Crítica:
Por Lúcia Helena de Camargo
Biografias de pessoas extraordinárias costumam render bons filmes. Único problema: já se entra na sessão sabendo o final da história. Sobre Amelia Earhart, aviadora cuja vida é contada em Amelia,o conhecimento sobre o desfecho trágico – seu desaparecimento, quando voava sobre o oceano Pacífico – não impede que a trama, dirigida pela indiana Mira Nair e estrelada por Hilary Swank, tenha doses de emoção e suspense.
Amelia foi a primeira mulher a fazer a travessia do oceano Atlântico pilotando um avião, em 1928. Ganhou o apelido de "Lady Lindy", em referência ao aviador Charles Lindenberg, que no ano anterior havia sido pioneiro na travessia do Atlântico em um voo solitário e sem escalas. Ela alcançaria a fama rapidamente e passaria a emprestar seu nome e prestígio a produtos como malas de viagem, máquinas fotográficas e até cigarros. No mundo atual, seria natural, pois toda pessoa que é alçada à categoria de celebridade acaba anunciando pasta de dentes, sabão em pó ou automóveis. À época, porém, poderia soar mercantilista demais. Assim, Mira Nair preocupa-se em explicitar no filme que Amelia aceitava participar da propaganda porque foi a única maneira que encontrou de obter dinheiro para pagar os altos custos de manutenção dos aviões e os empreendimentos aéreos nos quais se envolvia, desde cursos para pilotos iniciantes – preferencialmente mulheres – até campeonatos destinados a revelar novos talentos.
O cérebro comercial por trás dos contratos foi seu mentor, o magnata do mercado editorial George Putnam, com quem viveu um romance e eventualmente se casaria. Richard Gere encarna esse marido atencioso, prestativo e absolutamente dedicado, que não desiste dela nem no momento em que uma traição pode estar em curso, quando ela passa a dedicar longas horas ao aviador Gene Vidal (Ewan McGregor), pai do então pequeno Gore, que viria a ser um dos grandes escritores americanos do século XX.
O afinco com que Hilary Swank vive a personagem é admirável. A atriz, duas vezes ganhadora do prêmio Oscar (por Garotos não Choram, em 2000; e Menina de Ouro, em 2005), transforma-se de maneira completa. A caracterização é apurada: cabelos curtos, roupas idênticas às usadas por Amelia e trejeitos que parecem ter sido estudados à exaustão (com base principalmente nos filmetes caseiros deixados pela aviadora) para serem reproduzidos fielmente. Hilary é magistral quando interpreta tipos bem delineados. Apenas não se sai tão bem quando encara um papel no qual precisa viver uma mulher mais parecida com ela mesma, a exemplo do fraco desempenho em P.S. Eu Te Amo (2007).
O roteiro foi baseado na biografia de Amelia Earhart escrita por Susan Butler, Mary Lovell e Elgen Long. E a gênese do longa-metragem está na admiração de Ted Waitt, CEO da Avalon Pictures (a produtora), pela trajetória de Amelia. Ela possuía as qualidades que despertaram esse sentimento em muita gente. Ousada, voava sobre a África, Ásia e a Europa. Carismática, desfilava a bordo de carros em praça pública e não escondia que sua paixão pela aviação estava diretamente ligada ao fascínio pelo perigo.
Em 1937, a bordo do avião nomeado de Friendship (amizade), ela embarcou na mais arrojada de suas missões: dar a volta ao mundo em um voo solo. Sumiu quando sobrevoava o oceano Pacífico, perto da Ilha Howland. Não foram encontrados jamais nem corpo nem avião. Foi declarada morta no dia 5 de janeiro de 1939.
Desde então, é uma das figuras mais homenageadas e lembradas de todos os tempos. Na música, aparece na canção Amelia, que Joni Mitchell escreveu para um álbum de 1976; é cantada por Jon Mclaughlin em Amelia's Missing (2007), cuja letra diz "Amelia's missing somewhere out at sea" (Amélia está desaparecida em algum lugar no mar). Amelia Earhart é uma canção do country Curtis Eller, que fala também sobre o último episódio da vida de Amelia.
A saga da aviadora está no filme feito para a TV Amelia Earhart: The Final
Flight (1994), com Diane Keaton no papel principal. O roteiro serviu depois como base para peças teatrais. Ela é citada até no seriado Friends. No episódio Aquele da Loteria, de 2003, Ross Geller, personagem de David Schwimmer, comenta duas vezes o misterioso desparecimento.
Há citações que, por serem totalmente descompromissadas com a realidade, são muito engraçadas, como na série Star Trek: Voyager. O episódio The 37's (1995) sugere que Earhart e Noonan, seu navegador, foram abduzidos por alienígenas em 1937 e colocados em “hibernação”. Isso até serem encontrados, no ano de 2371. Uma das bases estelares principais da frota estelar Star Trek no século XXIV é, por esse motivo, nomeada de Earhart.
Diversas versões que "explicam" o sumiço da dupla assumindo que existiu um romance entre eles, como no livro I Was Amelia Earhart (1996), no qual Jane Mendelsohn traça uma falsa autobiografia, com "Earhart" contando sua história. Os fatos de 1937, do empreendimento para realizar a ousada viagem até o final não explicado. Em vez de enfrentar um desastre aéreo, eles teriam envelhecido juntos e felizes em uma paradisíaca ilha do Pacífico. Será?
Amelia (EUA /Canadá, 2009, 111 minutos). Direção: Mira Nair. Com Hilary Swank, Richard Gere, Ewan Mcgregor, Christopher Eccleston, Joe Anderson, Cherry Jones.