O Despertar da Primavera é um caso atípico na história da dramaturgia. Escrito em 1891 pelo dramaturgo alemão Frank Wedekind, o texto recebeu sucessivos vetos de montagem e publicação na Europa e EUA – com ameaça de prisão para quem resolvesse tornar pública uma história em que a igreja, o estado e a escola despontavam como os principais inimigos de uma juventude oprimida. O Despertar passou a primeira metade do século XX sendo visto em porões e locais secretos, como uma espécie de iguaria para paladares iniciados. A primeira montagem profissional da peça se deu apenas em 1974, em Londres, 56 anos após a morte do autor. A espera parece ter valido a pena: quando chegou ao conhecimento público, a peça fez um sucesso tão imediato que recuperou o tempo perdido. O potencial explosivo e a resistente ousadia da obra não passaram imunes aos olhos da Broadway que, em 2006, pelas mãos dos adaptadores Duncan Sheik e Steven Sater, acrescentou rock and roll às ideias de Wedekind e fez de O Despertar da Primavera um musical de surpreendente êxito para o público jovem.

É esta versão roqueira de O Despertar da Primavera, burilada pelas mãos dos diretores Claudio Botelho e Charles Möeller, que entra em cartaz sexta (12/03) no Teatro Sérgio Cardoso, com um elenco de 20 atores (18 deles entre 14 e 26 anos) e um histórico de ótimas críticas e bilheterias na temporada carioca. "Não sei explicar por que este texto, mais de um século após ter sido criado, continua tão atual em seu poder de retratar a juventude", diz Botelho, responsável pela tradução dos diálogos e das canções. "Talvez Wedekind tenha sido um visionário, talvez o mundo tenha mudado pouco. Vi esta peça pela primeira vez aos 16 anos. Meu elenco jovem a viu no ano passado. Tenho certeza de que eles sentiram o mesmo que eu senti 30 anos atrás."

O coquetel que levou O Despertar da Primavera a permanecer proibida por tanto tempo é composto por estupro, gravidez na adolescência, incesto, espancamento, homossexualismo e o ataque constante às instituições sociais. Ambientada na Alemanha, no final do século XIX, a peça traz como protagonistas a garota Wendla (a atriz Malu Rodrigues), filha de uma família burguesa e religiosa que se recusa a ensiná-la como nascem os bebês, e o rebelde Melchior (Pierre Baitelli), o melhor, mais inteligente e mais bonito aluno da escola, um jovem que, como diz o texto, "não acredita em nada, nem em Deus nem no céu". Ao redor deste eixo, as outras histórias vão orbitando, como a da garotada espancada pelo pai, com quem é obrigada a manter relações sexuais todas as noites, o jovem casal gay, o rapaz que passa horas ao piano contra a sua vontade, o professor que emprega uma régua de madeira para punir os maus alunos, os pais repressores e o estado omisso. A escola é o cenário em que todas estas situações se cruzam.

 

 
"Eu sempre vi os musicais como um entretenimento para senhoras", diz Botelho. "Mas o que ocorre com O Despertar da Primavera é diferente: nossas poltronas são ocupadas por um público jovem, garotos que se reconhecem nos dramas dos personagens. E isso não é por conta do rock, ou por conta do elenco. Isto é o poder do texto de Wedekind".

A combinação aleatória de todos os elementos descritos um pouco acima poderia facilmente resultar em um espetáculo de provocação descartável. De acordo com o diretor, não é o que ocorre. "Não há nada de pornográfico nem de chocante em cena", garante Botelho. "O objetivo do autor foi mostrar que uma geração de jovens estava sendo deixada à margem do conhecimento, crescendo sob os olhares repressores de pais e mestres." Na montagem de Botelho, todos os personagens adultos da peça – os inimigos – são representados apenas por dois atores, Débora Olivieri e Eduardo Semerjian, este último fazendo sua estreia em musicais.
 

O Despertar da Primavera, estreia nesta sexta (12). Teatro Sérgio Cardoso. Rua Rui Barbosa, 153. Tel.: 3288-0136.
Quinta e sábado. 21h. Sexta. 21h30. Domingo. 18h. R$ 50 a R$ 60.

 
 
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