Crítica:
Por Por Erika Corrêa
"É na glândula pineal, situada no cérebro, que a alma se fixa", é assim com uma citação de 1640, do filósofo Renê Descartes que inicia o filme Almas à Venda da estreante diretora Sophie Barthes.
A tragicomédia, com elementos do absurdo, é uma sátira irônica e inteligente ao mundo contemporâneo e como os homens lidam com suas crises existenciais. Assim, Barthes centra sua história no ator Paul Giamatti, nome também do seu personagem, já que ele interpreta também um ator no filme.
Ao ensaiar para a peça russa “Tio Vânia”, de Thecov, que está prestes a estrear na Broadway, Giamatti não consegue se desvencilhar da carga emocional do personagem após o palco.
Perturbado e deprimido, ele encontra a solução para seu problema em um artigo de uma revista. Trata-se de uma companhia que promete aliviar o sofrimento das pessoas extraindo, congelando, guardando e alugando suas almas.
Após extrair sua alma por duas semanas, Giamatti acaba por se envolver em diversas outras confusões e as reviravoltas do filme começam.
O humor cresce, mas também se intercala com cenas mais sombrias, proporcionadas principalmente pela personagem Nina (Dina Korzun), uma contrabandista russa, que trabalha como “mula de almas” no mercado negro.
Filmado em Nova York e São Petersburgo, o filme de Sophie lembra muito o estilo de produções como Quero ser John Malkovich (1999) e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004) - todos tratam temas absurdos como se fossem coisas completamente cotidianas e envolvem sempre uma crítica social.
Em Almas à Venda há o eufemismo dos conflitos interiores, ou seja, as dores da alma são banalizadas. Mas em nenhum momento a história traz conceitos religiosos. Como comentou a própria diretora: “Acho que se este procedimento estivesse disponível (extração da alma), e eu lesse uma nota no jornal a respeito, eu engoliria. É o próximo Prozac”.
Para tentar provar que a alma existe e tem peso, o médico americano Duncan MacDougal, em 1907, pesou seis pessoas antes e depois de morrerem e constatou que o ponteiro da balança quase sempre caía.
Esse conceito ganhou título de outro filme: 21 Gramas, (2003) do mexicano Alejandro González Iñárritu.
A alma, seu peso, sua venda, empréstimo não se esgotam como tema no cinema. E mais uma vez dá imaginação a uma ótima produção.