O sopro da vida na arte da oração. Por Armando Serra Negra

As belas imagens sagradas dos ícones bizantinos ocultam um simbolismo religioso milenar. À primeira vista, apenas extraordinárias pinturas sacras penduradas na parede. Até que a escrita, por intermédio da imagem, traduz-se em reza, essencialmente um texto imagético de elevação espiritual. Escritos no exercício de uma oração, obedecem a rígidos e exclusivos preceitos canônicos cristãos, para que cada elemento da figura remeta a uma ideia, em estreita relação entre significado e significante. Como estabeleceu o filósofo suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913), o precursor da ciência linguística.

"Os ícones fazem parte da linguagem hieroglífica, de figuras para serem lidas e decifradas, e não simplesmente admiradas por sua beleza, devido a seu contexto narrativo, simbólico e intelectual", explica padre Dimitrios Bertani, professor do Curso de Iconografia da Igreja Greco-Melquita de Nossa Senhora do Paraíso, em São Paulo. Concluída a obra, as cores utilizadas, os gestos reproduzidos e as vestes dos personagens retratados (Virgens, santos, mártires, doutores, pais da Igreja, etc.), funcionam como expressões de ideias, elaborando um texto final. "A produção de ícones e a transmissão dessa arte fazem parte do ministério dos padres melquitas, como a celebração de missas, batizados e demais rituais católicos. Mas, como o iconógrafo não é um artista em primeiro lugar, e, sim, um ministro da liturgia e da catequese, o requisito básico para se habilitar no curso não é o talento artístico, mas a participação ativa na vida da igreja", avisa padre Dimitrios. Portanto, ser católico, ou cristão ortodoxo praticante, é condição sine qua non para aventurar-se entre as tintas. Como faz o dentista Marcos Pacheco e Silva, uma vez por semana, entre outros alunos. "Ao escrever um ícone, deitamos uma oração sobre a madeira, pois o movimento das mãos transforma-se em reza", resume o adepto. Produzido em equipe, a finalização de um ícone pode levar até seis meses: "um artista cuida da preparação da madeira, outro do entalhe, da douração, e a propriedade da peça fica para quem a desenhou e pintou", diz Pacheco e Silva, empenhado numa imagem de Cristo.

Nas catacumbas - Por volta do século IV, com a invasão dos povos bárbaros ao longo do Império Romano, o imperador Constantino I (272-337) transferiu a capital de Roma para a antiga cidade grega de Bizâncio, depois renomeada Constantinopla, e hoje Istambul, na Turquia. Tal deslocamento provocou uma série de fatores que resultaram uma nova expressão artística, surgida do encontro das artes ocidentais, grega e romana, e das orientais, egípcia e persa. Como os mosaicos, entre os expoentes da arte bizantina se encontram os ícones, inspirados nos desenhos religiosos inscritos nas paredes das antigas catacumbas romanas, o refúgio dos cristãos contra as perseguições dos primeiros tempos, durante os séculos III e IV. "À medida que a Igreja foi se institucionalizando, os Evangelhos se consolidaram, e os ícones tiveram seus parâmetros pictóricos definidos canonicamente", relata padre Dimitrios.

Há regras que todos os ícones devem seguir. A imagem não é individualizada necessariamente pela singularidade de seu rosto, mas pela idumentária, gestual e incrição do nome do personagem representado. Toda feição é codificada, para representar, e não retratar, e a origem dos modelos se perde na antiguidade. Mesmo quando se representa um santo moderno, como Frei Galvão, utiliza-se um modelo arcaico, pré-estabelecido em tempos antigos. "No universo iconográfico, nada se cria, tudo se copia", afere o professor. O modelo da face de Jesus foi tirado do Mandilion, ou Santo Sudário. "O iconógrafo está para o ícone, assim como os antigos copistas para a bíblia; não se altera nenhum elemento do padrão original, assim como nenhuma virgula dos Evangelhos", compara. Tais padrões revelam, por exemplo, o Pantocrator (Senhor do Universo), que é a imagem de Jesus segurando com a mão um livro fechado, e com a outra em gesto de bênção; em contrapartida, a imagem do Didáskaloss (Mestre) traz a mesma imagem segurando o livro aberto. Platitera (maior que o céu) é a imagem da Virgem, com o menino Jesus ainda no ventre; ou seja, "contendo o universo em si".

 
 

Modus faciendi - "Como o simbolismo e a tradição não englobam somente o aspecto pictórico, mas também à preparação espiritual e os materiais utilizados, nos recolhemos em oração alguns momentos antes da aula, pedindo inspiração a Deus para revelar Sua face ao mundo", conta Pacheco e Silva. E como o ícone revela a imagem do intangível e Divino, é produzido apenas com ingredientes orgânicos, em que os três reinos naturais, e os quatro elementos universais estão presentes. Do reino vegetal, a madeira serve de suporte ao ícone (tradicionalmente, a larice - pinus larix, ou abeto - abies pinaceae, substituídos no Brasil pela caixeta - tabebuia caáinoides), o tecido, a superfície a ser pintada, e o vinho que entra na composição da tinta. Do mineral, o gesso que cobrirá o tecido, os pigmentos de tinta, e a água para a diluição. Do animal extrai-se a cola da pele de coelho, importada da Itália, a gema de ovo (que também entra na composição da tinta), além da maestria do artista. Entre os quatro elementos, da terra é extraída a maioria dos pigmentos; a água entra na diluição da cola, que é dissolvida pelo fogo, em banho-maria. O ar se encarrega da secagem do ícone.

Depois de derrretida, a cola é aplicada sobre a madeira, para fixar o tecido de algodão, ou linho. Várias demãos de gesso serão então aplicadas, até que fique bem liso. Decalca-se o modelo desenhado a lápis, para a gravação na madeira com ponta seca, ou estilete. "Como a primeira coisa que Deus criou foi a luz, o iconógrafo abre seu trabalho com a douração (aplicação das lâminas de ouro) das auréolas e fundo", diz padre Dimitrios. Inicia-se a pintura com as cores escuras: terra para a pele, e outras para as roupas e cenário. "Deus modelou o homem do barro e soprou nele a vida; então começa a buscar a luz, colocando cores cada vez mais claras, até a finalização com branco, para realçar os detalhes", prossegue. Após longo tempo de secagem, o ícone é envernizado e apresentado à autoridade religiosa competente (no caso, o professor), que dirá se ele é de fato um ícone, obedecendo os preceitos da Igreja Oriental, para tornar um objeto consagrado.

A peça também pode ser embalada com a risa, ou máscara de metal nobre moldada, deixando transparecer apenas alguns detalhes da pintura, como o rosto ou as mãos. Embora não seja parte da obra, enquanto ícone, é por meio dela que o público o identifica melhor, além de ser um uma proteção e um carinho extra do autor para com sua obra abençoada. E um indicativo de que a pintura encerra símbolos linguisticos. Interprete-os!

 
Curso de Iconografia. Rua Nossa Senhora do Paraíso, 21. Tel.: 3171-3443.
 
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