Os grandes musicais em cartaz na cidade dificilmente poderiam oferecer um cardápio mais variado. Há desde um rei autoritário e de coração mole que se deixa conquistar por uma professorinha viúva contratada para ensinar inglês aos seus mais de 50 filhos, até uma adolescente gordinha e talentosa que se transforma em estrela de tevê em uma comunidade marcada pelo preconceito e pelos penteados sustentados com laquê. E há, também, um grupo de adolescentes atormentados pela descoberta da sexualidade na virada do século XX. Tudo isso se nos limitarmos ao mundo dos humanos. Porque há ainda gatos afinadíssimos que sonham com a transcendência e cachorros que, em vez de latir, são ótimos intérpretes de jazz e hip hop. É nesta selva de cenários e figurinos exuberantes, tons agudos impensáveis para gargantas mortais e enredos fantasiosos, que uma voz que não vai muito além de um sussurro lutará para ser ouvida a partir desta semana. Depois de quatro anos de cuidadosa pesquisa, a atriz Fernanda Couto, um dos destaques da comédia A Festa de Abigaiu, finalmente consegue levar ao palco a trajetória da cantora capixaba Nara Leão (1942-1989).
O musical Nara, em cartaz no Teatro Augusta, combina a vida da cantora, que morreu aos 47 anos vítima de um tumor cerebral, a uma carreira artística pautada pelo refinamento do repertório, o canto suave, o engajamento político e a descoberta de grandes talentos da música brasileira, entre eles Chico Buarque. Sem a dramaticidade de uma Maria Bethânia, o tom cristalino de uma Gal Costa ou uma turbina na garganta como a que tinha Elis Regina, Nara Leão marcou seu lugar na música brasileira por conseguir driblar com inteligência e requinte as limitações de uma voz naturalmente pequena. O diretor Márcio Araújo afirma que procurou fazer de Nara um espetáculo elegante e discreto como a bossa-nova, corrente musical que elegeu Nara Leão como sua mais digna representante. Acompanhada em cena pelos músicos, atores e cantores Rogério Romera, Silvio Venosa e Rodrigo Nunes, Fernanda Couto pretende dar conta de algumas passagens históricas dos 25 anos de carreira de Nara Leão, entre elas sua participação no show Opinião, a vitória no Festival de Música da Record, em 1966, cantando A Banda, e sua incursão pelo morro carioca em busca de novos sambistas. |
Folha Imagem |
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Nara,
com Jair Rodrigues e Chico Buarque:
alegria
dos festivais... |
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| Nara. Teatro Augusta. Rua Augusta, 943. Tel.: 3151-4141. Quarta e quinta. 21h. R$ 30. |
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O CANTO DA INDEPENDÊNCIA
Por André Domingues
Para certa parte da sua geração, Nara Leão foi uma musa, mas uma musa muito particular. Não era uma mulher esplendorosa, afinal. Tanto que as partes do seu corpo a ganharem maior notoriedade foram os insuspeitos joelhos, que ficavam despreocupadamente à mostra sob o violão nos shows mais intimistas. O grande apeal de Nara era sua personalidade, ao mesmo tempo ousada e elegante, sagaz e sensível, atirada e acolhedora. Além disso, Nara tinha, ainda, uma incrível percepção da sua época, sobretudo durante os agitados anos de 1960, com rápidas reações às profundas mudanças por que passavam o Brasil e o mundo.
No início da carreira, no começo dos anos 60, a jovem, culta e sofisticada Nara Leão se afinava perfeitamente à nascente bossa-nova. Tanto uma como outra eram nascidas e crescidas no ambiente refinado da Zona Sul carioca e refletiam aquele universo. Noiva do letrista Ronaldo Bôscoli, a menina era mantida numa espécie de altar artístico, como um tesouro reservado apenas aos frequentadores das reuniões caseiras ou, no máximo, dos shows estudantis que projetaram o movimento. Sua capacidade de alcançar o público, porém, ficava comprometida.
Nara logo se desiludiu com Bôscoli e o mundo suave e contemplativo da bossa-nova, partindo para uma música politicamente engajada que estava sendo desenvolvida entre intelectuais e estudantes de esquerda, mais tarde conhecida como música de protesto. Foi, então, para o teatro, protagonizando musicais como Pobre Menina Rica e Opinião, e depois para os discos, gravando um mix de sambistas humildes e jovens contestadores. As lições da bossa, porém, não foram desprezadas. Toda a aspereza da vida que tematizava nas canções era cantava com a mesma voz pequena e bem colocada e estava assentada sobre um terreno sonoro muito moderno, preparado por artistas de formação bossa-novista, como Luiz Eça, Edu Lobo e Dori Caymmi.
A mudança de ares de Nara Leão causou muita polêmica, inclusive desgastando antigas amizades, mas nem assim a intimidou. Ainda no final dos anos 60, a cantora deu uma nova guinada, aproximando-se do tropicalismo, avesso tanto à elegância da bossa tradicional como ao discurso politizado da música de protesto. Encontrou, enfim, a liberdade almejada para sua arte. Nunca mais se filiou a qualquer movimento, cantando apenas o que e quando queria, desde Roberto Carlos até – por que não? – a bossa-nova. Dessa forma, corajosa e flexível,
Nara acabou delineando a interessantíssima trajetória não só dos seus desejos e inquietações, mas de toda uma geração. |
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Com Gilberto Gil,
observando
e aprendendo,
ensinando. Uma guinada
assumida e
feliz: encontro
com otropicalismo.
Acima,
com a filha. |
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A EXATA COMPREENSÃO
DE JOÃO GILBERTO
Embora tenha protagonizado peças de protesto nos anos 60, nada mais distante do canto de Nara Leão do que a técnica belting, que hoje domina o mundo dos musicais. A grande projeção, a preferência pelos agudos, a ressonância nasal, a teatralidade são tão distantes da bossa-nova tradicional como a Broadway do antigo Beco das Garrafas. Ainda bem que, sabiamente, a atriz Fernanda Couto optou por um "canto ao pé do ouvido" ao encarnar a musa bossa-novista na peça Nara.
Nara Leão se tornou a principal referência feminina do canto bossa-novista, mesmo começando a cantar profissionalmente apenas cinco anos depois de começado o movimento. O que ela tinha que as outras não tinham? Uma compreensão exata da estética vocal de João Gilberto. Ainda que sem todo aquele requinte técnico do mestre, Nara assimilou profundamente a sua proposta de um canto enxuto, preciso e sem ornamentações, privilegiando uma comunicação direta e quase falada com o público. Aliás, é justo notar que o fato de ter começado a carreira depois da bossa já estar estabelecida na certa ajudou para que não cultivasse os maneirismos das escolas mais antigas de interpretação.
Fora sua competência vocal, Nara Leão também se destacou pela habilidade na escolha de repertório. Logo em seu primeiro disco, Nara, de 1964, a cantora mostrou se virar muito bem com seus colegas de geração, como Carlos Lyra, Edu Lobo e Sérgio Ricardo, e também com os sambistas de morro, encontrando Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e Cartola em ótimos momentos. Vale dizer que, àquela altura, Zé Kéti, Nelson e Cartola não passavam de azarões no mercado fonográfico, e Nara foi bastante corajosa ao gravá-los. A mesma coragem continuou pautando seus trabalhos seguintes, em que apareceram outras apostas bem sucedidas, como João do Vale, Chico Buarque, Sidney Miller e Paulinho da Viola.
Por trás de toda a ousadia, havia em Nara Leão não um gosto pelo risco, mas uma incrível sede de liberdade. Esse impulso foi decisivo para que, mesmo sem abandonar a estética vocal em que se formou, pusesse sua versatilidade à prova em diversos gêneros da MPB. O resultado, mais uma vez, ultrapassou os limites da sua própria obra. Em sua voz, não só ela, mas a bossa-nova, em geral, se mostraram capazes de dar boas versões sobre toda a aquarela da brasilidade. (AD) |
Acervo UH/Folha Imagem |
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... Mas a musa dos festivais e da bossa-nova se aproximou da música
de protesto e dos sambas de morro. Na foto acima,
à vontade com os
compositores Cartola, Zé Kéti e Nelson Cavaquinho. |
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OS CAMINHOS DE UMA ARTISTA DESTEMIDA. E SINCERA.
A atriz Fernanda Couto afirma não possuir as características físicas de Nara Leão, mas acredita que seu trabalho de atriz possa trazer à cena a suavidade e a delicadeza da cantora. Nesta entrevista ao Diário do Comércio, ela adverte os fãs de Nara que uma das marcas da cantora não será reproduzida no palco. "Os meus joelhos vão ficar escondidinhos, porque não dá para competir com os dela."
| Fotos: Lenise Pinheiro |
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Qual a importância da estreia de um musical
brasileiro num momento em que grandes espetáculos
americanos estão em cartaz na cidade?
Acho ótimo que tenhamos tantos espetáculos em cartaz com características tão diferenciadas. Essa diversidade é importante. Nara, na contramão dos grandes musicais americanos, é delicado e intimista. É simples e, ao mesmo tempo, sofisticado. Nara fala da trajetória musical de uma grande artista brasileira, fala de uma parte da história da nossa música, fala da gente. Mostra para o público uma história que nos diz respeito. E com uma musicalidade toda nossa, nosso jeito de cantar. Não há um esforço para entender a música, ela é nossa velha conhecida.
Você acredita que exista alguma fórmula, ou receita,
para se fazer um musical nacional?
Acho que não. Espero que não. Porque o bacana é poder ver toda nossa diversidade em cena. Quando começamos a pensar em fórmulas, começamos a engessar a criatividade.
No musical Nara, o que vocês privilegiaram mais: a vida
pessoal ou a trajetória artística da cantora?
O espetáculo pretende traçar a trajetória musical de Nara. Mostrar para o grande público a sua importância e o quanto suas escolhas e descobertas influenciaram a história da música brasileira. Ao mesmo tempo, pontos importantes da sua vida pessoal também são retratados. Em muitos momentos nos utilizamos de músicas para fazer essa ponte entre a carreira e a vida pessoal. Mas Nara sempre foi uma pessoa muito discreta, e o espetáculo tem essa característica também. As falas de Nara, por exemplo, foram retiradas de depoimentos que ela deu à imprensa.
Como se deu o seu preparo para adquirir
a sutileza
do canto de Nara?
Em 2007, fui fazer aulas de canto e percebi que poderia cantar do meu jeito, sem perder as minhas características. Acho que a suavidade é um grande ponto de identificação com o trabalho da Nara. Sem histrionismo, um canto ao pé do ouvido. Procuramos desenvolver neste trabalho um colorido dentro desta palheta da bossa-nova: nuances, timbres diferenciados para cada momento.
Houve uma preocupação em se parecer fisicamente com ela?
Sempre houve a preocupação em como retratar a Nara, para não incorrer no erro de termos uma caricatura em cena. No espetáculo, fazemos uma viagem no tempo, na qual vemos uma menina de 11 anos até uma mulher de 47. São momentos muito diferentes da vida dela.
Existe uma cronologia no espetáculo ou os fatos são
apresentados à revelia do tempo?
Existe uma preocupação cronológica. A peça começa com uma ideia de flashback, mas a ordem que se segue é a cronológica. A apresentação das músicas também tem essa preocupação.
A doença e a morte da cantora entram no espetáculo?
Sim, não tínhamos como falar de Nara sem contar o drama pessoal que foi o convívio por mais de dez anos com o tumor cerebral. E também tínhamos de falar da sua superação nesta luta contra a doença. Ela trabalhou até o fim. Mas este tema também entra de uma forma delicada.
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A atriz Fernanda Couto em
cenas da peça Nara. |
Qual foi o critério para a escolha das canções
que surgem em cena?
Quando comecei a seleção musical, dividi a carreira dela em fases, pontos que não poderia deixar de fora no espetáculo. Selecionei muitas músicas de cada fase. Daí começou uma etapa bem difícil: fazer escolhas. Não foi nada fácil, porque tinha muita coisa boa, muitos compositores que gostaríamos de citar. Queria abranger tudo e todos. Tarefa quase impossível. Na medida em que o texto foi sendo elaborado, em parceria com o diretor Márcio Araújo, algumas escolhas ficavam facilitadas pelo contexto em que eram inseridas as músicas. Com certeza muita coisa boa ficou de fora, mas fizemos belas e representativas escolhas.
NA TRILHA SONORA
DAS CANÇÕES DE NARA
Diz Que Fui por Aí (Zé Ketti e H. Rocha)
Corcovado (Tom Jobim)
Primavera (Carlos Lyra e V. de Moraes)
Brigas Nunca Mais (Tom Jobim- V.
de Moraes)
O Barquinho (R. Menescal e R. Bôscoli)
Se É tarde Me Perdoa (R. Bôscoli
e Carlos Lyra)
Lobo Bobo (Carlos Lyra e R. Bôscoli)
Luz Negra (Nelson Cavaquinho e H. Barros)
O Sol Nascerá (Cartola e Elton Medeiros)
Opinião (Zé Ketti)
Marcha de Quarta Feira de Cinzas (Carlos Lyra e V. de Moraes)
A Banda (C. Buarque)
João e Maria (C. Buarque)
Lindonéia (Caetano e Gil)
Sabiá (C. Buarque e Tom Jobim)
Insensatez (Tom Jobim e V. de Moraes)
Traduzir-se (Fagner e Ferreira Gullar)
As Curvas da Estrada de Santos (Roberto e Erasmo Carlos)
Nasci Para Bailar (João Donato
e Paulo André)
Este Seu Olhar (Tom Jobim)
Meditação (Tom Jobim
e Nilton Mendonça)
Você e Eu (V. de Moraes e Carlos Lyra)
Manhã de Carnaval (Luís Bonfá e A. Maria) |
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O MÉRITO DAS REEDIÇÕES
O último disco de Nara Leão chamou-se My Foolish Heart e veio recheado de versões brasileiras para standards americanos. Era uma obra incomum, sem dúvida, mas que coroava uma trajetória repleta de surpresas.
A primeira dessas surpresas foi estrear em gravações com o álbum Nara, de 1964, que trazia não um repertório típico de bossa-nova, mas uma ousada combinação de música de protesto e sambas de morro. É um disco excelente, fundamental em qualquer acervo de MPB. Nos imediatamente seguintes, a linha se manteve, mas com a constante inclusão de novos autores e arranjadores. Três outros destaques da primeira (e ótima) fase são Opinião de Nara, de 1964, Nara Pede Passagem, de 1966, e Manhã de Liberdade, também de 1966. No primeiro, a cantora mostrou parte do repertório do famoso musical Opinião; no segundo, pôs sua voz a serviço dos então iniciantes Chico Buarque, Sidney Miller, Jards Macalé e Paulinho da Viola. Já no terceiro deles, o que chama a atenção é Nara ter confiado os arranjos e a direção musical à criativa pianista Jenny Marcondes.
O ciclo da música de protesto se encerra quando Nara se aproxima do irreverente tropicalismo, em 1968, participando do disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circensis. Sua adesão ao novo movimento foi mais um ato inesperado, pois, além de se tratar de uma turma bem menos tarimbada do que ela, representava uma negação do tom social-nacionalista que caracterizou os bem-sucedidos trabalhos anteriores. O namoro com o tropicalismo, porém, estendeu-se apenas ao seu LP daquele ano, Nara Leão, de repertório bastante heterogêneo e arranjado pelo vanguardista Rogério Duprat. Dali em diante, Nara seguiu um caminho eclético, gravando discos bastante distintos e frequentemente inusitados, como 10 Anos Depois, de 1971, só de bossa-nova tradicional, Meu Primeiro Amor, de 1975, de temática infantil, e ... E Que Tudo Mais Vá Pro Inferno, de 1978, composto por canções de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Fazia apenas o que tinha vontade, sim, mas sempre com esmero.
Nara Leão é uma das poucas artistas brasileiras que teve praticamente toda a sua obra reeditada em CD. A maior responsável por isso foi a gravadora Universal, por meio das caprichadas caixas Nara e Leão - já difíceis de encontrar -, que trazem os LPs de carreira e diversas raridades. É uma deferência absolutamente merecida. (AD) |
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