Crítica:
Por Mônica Cristina Corrêa

     "Quando era grande, Arthur nada podia fazer para mudar a difícil situação de sua vida, mas ao se transformar num ser minúsculo, ele pôde fazer muito" - explicou Luc Besson, cineasta francês presente no Brasil, a respeito de seu filme Arthur e os Minimoys, em evento organizado pela Embaixada da França para lançamento do mesmo. De fato, a pré-estréia privilegiou o público-alvo de Besson, as crianças, convidando várias escolas a comparecer para uma exibição da película acompanhada de pipoca, refrigerante e, principalmente, com a presença do diretor. A vibração e o interesse do público de 10 a 15 anos, somando quase 500 pessoas, poderia já ser considerada uma resposta ao sucesso que se espera.

     O tema da animação que remonta ao mito arturiano para contar a história de um garoto americano um tanto abandonado pelos pais e criado pelos avós, propõe que o espectador acompanhe o herói numa viagem fantástica a um mundo minúsculo, sob o jardim de sua casa. O escopo de tal aventura é a defesa da propriedade dos avós, onde mora a família, dos empreiteiros que querem destruir a natureza e ali erguer prédios. De fundo ecológico e politicamente correto, a história não apresenta uma originalidade em si. A novidade, porém, pode estar em algumas entrelinhas que trazem à baila certa sátira do cotidiano adulto e nos elementos quase que "pós-modernos" do texto e da caracterização dos personagens.

     Luc Besson já era o autor dessa fábula em quatro volumes, dos quais dois se encontram traduzidos no Brasil pela Editora Martins, Arthur e os Minimoys e Arthur e a Cidade Proibida . Aliás, durante o evento com as escolas em São Paulo, uma das crianças indagou: "Eu tenho aqui os dois livros sobre os Minimoys, queria saber se o filme traz as duas histórias". Disse o diretor que se baseia na primeira ainda, o que ensejou que outro pequeno levantasse a mão e, ansiosamente: "Você vai fazer o Arthur 2 ?"

     Com orçamento de 65 milhões, 100 grafistas e misturando paisagens naturais de jardins com maquetes em três dimensões, o filme levou cinco anos para ser elaborado. É agora lançado mundialmente com grande campanha publicitária, site oficial em várias línguas, inclusive o português (www.arthuretlesminimoys.com) e, em alguns casos, com eventos contando com a participação do diretor.

     O elenco de Besson conta com Mia Farrow no papel da avó de Arthur (Freddie Higmore, de A Fantástica Fábrica de Chocolate ); mas o espetáculo se dá quando o menino passa por uma transformação e se torna um minimoy, pequeno ser menor do que os insetos, vivendo num mundo antes visitado por seu avô - que, por sinal, ali se encontra -, ao qual ele vai a fim de recuperar um preciso tesouro.

     Se não se baseia numa grande inovação, o filme encanta pela beleza das imagens, algumas sutilezas de diálogo e até quebras de tabu. Talvez o mais interessante esteja em se observar alguns aspectos da história de amor que vive o herói no mundo em miniatura. Arthur se apaixona por Seliena, princesa que nada tem de convencional. Muito mais do que estar à espera de um príncipe, a mocinha que, aliás, precisa se casar para seguir as tradições, toma todas as iniciativas e decisões, deixando perplexos ao seu redor todos os homens; pai, irmão e, claro, o "príncipe" Arthur. Ela é quem lhe dá, inclusive, o primeiro beijo, o que para os minimoys é um casamento. Nem por isso a princesa se liga definitivamente ao seu eleito; ao contrário, continua sua luta pessoal sem exatamente contar que o amado venha salvá-la.

     A princesa é de fato uma ruivinha um tanto autoritária, acinturada e com grande poder de sedução. Em certa passagem, está claro que os admiradores do sexo oposto ficam muito impressionados com suas formas, sobretudo com o bumbum. Tal abordagem, se erotiza a princesa por um lado, por outro, mostra-a lado a lado do herói, não como moça frágil, mas dotada de uma força e capaz de se defender. Uma perfeita mulher moderna, que acaba se apaixonado pelo herói. Como são de mundos diferentes, sabem ambos que precisarão viver um tempo separados antes de voltar a se encontrar. O tempo de dez luas que, segundo as tradições dos minimoys, é suficiente para testar a força e a fidelidade do amor. Portanto, nada de choradeiras nem pieguices, apenas expectativa. Mas as crianças já queriam saber se no próximo filme Arthur se tornaria minimoy ou a princesa viria a ser uma menina...

      Além de uma imagem que "ajusta" o perfil feminino das velhas fábulas à contemporaneidade, o filme de Besson satiriza um pouco as instituições e coloca o mal como entre parêntesis. De fato, o "Malthazar" é vilão por ter-se deixado levar por caminhos enganosos, pois já foi bom um dia, foi "Balthazar". Outras sutilezas em alusão ao cotidiano podem fazer sorrir e não falta criatividade na apresentação das saídas para as enrascadas dos heróis.

      O som original do filme contou com as vozes de David Bowie (Malthazar), Madonna (a princesinha autoritária) e outras estrelas. Mas para quem quiser ver em português, a dublagem brasileira é também agradável. Seja como for, no mundo dos minimoys a aventura de Besson foi concebida para todas as línguas; os produtos derivados, álbuns de figurinhas, bonecos e vários outros, tendem a tornar esses personagens a nova vedete da criançada e, quiçá, de alguns adultos.

 

 

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