Crítica:
Por Erika Corrêa

     Adaptação para o cinema de um romance não precisa necessariamente segui-lo ao pé da letra para ser boa. Optar por um lado da trama, deixar de lado um ou outro personagem secundário não compromete o filme. Mas é preciso um roteiro bem elaborado e o talento do diretor para dar graça e coerência à história filmada.

Aqui, o diretor inglês Mike Newell (Quatro Casamentos e um Funeral/1994 e Harry Potter e o Cálice de Fogo/2005) arrisca-se a adaptar a obra de ninguém menos que o prêmio Nobel, Gabriel Garcia Marques, e transpõe para o cinema “O Amor no Tempo do Cólera”, escrito em 1985. O resultado é catastrófico. Não pelas ressalvas expostas acima. O problema é que o famoso romance só não virou novela mexicana porque se passa na Colômbia, conseqüentemente, é um dramalhão colombiano.

O ator Javier Badem, que já foi indicado ao Oscar em 2000 por Antes de Anoitecer, interpreta Florentino Ariza, poeta e telegrafista que espera exatamente 53 anos, sete meses e onze dias pela mulher que considera seu verdadeiro amor.

No livro o personagem inspira um dos mais autênticos românticos do século XX, que primorosamente Gabo vai construindo. No filme, Florentino Ariza está muito mais para um abestalhado, com cara de bobo a maior parte dos 138 minutos da película, já faz o personagem dos 24 aos 74 anos.

A história de amor ocorre entre os anos de 1880 a 1930, enquanto uma epidemia de cólera castiga a cidade de Cartagena, na Colômbia. Fermina Daza (Giovanna Mezzogiorno), uma bela jovem que chega a cidade é o alvo do amor do jovem telegrafista. Durante algum tempo eles trocam cartas e juras de amor. Mas quando o pai de Fermina descobre o romance a afasta do amado e faz de tudo para que ela se case com outro, no caso, um médico com carreira promissora.

O tempo se passa, as rugas se profliferam no rosto de Fermina setentona, mas, por descuido dos maquiadores, seu pescoço continua intacto de mocinha. Já Ariza espera a morte do marido da amada, transando com outras 486 mulheres, que anota em um livreto de cabeceira. E a a avalanche de pieguces e personagens desperdiçados continua, como o caso de Fernanda Montenegro, que interpreta a mãe do protagonista.

Amor no Tempo do Cólera tem roteiro do sul-africano Ron Harwood e foi filmado em na parte antiga da prórpia cidade de Cartagena. Outras tomadas ainda mostram o rio Magdalena e a cidade colonial de Mompós. Mas toda a exuberância caribenha não salva o filme, que para completar tem na trilha três canções de Shakira, a cantora pop colombiana. E aí, vai encarar?

 

© Copyright 2008 Diário do Comércio - Todos os direitos reservados