Crítica:
Lúcia Helena de Camargo

Um homem dividido entre duas mulheres. Velha história. O desafio é contá-la de novo, de maneira diferente. Amantes, empenha-se nisso. Deprimido, Leonard Kraditor (Joaquin Phoenix) tenta o suicídio. Não consegue. E passa a levar uma existência alheia ao mundo e a todos. Morando na casa dos pais, no bairro novaiorquino do Brooklin, diariamente toma o trem para ir a Manhattan, ajuda o pai nos negócios da família, diz estar interessado em tornar-se fotógrafo profissional. Mas ele não liga para nada. Sente-se deslocado e infeliz.

A família judia faz marcação cerrada. Isabella Rossellini é a mãe, Ruth Kraditor. Paciente, espera, dedicada. Não deixar passar nada. O pai arranja-lhe trabalho e até uma namorada, Sandra (Vinessa Shaw), filha de amigos. A moça é inteligente, segura, comportada, segue a religião, posa para fotos na cerimônia de Bar Mitzvá do irmão mais novo, gosta de assistir ao filmeA Noviça Rebelde quantas vezes passar na TV, tem um cachorro chamado Rex. Está genuinamente apaixonada por Leonard, que também gosta dela. Além disso, os pais da moça estão comprando parte da lavanderia do pais de Leonard.

Porém (sempre há um porém, já que a simplicidade não é interessante), ele conhece a vizinha Michelle (Gwyneth Paltrow), moradora de apartamento no mesmo prédio. Ela é complicada, cheia de neuroses, meio avoada e não exatamente culta. "Você é dessas pessoas que leem livros?", pergunta ao conhecer a casa dos Kraditor e ver estantes com um número razoável de títulos. Michelle não desgruda do celular, recebe e manda mensagens freneticamente. Fica profundamente feliz ou sente-se miserável, a depender do que diz o próximo texto digital recebido. Toma drogas para "curtir" a noite na boate e chama Leonard para longos papos às seis da manhã, no terraço do edifício. O rapaz, como se imagina, fica caidinho por ela. Triângulo amoroso formado, Leonard já não sabe mais o que sente, pensa, quer. Não que ele desgoste de Sandra. Só que sente por Michelle a afinidade dos perdidos, dos inconformados com a sociedade.

Dividido entre a devoção à tresloucada Michelle e o afeto confortável que compartilha com sua namorada judia, caminha entre a sensatez e a obsessão, pendendo para o lado da loucura. A vizinha tem o brilho e a dramaticidade que tornam o dia-a-dia menos enfadonho. E também representa perigo, já que ela mantém como amante um homem casado e sinaliza que a qualquer momento pode optar por largar tudo e fugir, desaparecer, para recomeçar sua vida em lugar distante. Leonard torna-se refém do fascínio pelo risco que tanto encanta os seres humanos, sejam homens ou mulheres.

O ator Joaquin Phoenix recentemente declarou que Amantes foi seu último trabalho para as telas e que de agora em diante vai se dedicar à carreira de rapper. Pode ser apenas uma bravata. Mas se for mesmo sua despedida do cinema, terá sido de maneira digna, pois ele encarna com convicção o atormentado rapaz, a despeito da trama-clichê. (LHC)

Amantes (Two Lovers, Estados Unidos, 2009, 110 minutos). Direção: Direção: James Gray. Com Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow, Vinessa Shaw e Isabella Rossellini.

 

 

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