Dizem
que o astro Mel Gibson bebe demais. Devia
parar ou então continuar pois o efeito,
pelo menos diante de Apocalypto , seria o
mesmo, podendo-se escolher entre o delírio
da intoxicação etílica
ou o delírio da síndrome de
abstinência. Num caso ou no outro,
o diretor Gibson é embriagado pelo
passado. O medieval, como em Coração
Valente , ou , ainda mais atrás no
tempo, o bíblico, em A Paixão
de Cristo , com o qual criou polêmica
e engordou extraordinariamente seu caixa.
Seu tema é a injustiça (contra
os irlandeses, contra o Filho de Deus). Agora
ele avança para o século 16,
para fazer justiça ao povo maia e
sua civilização na América
Central, que data de 2600 a.C. e que os conquistadores
espanhóis, a partir de 1540, dizimaram.
Na verdade, Gibson acaba aniquilando os maias
também na tela, pintando-os como uma
horda de selvagens trogloditas ávidos
literalmente por sangue, pois arrancam corações
dos inimigos e comem testículos de
animais. Os espanhóis, que só aparecem
nos minutos finais do filme e não
interferem na ação, na verdade
não teriam sido exterminadores de
civilizações, como todo mundo
pensa, mas agentes profiláticos. Não
havia civilização alguma a
ser preservada. Pelo menos depois de mais
um drinque ou a falta de um.
Sabe-se
que não foi bem assim e embora
nenhum filme tenha a obrigação
de ser fiel à História, Apocalypto exagera sem pudor nas suas mentiras de ficção
salpicada de pancadaria. Os livros didáticos
registram que os maias eram craques em astronomia
e calendários e chegaram a escrever
livros com seus hieróglifos. Grandes
escultores e arquitetos, erigiram templos
e pirâmides e uma de suas cidades,
Tikal, chegou a abrigar quinhentas mil pessoas
no ano 600 a.C. Nada disso, apenas selva
tropical com onças e macacos, aparece
na tela. Mas, se falsifica no essencial,
Gibson capricha no acessório, buscando
realismo. Sua história de Jesus era
falada em aramaico e latim e a de agora no
dialeto maia. Escrita pelo diretor-produtor
e um certo Farhad Safina, trata de destino
e amor à família, numa interpretação
piedosa, e de uma carnificina sangrenta entre
seres primitivos de pele morena e nádegas
expostas, numa avaliação ponderada.
Supostamente a felicidade de uma taba se
quebra quando é invadida por infelizes
que, contrariando as normas da civilização,
querem construir mais templos (a fé equivocada)
e neles fazer mais sacrifícios humanos
(a ignorância bárbara e cega)
Como os vampiros, Gibson não se alimenta
da História, mas de sangue.
Assim
se conta o calvário do caçador
Jaguar Paw (Rudy Yungblood), perseguido,
torturado, escravizado, flechado, em defesa
da mulher grávida e do filho pequeno.
Jamais se viu aborígenes tão
ferozes, fossem eles arquitetos ou não.
O resultado é repugnante, mas não
por causa da falsidade geral. Nesta segunda
exterminação dos maias, Gibson
faz um filme vulgar, repleto de ação
e vazio de emoção e sentimentos.
O interesse é por abrir peitos e exibir
corações latejando e pingando
sangue. Talvez canibais apreciem este espetáculo.
Mas não se sabe, pois canibais não
costumam ir ao cinema.