Crítica:
Por Heci Regina Candiani

Em uma tranquila aldeia alemã, uma comunidade fechada, de tradição protestante, em que todos se conhecem e compartilham as dificuldades da vida cotidiana, estranhos e violentos crimes começam a acontecer. No mundo, o cenário histórico é o dos conflitos nos Balcãs ligados à eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914. O enredo do filme A Fita Branca, de Michael Haneke, vencedor do Festival de Cannes, pode ser resumido assim. Trata-se de um resumo empobrecedor.
A história que se desenrola na tela não é um drama histórico sobre as origens da violência que sustenta todas as guerras. Também não é uma trama de mistério ou o relato de uma investigação criminal. A Fita Branca é uma profunda reflexão sobre o poder, a vida em comum e o mal radical.

Tudo no filme é simbólico e remete a aspectos marcantes da vida em sociedade. Naquela comunidade, mas também em qualquer outro contexto social. Quem narra a história é o professor da aldeia (vivido pelo ator Ulrich Mühe), um forasteiro. É por seus olhos que o espectador conhece, aos poucos, as relações de poder daquela aldeia.

Três personagens masculinos representam os eixos ao longo dos quais se desenvolvem essas relações: o barão, que encarna o poder político e econômico; o pastor, representante da autoridade religiosa e da culpa; e o médico, que encarna a força do conhecimento e da cura. Fica assim marcado o exercício do poder como um privilégio masculino, aspecto típico das sociedades ocidentais no começo do século XX, mas não exclusivo desse momento histórico.


Tudo gira em torno desses personagens, ainda que nem sempre eles dominem a tela. As relações de servidão e medo que sustentam essas autoridades se revelam principalmente pela tensão dos diálogos que se dão entre os outros personagens: as crianças, o professor, a parteira, a babá, os trabalhadores rurais, os jovens que se preparam para o ritual da crisma. Todos são submissos e coniventes de forma voluntária; alguns, movidos pelo medo; outros, pela inocência; outros ainda, em busca de amor e reconhecimento; muitos porque ali está sua oportunidade de sobrevivência.

Tudo parece puro e tranquilo na vila. Os moradores estão completamente adaptados, disciplinados, vestem-se de acordo com as regras, agem de acordo com as normas, mostram-se obedientes às ordens dos poderosos, solidários com os que sofrem, unidos e pacíficos. Mesmo quando os crimes começam a acontecer.


O primeiro deles é a tentativa de assassinato do médico, o que desestabiliza, de maneira clara, mas velada, toda a comunidade. À medida que outros crimes se sucedem – a violação de uma criança, uma morte, um roubo claramente incentivado pela inveja, o espancamento de um deficiente mental, a violência sexual contra uma adolescente – o espectador é lançado nas incongruências e impurezas da vida social.


Cada crime demonstra uma revolta, uma incerteza, uma inadaptação, um erro, um engano. Todos os crimes juntos revelam que, por trás de toda a aceitação e de tanta disciplina e correção, há um mal-estar reprimido, que se expressa em algum comportamento. A pureza da fita branca, elemento simbólico principal do filme, foi maculada. Os crimes revelam as lógicas perversas sobre as quais se sustentam as diferentes formas de poder; revelam também quanto os membros daquela sociedade são conscientes dessas lógicas e capazes de manipulá-las de acordo com seus próprios interesses.


É curioso notar que essa mácula é explicitada principalmente pelo comportamento de duas figuras femininas: a parteira e a jovem filha do pastor. A menina está prestes a ser crismada. Simbolicamente, receberá o sacramento religioso que marca seu ingresso na vida adulta.


Nesse complexo universo de relações, a necessidade de revelar a autoria dos crimes incomoda. Afinal, uma importante ilusão que sustenta a vida em sociedade é a identificação dos culpados. Uma vez que o culpado pelos crimes e pelos erros tenha sido revelado e punido, todos os membros da comunidade podem, então, dormir tranquilos, protegidos em suas posições de representantes do bem ou vítimas do mal. Felizmente, o filme de Haneke não reforça essa ilusão.

 

 

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