08/07/2010
Um campeão como nunca se viu
Domingo, a Copa terá um vencedor verdadeiramente novo: além de fazerem uma final inédita, Espanha e Holanda jamais ganharam o título mundial

Roberto Schmidt/AFP
 

Pela sexta vez nas 19 Copas já disputadas, o campeão mundial sairá de uma final entre dois países que jamais ficaram com o título anteriormente. A Holanda, vice mundial em 1974 e 1978, que anteontem eliminou o Uruguai, enfrentará a Espanha, que ontem fez 1 a 0 na Alemanha, na outra semifinal, e obteve sua melhor colocação há 60 anos, no Brasil, quando ficou em quarto lugar. Em uma decisão inédita, os dois se enfrentam no domingo, às 15h30 (de Brasília), no Estádio Soccer City, em Johannesburgo, na África do Sul. Será também a primeira final desde 1930, ano em que a Copa do Mundo foi disputada pela primeira vez, sem a presença de nenhum dos gigantes do futebol mundial: Alemanha, Argentina, Brasil ou Itália.

Após o 1 a 0 de ontem sobre a Alemanha, o técnico Vicente del Bosque lembrou a tradição esportiva de seu país, que ainda possui o tenista Rafael Nadal, o piloto Fernando Alonso e o jogador de basquete Pau Gasol (campeão da NBA com o Lakers), entre outros: "Somos um povo privilegiado com tantos bons nomes ao mesmo tempo. Somos de um país que mudou muito, está inserido na Europa e inserido no mundo." O treinador não concordou com a pergunta de um repórter sobre as semelhanças de seu time com a Holanda e afirmou que a derrota para a Suíça, logo na estreia, serviu para "passarmos a acreditar ainda mais nas nossas características".

A Holanda chega à sua terceira final em nove Copas disputadas, com um excelente aproveitamento, em média, de uma decisão a cada três Mundiais jogados. Invicta há 25 partidas, incluindo amistosos, venceu todas as que disputou em 2010.Pode amargar um trivice no domingo, mas também tem chance de fazer a melhor campanha, em números, da história das Copas, somando as eliminatórias para o Mundial e a fase final do torneio em si, algo que somente o mítico Brasil de 1970 conseguiu.

A seleção laranja venceu seus oito jogos no qualificatório. Foi a primeira da Europa a assegurar vaga na Copa da África do Sul. No Mundial, venceu as seis partidas. Ganhando a final no tempo normal ou na prorrogação, terá 100% de aproveitamento em sete jogos da Copa e oito das eliminatórias. O Brasil de 1970 também ganhou todos os seus compromissos no caminho do tricampeonato no México, mas fez menos jogos. Venceu seis nas eliminatórias sul-americanas e seis no Mundial.

Outras seleções, como o Brasil de 2002, foram campeãs vencendo todos os seus jogos na Copa, mas tiveram campanha acidentada nas eliminatórias. No qualificatório para o Mundial de 2002, por exemplo, a Seleção Brasileira perdeu seis vezes e empatou três.

 Siphiwe Sibeko/Reuters
A alegria nos rostos de espanhóis (que passaram pelos alemães)
e holandeses (que eliminaram os uruguaios) continua até domingo,
quando os dois países decidem a Copa 2010

Campeões mundiais ganhando todos os jogos na Copa, só o Uruguai de 1930, a Itália de 1938 - ambos em quatro partidas -, o Brasil de 1970 (seis) e o Brasil de 2002 (sete). Caso vença a final de domingo sem ser na disputa de pênaltis, a Holanda entrará nessa seleta galeria de campeões de campanha "perfeita''. Caso empate a final e perca nos pênaltis, a equipe laranja será o segundo país a ser vice-campeão invicto - a França foi em 2006.

Ausente do jogo de abertura do Mundial devido à morte de sua bisneta em um acidente automobilístico na véspera, o ex-presidente Nelson Mandela só vai decidir no próprio domingo se comparecerá à final da Copa do Mundo. Sua família também ficou de participar da decisão. A cerimônia de encerramento começará às 13h30 (horário de Brasília), com a performance da colombiana Shakira, que cantará mais uma vez a música Waka Waka.


Prêmio de consolação
Uruguai, bicampeão do mundo, e Alemanha, tricampeã, disputam, sábado, o terceiro lugar em 2010

O alemão Schweinsteiger, um dos destaques da Copa, ficou por alguns minutos de joelhos no campo logo após perder para os espanhóis a vaga na final: punha a cara no gramado e parecia chorar. Foi o último a deixar o campo, mas outros atletas alemães também ficaram desnorteados no gramado. Nem por isso eles se sentirão desmotivados para enfrentar o Uruguai na disputa pelo terceiro lugar, diz o técnico Joachim Löw, garantindo que seus atletas não vão se "desmoralizar'' e estarão recuperados para o jogo de sábado, em Port Elizabeth.

Löw conta com a volta do jovem Müller para recompor o time que vinha de exibições brilhantes antes de tropeçar diante da seleção espanhola. Nem todos os alemães, no entanto, estão tão animados com a disputa pelo terceiro lugar, um prêmio de consolação que não costuma mobilizar as grandes equipes nem os torcedores. O capitão Lahm, depois de muito chorar a derrota de ontem, foi claro: "O jogo pelo terceiro lugar? Neste instante, não tenho vontade nenhuma."

Do lado uruguaio, talvez porque a dor pela derrota para a Holanda já esteja mais cicatrizada, não há tanta indiferença pelo terceiro lugar, que seria a melhor classificação da equipe numa Copa do Mundo desde a conquista do título em 1950. O zagueiro Victorino diz que o time está pronto para reagir e lembra que o Uruguai luta para seguir entre as principais seleções do mundo.

Manter a qualidade técnica que apresentou na África do Sul, para conseguir a classificação ao Mundial do Brasil em 2014, é realmente o que mais preocupa os uruguaios, que só conquistaram a vaga nesta Copa na repescagem contra a Costa Rica. O botafoguense Loco Abreu, reserva que costuma entrar durante os jogos, enfatiza a importância de mais uma vitória na Copa do Mundo: "Estamos trabalhando com respeito, humildade e acreditamos num projeto de longo prazo. Os resultados na África do Sul são muito positivos para o nosso país."

 
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