga (item essencial neste tipo de espetáculo) da cor da escuderia Ferrari é ele mesmo, Michael Schumacher. O simpático moreno que faz malabarismos com um arremedo de bola de futebol é também ele mesmo, o temível derrubador de jogadores com cabeçadas, Zinedine Zidane. E o troféu incomum em olimpíadas é dado pela princesa Irina (a bela ítalo-americana Vanessa Hessler), que usa na cabeça tiaras em forma de pneus e que Asterix e Obelix querem que vá se aninhar nos braços do compatriota Alafolix (Stephane Rousseau, humorista canadense).
É engraçado? Os diretores Thomas Langmann e Fréderic Forestier acham que sim. Pelo menos mal não faz. Acreditam que esta história é a mais visual de Asterix, a mais espetacular e a mais cinematográfica. E assim ganharam, de antemão, a medalha de ouro do mercado. Torraram 80 milhões de euros e fizeram o filme em língua francesa mais caro de todos os tempos.
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