"Quando
era grande, Arthur nada podia fazer para
mudar a difícil situação de sua vida, mas
ao se transformar num ser minúsculo, ele
pôde fazer muito" - explicou Luc Besson,
cineasta francês presente no Brasil, a respeito
de seu filme Arthur e os Minimoys, em evento
organizado pela Embaixada da França para
lançamento do mesmo. De fato, a pré-estréia
privilegiou o público-alvo de Besson, as
crianças, convidando várias escolas a comparecer
para uma exibição da película acompanhada
de pipoca, refrigerante e, principalmente,
com a presença do diretor. A vibração e o
interesse do público de 10 a 15 anos, somando
quase 500 pessoas, poderia já ser considerada
uma resposta ao sucesso que se espera.
O
tema da animação que remonta ao mito arturiano
para contar a história de um garoto americano
um tanto abandonado pelos pais e criado pelos
avós, propõe que o espectador acompanhe o
herói numa viagem fantástica a um mundo minúsculo,
sob o jardim de sua casa. O escopo de tal
aventura é a defesa da propriedade dos avós,
onde mora a família, dos empreiteiros que
querem destruir a natureza e ali erguer prédios.
De fundo ecológico e politicamente correto,
a história não apresenta uma originalidade
em si. A novidade, porém, pode estar em algumas
entrelinhas que trazem à baila certa sátira
do cotidiano adulto e nos elementos quase
que "pós-modernos" do texto e da caracterização
dos personagens.
Luc
Besson já era o autor dessa fábula em quatro
volumes, dos quais dois se encontram traduzidos
no Brasil pela Editora Martins, Arthur e
os Minimoys e Arthur e a Cidade Proibida
. Aliás, durante o evento com as escolas
em São Paulo, uma das crianças indagou: "Eu
tenho aqui os dois livros sobre os Minimoys,
queria saber se o filme traz as duas histórias".
Disse o diretor que se baseia na primeira
ainda, o que ensejou que outro pequeno levantasse
a mão e, ansiosamente: "Você vai fazer o
Arthur 2 ?"
Com
orçamento de 65 milhões, 100 grafistas e
misturando paisagens naturais de jardins
com maquetes em três dimensões, o filme levou
cinco anos para ser elaborado. É agora lançado
mundialmente com grande campanha publicitária,
site oficial em várias línguas, inclusive
o português (www.arthuretlesminimoys.com)
e, em alguns casos, com eventos contando
com a participação do diretor.
O
elenco de Besson conta com Mia Farrow no
papel da avó de Arthur (Freddie Higmore,
de A Fantástica Fábrica de Chocolate ); mas
o espetáculo se dá quando o menino passa
por uma transformação e se torna um minimoy,
pequeno ser menor do que os insetos, vivendo
num mundo antes visitado por seu avô - que,
por sinal, ali se encontra -, ao qual ele
vai a fim de recuperar um preciso tesouro.
Se
não se baseia numa grande inovação, o filme
encanta pela beleza das imagens, algumas
sutilezas de diálogo e até quebras de tabu.
Talvez o mais interessante esteja em se observar
alguns aspectos da história de amor que vive
o herói no mundo em miniatura. Arthur se
apaixona por Seliena, princesa que nada tem
de convencional. Muito mais do que estar à espera
de um príncipe, a mocinha que, aliás, precisa
se casar para seguir as tradições, toma todas
as iniciativas e decisões, deixando perplexos
ao seu redor todos os homens; pai, irmão
e, claro, o "príncipe" Arthur. Ela é quem
lhe dá, inclusive, o primeiro beijo, o que
para os minimoys é um casamento. Nem por
isso a princesa se liga definitivamente ao
seu eleito; ao contrário, continua sua luta
pessoal sem exatamente contar que o amado
venha salvá-la.
A
princesa é de fato uma ruivinha um tanto
autoritária, acinturada e com grande poder
de sedução. Em certa passagem, está claro
que os admiradores do sexo oposto ficam muito
impressionados com suas formas, sobretudo
com o bumbum. Tal abordagem, se erotiza a
princesa por um lado, por outro, mostra-a
lado a lado do herói, não como moça frágil,
mas dotada de uma força e capaz de se defender.
Uma perfeita mulher moderna, que acaba se
apaixonado pelo herói. Como são de mundos
diferentes, sabem ambos que precisarão viver
um tempo separados antes de voltar a se encontrar.
O tempo de dez luas que, segundo as tradições
dos minimoys, é suficiente para testar a
força e a fidelidade do amor. Portanto, nada
de choradeiras nem pieguices, apenas expectativa.
Mas as crianças já queriam saber se no próximo
filme Arthur se tornaria minimoy ou a princesa
viria a ser uma menina...
Além
de uma imagem que "ajusta" o perfil feminino
das velhas fábulas à contemporaneidade, o
filme de Besson satiriza um pouco as instituições
e coloca o mal como entre parêntesis. De
fato, o "Malthazar" é vilão por ter-se deixado
levar por caminhos enganosos, pois já foi
bom um dia, foi "Balthazar". Outras sutilezas
em alusão ao cotidiano podem fazer sorrir
e não falta criatividade na apresentação
das saídas para as enrascadas dos heróis.
O
som original do filme contou com as vozes
de David Bowie (Malthazar), Madonna (a princesinha
autoritária) e outras estrelas. Mas para
quem quiser ver em português, a dublagem
brasileira é também agradável. Seja como
for, no mundo dos minimoys a aventura de
Besson foi concebida para todas as línguas;
os produtos derivados, álbuns de figurinhas,
bonecos e vários outros, tendem a tornar
esses personagens a nova vedete da criançada
e, quiçá, de alguns adultos.