Crítica:
Por Lúcia Helena de Camargo

Luz absolutamente impecável, imagens perfeitas e sequências recheadas de elementos para emocionar o espectador, como a cena na qual o garoto de calças curtas espera pela devolução, no frio da neve, do objeto querido que lhe foi tomado injustamente. Assim é A Invenção de Hugo Cabret, dirigido por Martin Scorsese, filme que concorre ao maior número de prêmios nesta edição do Oscar, com 11 indicações no total. É o mais tipicamente hollywoodiano dos longas na disputa.

Asa Butterfield (o filho do nazista em O Menino do Pijama Listrado), de 13 anos, mas aparentando ser mais novo, faz o papel de Hugo Cabret, órfão que após a morte do pai (Jude Law) em um incêndio vai morar com o tio, Claude Cabret (Ray Winstone), dentro de uma estação de trem, na Paris dos anos de 1930. O local inusitado para a residência se deve ao fato de que Claude é o encarregado de acertar e cuidar da manutenção dos relógios da estação, ofício que o garoto logo aprende e passa a exercer clandestinamente no lugar do tio, mais empenhado em esvaziar garrafas de uísque.

Hugo pratica diariamente pequenos furtos de pães, frutas, leite, nas barracas da estação. Então passa a ser perseguido pelo inspetor (Sacha Baron Cohen), que é ajudado nas buscas pelo feroz doberman (Blackie, cão ator que concorreu no concurso Coleira de Ouro 2012, perdendo para Uggie, de O Artista, o prêmio de Melhor Atuação Canina do ano). O comediante Baron Cohen, que estrelou filmes satíricos como Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América e Brüno, está quase sério no papel do guarda que, com um defeito na perna, corre desajeitado pela estação tentando capturar moleques que julga delinquentes. E nas horas vagas empreende desastrosas investidas românticas com intenção de conquistar a florista Lisette (Emily Mortimer).

O garoto é visto como um pequeno ladrão também por Papa Georges (Ben Kingsley), melancólico dono da loja de brinquedos da estação. Como punição por mais uma tentativa de roubo, o lojista toma do garoto um caderno querido. Nas folhas, há anotações e desenhos feitos pelo pai de Hugo, meticuloso relojoeiro, com instruções que podem fazer funcionar um curioso autômato que escreve, desenha e parece observar com olhos quase humanos.

Enfatizando a solidão do menino – e de todas as pessoas, em certa instância – em meio a um mundo hostil, Scorsese exibe os mecanismos dos relógios sobrepondo-se aos da cidade de Paris, bela, iluminada e composta de simetrias. O diretor, porém, não deixa muitas oportunidades para que o espectador faça as próprias analogias e entenda as referências. Talvez por ser um filme destinado a toda a família – das crianças pequenas às vovós –, tudo é explicado tintim por tintim.

Para fazer companhia a Hugo no mundo infantil, surge Isabelle (Chloë Grace Moretz), filha de Papa Georges, menina esperta que apresenta a biblioteca ao garoto. E a quem ele apresenta o cinema.

O roteiro de John Logan é baseado no livro de Brian Selznick. A obra nasceu, segundo o autor, em razão da sua vontade de contar uma história que envolvesse o cineasta Georges Méliès, francês que rodou centenas de filmes entre o final dos anos de 1800 e começo dos 1900. Entre eles, Viagem à Lua (1902), no qual o foguete voa diretamente para o olho da Lua, produzindo uma imagem tosca e engraçada. Trechos de diversos outros filmes de Méliès desfilam na tela, em clara homenagem.

Aparecem algumas cenas coloridas. Hugo se espanta e explicam-lhe que, na época, isso era conseguido pintando à mão fotograma por fotograma. Metaforicamente, Scorsese faz a mesma coisa em A Invenção de Hugo Cabret. Tanto é assim que concorre no Oscar, além das categorias principais (Melhor Filme, Diretor, Ator), também a Direção de arte, Fotografia, Figurino, Efeitos visuais, entre outras. Nos quesitos técnicos, é praticamente imbatível.

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011, EUA, 127 minutos). Direção: Martin Scorsese. Elenco: Asa Butterfield, Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Emily Mortimer.

 

 

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