Por
Patrícia Büll
Esqueça as cópias baratas de CDs,
perfumes importados e bolsas de marcas famosas vendidos nas ruas Santa Ifigênia
e 25 de Março, em São Paulo. Há um outro tipo de pirataria
que traz conseqüências tão ou mais graves para o País:
o da biodiversidade. O Brasil perde anualmente mais de US$ 3 bilhões com
a biopirataria, um crime que acontece diariamente, praticamente sem nenhum empecilho.
Para se ter uma idéia do tamanho do prejuízo, só
com o dinheiro que escoa do Brasil em um único ano através da biopirataria
daria para realizar todas as obras de infra-estrutura previstas pelo governo nos
projetos de Parcerias Público-Privadas das regiões Norte, Nordeste,
Sul e Centro Oeste, além da construção do trecho sul do Rodoanel
de São Paulo, do Anel Ferroviário e de todas as melhorias e adequações
necessárias aos portos de Sepetiba e de Santos.
Ou seja, se no passado
os colonizadores levavam as riquezas locais em troca de bugigangas, em pleno século
XXI, eles redescobriram que o Brasil (dono da maior biodiversidade do mundo) continua
sendo o paraíso da exploração. Mas, agora, sem nada em troca.
São plantas e animais silvestres que todos os anos são roubados
e levados para o exterior e depois voltam na forma de medicamentos, cremes e produtos
dermatológicos. Geram bilhões de dólares para as multinacionais
farmacêuticas e nada para o Brasil, nem para as comunidades caboclas e indígenas,
que possuem esses conhecimentos e os utilizam há centenas de anos.

Apesar
da prática ser ilegal desde os tempos do Brasil Colônia, foi apenas
no ano de 2001, com a edição da Medida Provisória 2.186,
a biopirataria passou a ser considerada crime no País. "Até
então, não havia uma legislação específica
que tratasse o tema como tal", afirma Ione Egler, coordenadora geral de Políticas
e Programas de Biodiversidade do Ministério da
Ciência e
Tecnologia (MCT). Desde a publicação da MP é considerada
biopirataria toda apropriação indevida, ou seja, sem autorização,
de recursos naturais do País ou do uso do conhecimento tradicional para
fins comerciais.

A
falta de legislação é a explicação para os
vários princípios ativos de animais e plantas brasileiros patenteados
no exterior. Um exemplo muito conhecido é o do medicamento de combate à
hipertensão Capoten, cujo princípio ativo, o captopril, vem do veneno
da brasileiríssima cobra jararaca.
Os cientistas daqui fizeram
a descoberta mas, como não tinham dinheiro para continuar a pesquisa, apenas
publicaram o trabalho. Alguns anos depois, o laboratório Bristol-Myers
Squibb usou as informações para desenvolver o medicamento. Hoje,
o Capoten é vendido em farmácias do mundo todo (inclusive nas brasileiras)
e o País não ganha nada com isso.

De
acordo com Eugênio Pantoja, advogado e coordenador da Campanha Contra a
Biopirataria da organização não governamental (ONG) Amazon
Link, a biopirataria, por ser um "crime" recente, é também
muito difícil de ser combatida. "Os neo piratas vêm aqui, colhem
amostras de plantas, levam para seu país de origem, e raramente são
barrados ou fiscalizados", diz.
O advogado denuncia que muitos desses
piratas contemporâneos entram nas aldeias indígenas e comunidades
disfarçados de turistas e até de missionários. E, com a velha
desculpa da catequização, têm acesso às plantas e sementes,
além do uso tradicional desses organismos para cura de doenças.
O resto da história todo mundo conhece: medicamentos produzidos a partir
de nossa biodiversidade sem pagamento de royalties, reconhecimento ou divisão
de lucros.
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