Crítica:
Por Josafá Crisóstomo

A Música segundo Tom Jobim é um filme de Nelson Pereira dos Santos. Isso diz muito em relação ao tipo de sensibilidade colocada em cena para o surgimento desse tributo ao grande compositor e artista brasileiro e que, ao lado de Villa-Lobos, é um representante genial da riqueza musical brasileira, cuja obra alcançou todo o mundo e em pleno apogeu.

Sendo ele um diretor de cinema também genial não lhe será difícil contar a história do legado de Jobim, ou seja, sua obra. É exclusivamente com ela que tomaremos contato durante a projeção do filme, pois em A Música segundo Tom Jobim não se conta com nenhum depoimento ou declaração verbal e/ou narrativa, que não seja a possibilitada pela interpretação de sua música e que no longa-metragem ocorre durante o desfile do talento de grandes intérpretes do século XX: cantores, cantoras e músicos que se irmanaram em torno do valor máximo da criação musical de Antonio Carlos Jobim.

Nelson Pereira dos Santos tinha a sua disposição um material riquíssimo, composto de um grande acervo de fotos e filmes, e que pertencia à família do compositor, além de arquivos oriundos do trabalho do pesquisador Antonio Venâncio. O próprio contato com esse material disponível é que permitiu ao diretor desejar elaborar a costura de todo esse imenso painel, respeitando sempre o caráter audiovisual e propriamente musical desse acervo. Nelson observou que cada registro já contava uma história e o que fez foi apenas juntá-las pela sua assinatura. Para tanto e, por sua vez, ele contou com as colaborações de Miúcha Buarque de Holanda, parceira no roteiro, e de Dora Jobim, co-diretora do filme, e também ela uma profunda conhecedora desse acervo com a história de seu avô.

Contudo, eu acredito que o fato de Nelson Pereira dos Santos ser um contemporâneo de Antonio Carlos Jobim é o que permitiu que esse tecido uno, formado em película por tantas performances e imagens distintas, trouxesse para o centro da cena a trajetória completa do compositor, a ponto de nada faltar. Afinal, tal quadro nunca é demais, nem de menos. Está tudo lá: o Rio de Janeiro dos anos 50, a cena desse momento e que comparece magistralmente nas performances de Elizeth Cardoso, Agostinho dos Santos, Alaíde Costa, Silvia Telles e em seu contraponto internacional pelas performances de Jean Sablon, Pierre Barouh, Henri Salvador, Dizzie Gillespie, Gary Burton. A riqueza da parceria de Tom Jobim com o poetinha Vinicius de Moraes e com a pimentinha Elis Regina, nos anos 60, assim como o reconhecimento máximo que ocorre, comprovadamente, por meio das interpretações antológicas de Gerry Mulligan, Ella Fitzgerald, Sammy Davis Jr., Judy Garland, Errol Garner e Frank Sinatra, que, aliás, veremos em dueto com o próprio Jobim.

Todas essas participações são entretecidas pelas canções, e, assim, não há uma única cena que não esteja em conexão direta com o que a cena anterior poderia ter sugerido da história da canção que estivesse sendo enfocada (caso da canção ícone Garota de Ipanema) ou do que aquele momento representa em termos históricos para a carreira do compositor, músico e cantor e ainda para a própria música brasileira na participação em que a Bossa Nova se insere no contexto da nossa cultura local, mas também no compasso cultural a que se rende toda a cena mundial.

Será também nesse sentido, de sua importância enquanto obra que, por exemplo, podemos compreender a tensão de um Tom Jobim e de um Chico Buarque, em 1968 ainda jovens, assistindo na plateia, em pleno Festival Internacional da Canção, a interpretação de Cynara e Cybele, aplaudidas e vaiadas ao cantarem a canção Sabiá, música vencedora  daquele Festival e que desbancou, nada mais nada menos, do que Para não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré, canção-ícone do movimento contra a Ditadura Militar. Ou seja, será sempre no calor da hora que qualquer nuance da carreira do compositor será contada em A música segundo Tom Jobim, pelas imagens e canções. É nesse ritmo e por meio dele que encontraremos o princípio ordenador das performances, cuja lista é bastante extensa. Merecem ser citadas as musas do passado de expressão absoluta como Sarah Vaughn, Maysa, a eterna Nana Caymmi, a queridinha da Bossa Nova, Nara Leão, e a expressão mais recente de Fernanda Takai .

O longa-metragem conta ainda com a primeira formação da Banda Nova criada por Tom Jobim na década de 80, quando o maestro Peter Guth o convidou para tocar com a Orquestra Filarmônica de Viena. O grandioso e emocionante evento está ali registrado. Foi quando se reuniu, pela primeira vez, o coro de vozes femininas formado pela filha do compositor Beth Jobim, Simone Caymmi e a esposa Ana Jobim. Teremos também cenas em que aparecem as demais apresentações do compositor com a mesma banda, já contando com a participação de Maúcha Adnet, Paula e Jaques Morelenbaum. E, por fim, não podiam faltar, nesse registro cinematográfico do rol de apresentações de intérpretes de Jobim, as performances de Milton Nascimento e (juntos no palco) Caetano Veloso, Gal Costa, Chico Buarque, Gilberto Gil e Paulinho da Viola.

Além disso, também não podiam faltar os aplausos que se estendem desde o Carnegie Hall até a Marquês de Sapucaí, quando da homenagem que o gênio musical conheceu e experimentou do alto do carro alegórico da Mangueira. Essa é a riqueza desse imenso painel, e que vamos fruindo sem nos aperceber do tempo transcorrido (um ótimo sintoma do bom cinema). Devido ao alto grau de emoção a que ele nos leva, é possível dizer que esse filme pode ser considerado a homenagem definitiva à obra do grande compositor brasileiro. Ao homem, Nelson Pereira dos Santos irá continuar homenageando com um outro documentário, posterior a esse.

 

 

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