Crítica:
Por Lucia Helena de Camargo
Nesta história há o coelho que veste colete e usa um relógio que conta os dias e não as horas, a menina que cresce quando come bolo e fica com poucos centímetros de altura quando toma o líquido contido na garrafa cujo rótulo diz apenas "Beba-me". Cachorros falam, gatos também; e lagartas, mais ainda. Há rainhas e os soldados são cartas de baralho. Alice no País das Maravilhas é a história infantil mais surreal que já existiu. E talvez por isso tenha conquistado tanta gente ao longo de tanto tempo. Publicada pela primeira vez pelo inglês Lewis Carroll em 4 de julho de 1865, Alice chega na próxima quarta (21) aos cinemas brasileiros, na adaptação de Tim Burton.
Linda Woolverton, autora do roteiro, construiu o enredo usando elementos tanto do livro Alice no País das Maravilhas quanto da continuação, Alice Através do Espelho. A garota aparece mais velha, 13 anos depois de sua primeira vez no País das Maravilhas.
"Meu pai costumava dizer que é bom pensar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã", lembra Alice, ambientando-se ao bizarro local e descobrindo que por mais absurdos que sejam os acontecimentos, a loucura talvez seja componente essencial para aproveitar melhor a existência. "Todas as melhores pessoas são loucas", conclui a menina, vivida nas telas pela jovem atriz australiana Mia Wasikowska. É a deixa para embarcar nas maluquices que o diretor temperou com sua verve pra lá de original. E aproveitar a viagem.
Johnny Depp, ator preferido de Burton, vive o Chapeleiro Maluco. A caracterização é ainda mais alucinada do que a de Willy Wonka, de A Fantástica Fábrica de Chocolate. Ele aparece agora com um cabelo ruivo ouriçado, sobrancelhas demais e tétricos olhos verdes-amarelados. Caminha com naturalidade sobre a mesa na qual seus convidados tomam chá. E fabrica chapéus. Seu maior desafio será fazer um chapéu que agrade e – principalmente – caiba na enorme cabeça da Rainha Vermelha, encarnada por Helena Bonham Carter, mulher de Burton que mergulha com afinco na fantasia e proporciona cenas ótimas, decretando, a todo momento, "Cortem-lhe a cabeça!" aos súditos que contrariam quaisquer de seus fúteis desejos. Crispin Glover é o Valete de Copas, seu quase sempre fiel companheiro.
Para ser a Rainha Branca – irmã da Rainha de Copas – foi chamada Anne Hathaway (O Diabo Veste Prada). Angelical e boazinha, soa alienígena na terra em que os demais têm intenções pouco nobres. Culpa da atriz ou do roteiro, acaba meio sem graça em meio a personagens como o apressado e irônico Coelho Branco (Michael Sheen) e a misteriosa Lagarta Azul, interpretada por Alan Rickman.
Este Alice no País das Maravilhas leva às telas ainda uma sensualidade presente na história de Lewis Carroll, mas ausente nos filmes já feitos com base nela. Nada que seja vetado às crianças, diga-se. As cenas são delicadas e justificáveis. Exemplos: quando Alice cresce até alcançar três metros de altura, sua roupa estica. Em seguida, ela diminui consideravelmente de tamanho e a roupa
fica larga demais. Então caem as alças do vestido, revelando ombros e quase um pouco mais do corpo da atriz.
Como Cheshire, o Gato Que Ri, vivido no filme por Stephen Fry, os estúdios Disney estão rindo à toa. O filme, que estreou nos EUA em 3 de março, já arrecadou mais de US$ 500 milhões, sendo US$ 300 milhões lá mesmo, nos EUA.
Filmado com câmeras convencionais e depois convertido para o formado 3D (Hollywood coloca todas as fichas no formato), o filme não vem amealhando muitos elogios no quesito "efeitos". Convém lembrar que, ao contrário de Avatar, a tecnologia não é a estrela de Alice, embora o visual seja impecável e apareçam, aqui e ali, muitos daqueles objetos saltando da tela e pregando pequenos sustos na plateia. Lisérgica como escrita por Carroll, a história ganhou ares góticos e absolutamente deliciosos que dispensam arremates de traquitanas geradas em computador. Se você optar por assistir à versão em três dimensões, até poderá se entreter com os pequenos truques. Mas caso só conseguir ver Alice na antiquada tela que oferece as parcas duas dimensões, não pense que perderá algo. O espetáculo maior está garantido pela inventiva condução de Tim Burton.
Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, EUA/ Inglaterra, 2010, 108 minutos).
Direção: Tim Burton.
Com
Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Christopher Lee, Michael Sheen.