Crítica:
Por Lúcia Helena de Camargo
Mais reflexivo, didático e menos engraçado do que seus trabalhos anteriores. Assim é Abraços Partidos, novo longa-metragem de Pedro Almodóvar, que chega nesta sexta (4) aos cinemas brasileiros. Penélope Cruz está no papel da atriz Lena Rivera, casada com Ernesto Matel (José Luis Gómez) e protagonista do filme Garotas e Malas, dirigido por Mateo Blanco (Lluís Homar).
Como no clichê, estrela e cineasta acabam apaixonados. O rico, autoritário e ciumento marido suspeita. Com intenção de controlar de perto a mulher, torna-se produtor do filme de Blanco. E encarrega seu filho, Ernesto Matel Júnior, de fazer um making off sobre o dia-a-dia das filmagens. O rapaz, homossexual, acaba por também cair de amores pelo diretor. E leva um pouco além a tarefa da qual foi encarregado pelo pai: passa a seguir todos os passos da madrasta Lena, gravando com sua pequena câmera os encontros furtivos da moça com o amante.
Com direito a muitas idas e vindas no tempo, acompanhamos o drama do casal apaixonado que tenta ficar junto, sua fuga e momentos idílicos – alguns dos abraços do título – na belíssima cidade litorânea de Lanzarote, onde Blanco adota o codinome Harry Caine, pelo qual passaria a ser conhecido nos anos seguintes. A semelhança entre Harry Caine e a palavra inglesa hurricane (furacão) não parece ser casual. Pontuando a desesperada história de amor, surgem cenas de Garotas e Malas, esta uma comédia bem ao estilo do diretor espanhol (que declarou ter baseado o roteiro desse filme dentro do filme no seu Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos). Foram rodadas mais sequências do que as necessárias. As excedentes poderão ser vistas na seção de extras, quando for lançado o DVD.
Abraços Partidos também escancara particularidades sobre o modo de fazer cinema. A começar pelos métodos de conseguir dinheiro para a produção, passando à escolha de elenco, locações, cenários, bastidores e empecilhos diversos, como uma viagem inesperada da atriz principal, que atrapalha o cronograma. E chega-se à edição, tópico que ganha especial importância na carreira de Blanco, por razões tanto profissionais quanto afetivas. Nessa parte Almodóvar vira professor.
Pega o espectador pela mão e evidencia, com exibição de diferentes tomadas, porque uma delas é a melhor e as demais devem ser descartadas na montagem. Toda a diferença do mundo, nos ensina o espanhol, estão na luz adequada; no tom certo de cada palavra dita, naquele movimento de boca ou levantada de sobrancelha na medida exata. Apenas uma mastigada a mais no bolinho comido junto com o café pode estragar tudo e obrigar os atores a repetir a cena pela enésima vez, até ser alcançada a perfeição. Ou a exaustão. Nesse caso, fica-se com a melhor possível.
Abraços Partidos (Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos, Espanha, 2009, 128 minutos). Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Com Penélope Cruz , Lluís Homar, Blanca Portillo, José Luis Gómez , Tamar Novas.