Crítica:
Por Erika Corrêa

     São 72 horas da vida de um grupo de jovens ricos californianos, que o espectador acompanhará sem se mexer da poltrona no excelente triller do diretor Nick Cassavetes. Baseado em fatos reais, Alpha Dog conta a história de Johnny Truelove (Emile Hirsch) um traficante de drogas de uma região privilegiada de San Gabriel Valley, em Los Angeles.

     Incentivado pelo próprio pai (Bruce Willis), Johnny vive cercado por seus camaradas em uma vida regada a sexo, drogas e rap. Droga, neste caso, é a própria maconha que vendem e consomem incessantemente. Um dia, um de seus clientes que lhe deve dinheiro se desentende com ele. Jake (Bem Foster) é um jovem-problema, já esteve na prisão, sabe artes marciais e não está disposto a se redimir, tão pouco a acertar suas dívidas. Por outro lado, Johnny se sente encurralado: ele não pode se mostrar intimidado por Jake diante de seus amigos e esquecer a desavença.

     Impulsivamente, ele e seus comparsas decidem seqüestrar o irmão mais novo de Jake, Zack (Anton Yelchin), de 15 anos. Zack se torna um refém um tanto incomum, já que passa a conviver com a turma de Johnny, compartilhando drogas, festas e garotas, sob a tutela do fiel parceiro do traficante, Frankie (Justin Timberlake). Em contrapartida estão: a família do garoto Zack desesperada com seu sumiço; a polícia acionada; e Jake sedento por vingança.

     É neste período de três dias que as soluções para o final do seqüestro vão se tornando cada vez mais complicadas, e decisões ruins vão dando lugar a outras ainda piores. Paradoxalmente, sabendo que se trata de uma história trágica, o espectador torce por um final feliz até as últimas cenas.

     O eletrizante roteiro, também assinado por Cassavetes, começou a ser desenvolvido quando o diretor tomou conhecimento do caso de Jesse James Hollywood, o mais jovem criminoso já procurado pelo FBI. Capturado na cidade de Saquarema, no Rio de Janeiro, em 2005, então com 25 anos, Jesse James, tinha uma namorada brasileira, que no momento de sua prisão, esperava um filho dele e desconhecia sua verdadeira identidade.

     Atualmente, Jasse James está preso nos EUA e aguarda julgamento, mas seus advogados entraram com um processo contra a distribuidora do filme, a Universal, alegando que o lançamento de Alpha Dog possa influenciar a decisão do júri.

     A visão chocante e áspera da cultura dos jovens da classe média alta norte-americana é um dos pontos mais bem trabalhados no filme. A começar pelo linguajar empregado pelos garotos do filme, bastante ofensivo e repleto de gírias modernas. A palavra "fuck", por exemplo, e seus derivados são ditas 310 vezes ao longo de Alpha Dog.

     Fica no ar a questão: até que ponto a negligência dos pais contribui na formação desses jovens marginais? Longe de ser reducionista, após acenderem as luzes da sala do cinema, essa e outras perguntas pululam sobre os motivos que levam cada vez mais jovens de classes abastadas a delinqüirem.

      Apesar da presença de astros como Sharon Stone, que interpreta a mãe do seqüestrado, e aparece irreconhecível em uma das cenas, são os atores jovens que mais brilham no filme. Nick Cassavetes preparou o elenco jovem antes das filmagens de uma forma nada convencional. Eles participaram de um programa de exercícios e dieta restrita todos os dias trancados em uma casa. A idéia era que eles conseguissem mostrar a “camaradagem” que existe entre a turma e com a familiaridade desenvolver melhor seus personagens. Tiro certo: todos estão convincentes em seus papéis.

      A capacidade de Cassavetes explorar a intimidade de seus personagens já ficou evidente em seu filme de estréia como diretor De Bem com a Vida/1996, com Marisa Tomei ou mesmo em produções mais recentes como Um Ato de Coragem/2002 com Denzel Washington. Em Loucos de Amor/1997, por exemplo, Cassavetes consegue provocar tamanha angustia que o espectador dificilmente consegue decidir do lado de qual personagem fica, o louco interpretado por Sean Penn ou o mocinho John Travolta. Neste seu competente trabalho de direção, o que poderia se tornar mais um filme sobre drogas e gangues, se transforma em um tocante filme. Alpha Dog é duro de digerir, mas muito real.

 

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