Por Lúcia Helena de Camargo

Ken Loach  é especialista em retratar a classe operária. Na ativa desde os anos de 1960, nos últimos tempos ele abordou o tema em Mundo Livre (It's a Free World, 2007) e Ventos da Liberdade (The Wind that Shakes the Barley, 2006), ambientado em 1920, sobre trabalhadores irlandeses reunidos contra as tropas britânicas que tentam impedir a independência do país. O filme conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes, além de outros prêmios. À Procura de Eric, usa a paixão pelo futebol para falar também sobre como a união faz a força.

O longa conta a história do carteiro Eric Bishop (Steve Evets). Apático com a própria vida, há 30 anos está separado de seu grande amor, Lily (Stephanie Bishop), com tem teve uma filha – que acaba de dar-lhe uma neta. Avô dedicado, leva o bebê para passear, troca fraldas. Porém, treme nas bases só de pensar em reencontrar a ex-mulher. Além disso, precisa cuidar de dois enteados adolescentes. Ele tem uma paixão: o futebol. Reúne-se com os colegas para ver jogos e tomar cerveja no pub. Como todos os torcedores, ridiculariza os adversários, entra em  discussões sobre os melhores passes etc. Sua turma não pertence à categoria dos hooligans, então os debates são resolvidos na base dos insultos verbais, sem passar à violência física.

Com ajuda de um cigarrinho ilegal que fuma para relaxar, Eric passa a ter alucinações com o jogador francês Eric Cantona (representando ele mesmo nas telas), conhecido como um dos craques mais talentosos e temperamentais que já passaram pelo Manchester United. O atleta vira confidente e começa a dar conselhos a seu xará.

O longa abriu a atual edição da Mostra de Cinema de São Paulo e vem conquistando público por ser leve e engraçado. Os temas sérios – amizade, companheirismo, relacionamento entre casais – estão ali, mas aparecem em meio a cenas propositadamente ridículas, como os colegas de Eric nos Correios tentando animá-lo contando piadas de humor inglês típico, aquele que apenas eles mesmos parecem apreciar. Loach posiciona seu olhar como o do forasteiro que embora não ache graça nenhuma nas piadas, enxerga beleza nos sentimentos dos homens empenhados em alegrar o amigo.

Outra cena ainda mais hilária exibe os senhores de meia idade reunidos no exercício de seguir à risca as instruções para a felicidade contidas em um livro de auto-ajuda. Da respiração pausada aos pensamentos positivos, eles passam por todo o périplo recomendado pelo autor.

Um problema crucial de Eric, o carteiro, é lidar com um perigoso problema no qual e envolve um de seus enteados. E será na conferência de bar que a solução começará a ser desenhada. Uma admirável cooperação entre iguais poderá levar a uma resolução antes que comece a partida da final do campeonato.

 


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