Crítica:
Por Lúcia Helena de Camargo
Tudo o que Steven Spielberg toca vira ouro. O cineasta americano sabe dar cor e vida a imagens em movimento. Acostumado a dirigir atores, estreia no comando de uma animação com As Aventuras de Tintim, cujo roteiro é baseado nos quadrinhos criados pelo belga Hergè. E faz um filme com ritmo, mas sem apelações, explosões monumentais desnecessárias ou perseguições automobilísticas. É evidente o esmerado cuidado com a luz e a composição das cenas, e a manutenção do ar quase ingênuo das histórias originais.
A ação se dá pela técnica de captura de movimentos: os atores atuam com sensores no corpo e tudo o que fazem é depois aplicado nos personagens dentro da animação.
A aventura começa quando Tintim compra uma réplica do navio Licorne em uma feira de rua. Outros interessados no barco oferecem muito dinheiro para que ele o venda. Diante da recusa, sofre ameaças. O repórter, intrigado, começa a investigar qual seria o segredo da embarcação, que tanto interesse despertou. Tudo o que sabe é que possui 50 canhões, dois convezes e três mastros.
Sempre acompanhado de seu esperto e leal cão Milú, o arrojado repórter Tintim – que empunha armas e não hesita em atirar nos bandidos – segue as pistas para descobrir mais sobre a trajetória do navio. E chega a Ivan Ivanovitch Sakharin, o vilão. Ficamos sabendo que um dos segredos pode ser o tesouro escondido em algum lugar dos mares do planeta, que teria naufragado com o Licorne, do qual foram feitas três réplicas praticamente idênticas. A única diferença entre elas é um detalhe que contém a mensagem capaz de decifrar o segredo.
O beberrão capitão François Haddock vai acompanhar a saga, já que ele próprio está diretamente envolvido com a origem do mistério. E somos apresentados a um velho pirata, daquele modelo tradicional, que possui olho de vidro e cara de mau, chamado Rackham, o Terrível.
Em paralelo trabalham os atrapalhados agentes da Interpol Dupond & Dupont (Simon Pegg e Nick Frost), usando seus chapéus coco pretos e bengalas. Eles pifiamente tentam capturar um batedor de carteiras, além de dar uma mão com os piratas.
A busca pelo galeão afundado leva Tintim, Milú e Haddock ao alto mar, a diversas cidades pelo globo e até aos desertos africanos, local em que assistem a um peculiar espetáculo de ópera. Seja aonde for, Tintim é o herói, afinal de contas, não é qualquer repórter que consegue pilotar um avião apenas por ter certa vez entrevistado um piloto...
Embora o personagem seja belga e seu idioma, o francês, o filme foi rodado em inglês, com Jamie Bell como Tintim; Daniel Craig (o atual agente 007) no papel de Sakharine e Andy Serkis (César, em O Planeta dos Macacos) como o capitão Haddock. Nas cópias em português que entram agora em cartaz serão ouvidas as vozes de dubladores profissionais. A empresa é do Rio de Janeiro, mas felizmente o dublador de Tintim teve o bom senso de minimizar o sotaque, para não criar ruídos.
Em cartaz nos EUA desde 21 de dezembro, o longa saiu-se vencedor do Globo de Ouro como Melhor Filme de Animação, pode concorrer ao Oscar na mesma categoria e também na de Melhor Efeitos Visuais, que este ano teve aumentado de três para cinco o número de concorrentes. O roteiro, escrito por Joe Cornish, juntamente com o próprio Hergé, tem base nas histórias O Caranguejo das Pinças de Ouro; O Segredo do Licorne e O Tesouro de Rackham, o Terrível. Peter Jackson (da trilogia Senhor dos Anéis) encarregou-se da produção e já está escalado para dirigir a segunda animação da série, cujo mote é dado no final desta primeira aventura. A sequência terá roteiro de Anthony Horowitz e será baseada em dois álbuns: O Templo do Sol e As Sete Bolas de Cristal. James Cameron é cotado para comandar o terceiro filme.
As Aventuras de Tintim (The Adventures of Tintin, Estados Unidos, Bélgica e Nova Zelândia, 2011, 107 minutos). Direção: Steven Spielberg. Com Jamie Bell, Simon Pegg, Andy Serkis, Nick Frost, Mackenzie Crook, Daniel Craig.