Diário do Comércio - Especiais - Semana de 22-90
 
16 de fevereiro de 2012
Semana de 22-90
 

Liberdade e os caminhos da brasilidade

Por André Domingues

Fotos: Arquivo DC
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A atual coincidência do carnaval com a comemoração dos 90 anos da Semana de Arte Moderna, ocorrida no Teatro Municipal entre 13 e 17 de fevereiro de 1922, já não parece tão curiosa quanto o fato de os dois eventos não terem acontecido juntos logo de cara (naquele ano, o feriado caiu no dia 28 de fevereiro). Afinal, as bravatas, a irreverência, a confusão, a jovialidade e a criatividade dos modernistas tinham tudo para se irmanar com a folia das ruas. Não foi à toa, aliás, que todos os participantes acabaram passando pelo tema em suas obras, a começar por Manuel Bandeira, que já havia lançado em 1919 um livro de poemas significativamente intitulado Carnaval – do qual foi extraído o poema Os Sapos, lido por Ronald de Carvalho sob um ruidoso protesto do público na segunda noite da Semana.

A proximidade entre o modernismo e o carnaval tem a ver não só com o clima de liberdade da festa, mas também com uma busca profunda por entender a brasilidade. "Havia um interesse muito grande entre o pessoal Nós temos talentode 1922 pela cultura popular e pelo carnaval, principalmente pelo do Rio de Janeiro. A festa toda causava muito impacto com aquela confluência da cultura africana e da portuguesa e mostrava o sincretismo, a mestiçagem, que ficaram centrais na arte modernista", explica Gênese Andrade, pesquisadora e professora da Faap.

Apesar de Bandeira ter sido um dos primeiros da turma a se afinar com o carnaval, retomando o tema inúmeras vezes, foi com Oswald Andrade que as serpentinas chegaram mais alto. Após assistir aos festejos cariocas de 1924, ele escreveu o decisivo Manifesto Pau Brasil e, logo no segundo parágrafo, registrou sua admiração: "O carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo". O entusiasmo contagiou, também, Tarsila do Amaral, sua esposa na época, que passou a pintar telas como Carnaval em Madureira, em que encaixava a Torre Eiffel num subúrbio carioca. Quatro anos adiante, Oswald ainda voltou à carga Mário de Andradeno também célebre Manifesto Antropófago, dando à festa um sentido de autodefesa nacional: "Nunca fomos catequizados. Fizemos foi carnaval".

Oswald elevou o carnaval a símbolo do modo de agir brasileiro, mas, bem ao seu estilo intuitivo, não se preocupou em entender a folia a fundo. Nesse sentido, quem mais avançou foi Mário de Andrade, que soube combinar o mesmo entusiasmo com uma visão mais realista. "Ah, não me esquecerei jamais daquela noite de janeiro, faz dois anos, em que vi descer do morro uma escola, cantando aquele admirável samba que em seguida Francisco Mignone aproveitou na sua Quarta Fantasia para Piano e Orquestra. O céu estava altíssimo e a noite parara exausta de tanto calor. E o pessoal veio do morro, cantando a sua linha de tristeza tão violenta, tão nítida, que era de matar passarinho", escreveu num artigo de 1939.

A sensibilidade afiada de Mário levou-o a relativizar a identificação direta do carnaval com a alma nacional. Percebendo que os agrupamentos de foliões, embora muito puros, viviam sujeitos às oscilações dos modismos da cidade grande, afastou logo a ideia de que fizessem parte do folclore nacional mais profundo. Encaixou-os, então, numa categoria intermediária de folclore urbano, favorecendo um entendimento mais justo.

 


VILLA NO MUNICIPAL


O musical-opereta Magdalena, de Villa-Lobos, ganha récitas especiais no Municipal, em tributo à Semana Modernista. A soprano Rosana Lamosa faz o papel-título. Sexta (17), 20h; domingo (19), 18h. Tel.: 3397-0327.
R$ 40 a R$ 100.

 
Operários, obra de Tarsila do Amaral.
Operários, obra de Tarsila do Amaral.
 
Mário também se preocupou em não ficar restrito ao carnaval carioca e fez pesquisas de campo no então acanhado carnaval paulistano. Até acompanhou por anos um "samba grosso" e original nas imediações da antiga estação ferroviária do Brás, samba que se tornaria uma fonte importante para o seu longo estudo sobre o samba rural paulista.

Não há o que permaneça igual após a passagem de gigantes como Bandeira, Oswald, Tarsila e Mário. No caso do carnaval, a relação foi fundamental para que a festa ganhasse prestígio e se firmasse como grande representante popular. Há, claro, alguns senões nessa relação, que deixou brechas para o aparecimento de eruditos populistas e carnavalescos arrogantes. Contudo, não fosse o modernismo como foi, o Brasil seria, na certa, um país de folias menos brilhantes e intelectuais mais chatos.
 
Guru dos modernistas

A conferência inaugural da Semana de Arte Moderna, em 1922, foi proferida pelo maranhense Graça Aranha (foto abaixo). Era um escritor de forte ascendência sobre os jovens modernistas e, como se poderia esperar, também apaixonado pela folia, como expressou em Carnaval.
" Maravilha do ruído, encantamento do barulho. Zé Pereira, bumba, bumba. Graça AranhaFalsetes zombeteiam. Viola chora e espinoteia. Melopeia negra, melosa, feiticeira, candomblé.

Tudo é instrumento, flautas, violões, reco-recos, saxofones, pandeiros, liras, gaitas e trompetes. Instrumentos sem nome, inventados no delírio da improvisação, do ímpeto musical. Tudo é canto. Os sons se sacodem, berram. Lutam, arrebentam no ar sonoro dos ventos, vaias, klaxons, aços estrepitosos. Dentro dos sons movem-se cores, vivas, ardentes, pulando, dançando, desfilando sob o verde das árvores, em face do azul da baía no mundo dourado. Dentro dos sons e das cores, movem-se os cheiros, cheiro de negro, cheiro de mulato, cheiro branco, cheiro de todos os matizes, de todas as excitações e de todas as náuseas. Dentro dos cheiros, o movimento dos tatos violentos, sons, brutais, suaves, lúbricos, meigos, alucinantes. Tatos, sons, cores, cheiros se fundem em gostos de gengibre, de mendublim, de castanhas, de bananas, de laranjas, de bocas e de mucosas. Libertação dos sentidos envolventes das massas frenéticas, que mexericam, de Madureira à Gávea na unidade do prazer desencadeado. (...)"

 
Villa-Lobos Manuel Bandeira Francisco Mignone Carnaval em Madureira Tarsila do Amaral
Villa-Lobos Manuel Bandeira Francisco Mignone Carnaval em Madureira... obra de Tarsila
 
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