Crítica:
Por Erika Corrêa

É ao som da ária Lascia ch'io Pianga, da ópera Rinaldo, a mais famosa do compositor barroco alemão Handel, que se iniciam as primeiras tomadas do filme mais polêmico do ano: Anticristo.  

Acompanhando a música de lamento, cenas em preto-e-branco, filmadas em câmera lenta são tão belas e fortes que já fazem o espectador estremecer na poltrona à espera do novo trabalho do diretor dinamarquês Lars von Trier e, até aqui, trata-se apenas do prólogo.

Famoso por inventar o movimento do Dogma 95, que almejava um cinema mais realista e menos comercial, utilizavando câmera na mão e poucos recursos tecnológicos, Lars von Trier produziu o incômodo Os Idiotas, em 1998, e seguiu para trabalhos cada vez mais experimentais como Dogville, de 2003, todo filmado dentro de um galpão.

Após produções menos surpreendentes como O Grande Chefe (2006), ele retoma sua essência e realiza sua obra mais pertubadora e como ele mesmo define “seu melhor filme”.

Anticristo nada tem a ver com falta de recursos cinematográficos - buscados outrora pelo diretor. Pelo contrário, tem uma fotografia impecável comandada por Anthony Dod Mantle e uma preocupação estética inquestionável. No entanto, a temática é densa, o roteiro não é convencional e a história não se propõe esclarecer todos os episódios, ou seja, mais um filme na contramão dos blockbusters americanos.

Lars von Trier foi malhado no Festival de Cannes - quando apresentou pela primeira vez o longa-metragem em uma sessão para jornalistas. Houve até quem exigisse explicações sobre suas motivações para criar algo tão caótico e violento. O diretor, por outro lado, justificou uma fase de depressão que enfrentou enquanto rodava o filme e que lhe serviu de inspiração.

Mas tudo isso é balela. O interessante é que Anticristo parece atingir exatamente o que pretende: provocar forte emoção e fazer com que cenas fiquem dias remoendo na cabeça do espectador.

Na história, um casal passa por uma perda muito grande. Ele é um terapeuta, ela é uma intelectual que está escrevendo uma tese sobre as perseguições femininas.  A interpretação, sem dúvida impecável, é por conta dos atores Willem Dafoe e Charlotte Gainsburg, vencedora de melhor atriz em Cannes por esse papel.

Com suas técnicas terapêuticas, ele decide ajudar a esposa a atravessar um período de luto. Assim, tira-a de um hospital onde recebia um tratamento à base de remédios, e seguem para uma cabana no meio de uma floresta. É ali que começam a acontecer coisas estranhas, visões, manifestações da natureza, onde realidade e sonho se confundem.

Acusado injustamente de misoginia pela crítica e público - até porque já trouxe sofrimento a outros personagens femininos como o de Nicole Kidman em Dogville - Trier traça uma purgação e esfacelamento da relação do casal protagonista, muito longe de ser algum tipo de aversão ao feminino. 
 
Pelo contrário, o que ocorre é uma situação nevrálgica entre dominação e dependência emocionais. Ele é marido, não cabe como terapeuta. Ela acredita que tem um luto atípico, ele não. Ela se dá alta, ele não acredita que está curada. Ela conta sobre uma passagem enigmática do passado, ele crê que é fantasia. Oprimida e opressor, talvez louca e são, somados ao sentimento mais doloroso da culpa.  Está aí o enredar neurótico para que o diretor abuse dos recursos ficcionais, e expurgue os demônios na tela.

Dificilmente, ao sair da sessão de Anticristo é possível se manter imparcial. Quem gostar deverá gostar muito e deverá levar para alguns dias à vontade de decifrar tantas simbologias presentes no filme.
 

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