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Por Lúcia Helena de Camargo

Todo mundo conhece alguém que trata o próprio carro como filho: lava, enxuga, acaricia e fica consternado se seu xodó sofre algum machucado, ainda que só um arranhão. A animação Carros,
que estréia no Brasil nesta sexta-feira, dia 30, vai agradar particularmente esses apaixonados
pelos seres de quatro rodas, que aqui comem, dormem, namoram, são bons ou maus,
vivendo em um mundo sem humanos.

O astro é o carrinho vermelho Relâmpago McQueen (no original com a voz de Owen Wilson e dublado por Marcelo Garcia na versão brasileira), corredor estreante cujo objetivo é vencer o Grande Prêmio da Copa Pistão. Por motivos variados ele acaba se perdendo na estrada e chega a Radiator Springs, uma pacata cidade às margens da legendária rodovia Rota 66. O município teve seus dias de riqueza décadas atrás, mas a economia ruiu depois da construção da estrada interestadual, que desviou a rota dos viajantes. “Naquela época, os carros não queriam ganhar tempo, mas aproveitar o tempo”, diz Sally, uma Porsche 2002 (dublada em inglês por Bonnie Hunt e, em português, por Priscila Fantin), moradora local saudosista, resumindo em uma frase a idéia do filme, que fala ao coração de quem sente prazer em dirigir.

Buena Vista/Divulgação

Carros é essencialmente americano. Não soaria autêntico se feito na Europa, onde não
há o mesmo entusiasmo por automóveis. Mas faz todo o sentido nos EUA, país com a maior frota mundial de veículos. E encontra adeptos no Brasil. A trama procura mostrar os sentimentos debaixo de cada lataria. Assim, quando McQueen – para os amigos, McQueen – é obrigado a consertar a estrada que estragou, acaba por descobrir valores que vão além da vontade de vencer corridas.

O diretor, John Lasseter, filho de um funcionário da General Motors, declarou no lançamento do filme nos EUA, há duas semanas, que o longa homenageia algumas de suas paixões: a Rota 66 “antes da chegada das highways", a animação e os carros de corrida. "Em uma veia tenho óleo de carros e,
na outra, desenhos animados", brincou. Vencedor de prêmios Oscar por Toy Story, Toy Story 2 e Vida de Inseto, esse californiano é um dos gênios criativos da Pixar, comprada há dois meses pela Disney por US$ 7 bilhões, depois de provar ser o único estúdio da Hollywood atual capaz de fazer sucesso com animações feitas em computador.

A produção de Carros custou US$ 120 milhões. A bilheteria mundial até esta semana já supera os
US$ 181 milhões (US$ 159 milhões apenas nos EUA). Mas será difícil que a aventura no mundo automobilístico bata a marca dos seis longas anteriores, Toy Story (1995), Vida
de Inseto (1998), Toy Story 2 (1999), Monstros S.A. (2001), Procurando Nemo (2003) e
Os Incríveis (2004), que juntos arrecadaram mais de US$ 3,2 bilhões.

Embora não tão inspirado quanto os anteriores, o longa tem ótimas sacadas, como as moscas em forma de fusquinhas azuis, e personagens interessantes, como Doc Hudson (um Hudson Hornet 1951, com muitas lições a ensinar, na voz de Paul Newman e, aqui, Daniel Filho); Mate, o velho reboque com sotaque caipira, que nomeia McQueen seu melhor amigo, dublado por Larry the Cable Guy, e em português por Mario Jorge. Além das divertidas citações dos outros filmes da Pixar na seqüência final do drive-in.

O visual é excelente, dos detalhes dos carros à torre de pneus que imita o famoso monumento inclinado em Piza, ou a cachoeira que enfeita a paisagem de Radiator Springs. Algumas coisas não fazem sentido, como o sinal de trânsito recém-consertado que pára de funcionar sem motivo aparente, quando McQueen vai embora. Mas, bem, quem liga? Esta é uma história sobre carros falantes.

Um lembrete: fique na sala de projeção até o final dos créditos, se quiser ver
a engraçada cena adicional.

Carros (Cars). Estados Unidos, 2006, 116 minutos. Direção de John Lasseter.

 

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