Crítica:
Por Erika Corrêa

        Quem não conferiu a origem do longa Algo Como a Felicidade antes de entrar na sala de cinema, é possível que não descubra em que parte do mundo a história se passa. O idioma soa bastante estranho aos ouvidos tupiniquins; os personagens, uns têm traços do norte europeu (altura, olhos e pele claros), outros são morenos (com expressão de índio mexicano); e o cenário não mostra nenhum ponto de referência turística.

        Com o desenrolar do enredo, dá para concluir que a cidade em cena fica bem distante da América. Trata-se de uma pequena cidade da República Tcheca, em que a língua de origem eslava só se fala praticamente naquele País.

        A história se centra em um grupo de moradores de um conjunto habitacional atrás de suas realizações pessoais. O tema universal torna-se peculiar por se tratar do norte da Boêmia, uma região devastada pelas minas de carvão durante o período da Cortina de Ferro.

        Ali os antigos aldeões tiveram seus vilarejos destruídos e foram transferidos para tais moradias populares. Perderam suas raízes e, diferente de qualquer outra periferia, o que lhes assombra não é a violência, mas sim os sonhos e ideais que devem buscar. “Passamos lá muito tempo durante a pré-produção e encontramos pessoas que, freqüentemente em condições muito difíceis, lutam por algum sentido em sua vida. Eu queria que os personagens do nosso filme fossem parecidos com elas”, conta o diretor e roterista Bohdan Slama.

        Deu certo. Algo como a Felicidade ganhou seis prêmios no Czech Lion, o mais importante do cinema Tcheco e os prêmios de Melhor Filme e Atriz no Festival de San Sebastian.

        Monika (Tatiana Vilhelmová) se despede do noivo em um aeroporto. Ele parte para os Estados Unidos, confiante em um novo trabalho e nova vida. Ela pretende esperar a adaptação do companheiro para, em pouco tempo, se unir a ele.

        Acontecimentos inesperados no pacato subúrbio fazem com que Monika vá adiando sua viagem. Enquanto isso, seu melhor amigo, Tonik (Pavel Liska), que nutre uma paixão platônica por ela, tenta levar uma vida independente da família que reside no conjunto habitacional. Ele mora com a tia em uma fazenda decadente, rodeada de usinas, de resíduos e de atividades de extração de minérios.

        Todavia, Tonik se agarra na utopia de reerguer esse lar, sem se dar conta que não há ao redor dali mais natureza alguma. Romântico, passivo diante de Monika, Tonik mostra certa indolência como se estivesse sempre chapado por conta de seus baseados.

        Assim, ele é consigo mesmo: cabelos despenteados, oleosos e uma camisa surrada da banda brasileira Sepultura, que não tira do corpo.
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        Um elo se fortalece entre ele e Monika quando a amiga em comum Dasha (Anna Geislerová) tem uma crise mental e é internada em um hospital psiquiátrico. Seus dois filhos pequeninos ficam aos cuidados de Tonik e Monika.

        A relação da mãe desequilibrada com as crianças é o ponto mais alto e também o mais dramático do filme. Dificilmente não causará um mal estar proposital no espectador.
“ Foi uma aventura incrível filmar com as crianças. Eles carregavam a autenticidade e a força da história. Esses dois garotos são a coisa mais preciosa no meu filme, como na minha vida. Eles são irmãos e órfãos, e eu os adotei”, ainda ressalta Slama.

        Neste entrelaçamento de relações complicadas e, “humanas”, Slama, consegue expor as incongruências do amor, o medo da solidão e a destreza da amizade. No final, há a sensação de ter visto uma passagem da vida de pessoas que nos rodeiam, mesmo que a gente nem saiba de onde é que venha aquela língua complicada.

 

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