Crítica:
Por Geraldo Mayrink

     Houve um tempo, em que bom tempo foi aquele, em que a ficha do agente James Bond dizia o seguinte: “Data do nascimento ignorada. Peso: 78 quilos. Altura: 1,89 metro. Testa larga. Olhos sombrios. Narinas sensuais. Lábios insinuantes. Pele bronzeada. Cabelos castanhos. Sobrancelhas alongadas. Boca cruel”. Foi em 1961, ano em que Bond foi apresentado ao mundo em O Satânico dr. No, e o cartão de apresentação dava mais detalhes: “Cultiva a elegância. Fuma cigarros marcados com dois anéis dourados. Atirador emérito. Usa colete de aço. Faixa preta de judô. Sabe laçar. Bebe. Tem licença para matar: 007”. Era Sean Connery na tela, dando corpo e alma ao personagem dos livros de Ian Fleming. Agora, em Cassino Royale, 21º filme da série e depois de uma penca de atores que lhe emprestaram a cara, é Daniel Craig, obscuro participante do filme Munique. Bond mudou muito nestes 45 anos. É natural, mesmo para um homem, logo tornado mito, capaz de tantos prodígios de sedução e arrebanhar enormes platéias. Perdeu o humor, mas não a frieza e o cinismo. E não corre atrás de mulheres, uma de suas marcas registradas. Tornou-se mais truculento, o que deve ser outro sinal dos tempos. E trocou o champanhe Dom Perignon pela Tattinger, o que deve ser uma questão de gosto mas não perda de requinte.

Sua história em Cassino Royale é requentada de uma grande produção de 1967. Ele é mandado a Madagascar para espionar o terrorista Mollaka, mas acaba surrando-o furiosamente e matando-o dentro de uma embaixada. Sua chefe, M (Judi Dench), classifica-o como “burro” por este deslize antidiplomático. Bond vai para as Bahamas e conhece Dimitrios (Simon Abkarian), envolvido com Le Chiffre (Mads Mikkelsen) ,um banqueiro planetário de organizações terroristas.Ele quer conseguir muito dinheiro num jogo de pôquer milionário no Cassino Royale, e Bond o confronta na mesa, com financiamento inglês trazido pela sedutora Vesper Lynd (Eva Green). Os dois funcionários públicos se insultam mas acabam na cama. São torturados pelo cruel Le Chiffre mas sobrevivem. Bond é envenenado, seu coração pára mas aplica em si mesmo um desfribilador cardíaco, voltando à mesa de jogo impecável e com uma taça de champanhe na mão. Por fim, Bond se associa ao colega Mathis (Giancarlo Giannini) e o agente Felix (Jeffrey Wright), da CIA. Começa e termina sem mulher. Entenderam? Pois têm 144 minutos de projeção, se não para entender, pelo menos para acompanhar a profusão de golpes baixos e pancadaria de deixar tripas à mostra, como em qualquer aventura vulgar comum nas telas. Bond, sempre taciturno como se fosse Charles Bronson, perde-se num mundo sem sutilezas. Antigamente seus vilões degolavam as pessoas alvejando-as com um elegante chapéu coco dotado de navalhas ou então acabavam com mulheres nuas pintando seus corpos com tinta dourada e asfixiante. Uma vez Bond em pessoa eletrocutou um vilão e comentou: “Chocante”.

Toda a glória do agente 007 nas telas ancorou-se numa esperta conjugação de trës gêneros: o faroeste, o policial e a ficção científica, esta última fornecendo uma prodigiosa coleção de espaços arquitetônicos , carros futuristas e outras invenções que até hoje parecem modernas (quase nada disto sobrevive aqui). Às criações tecnológicas somou-se o caráter de um herói sem nenhum caráter. Tudo nele reflete a naturalidade sensual, plenamente justificada com a força da paixão. Ele não tem freios, provocando admiração e inveja nas platéias recalcadas ou não, e não poupa nenhuma emoção aos que o perdoam e aplaudem. Encarna o ideal supremo da liberdade, aquela que não tem fronteiras nem termina quando começam os direitos dos outros. Foi muitas vezes chamado de “celerado”, “doido varrido”e “fascista”. E daí?

É só coisa de cinema, aqui num momento de baixa por causa da atuação petrificada de Daniel Craig e da direção espevitada e burocrática de Martin Campbell. Mas o público não perde por esperar. Craig se demite do posto de agente, como Connery disse num filme “nunca mais”, para depois fazer outro filme chamado justamente Nunca Diga Nunca Outra Vez. Tanto que o 22º James Bond vai entrar em filmagens ano que vem.

 
 

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