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Nem é preciso perguntar. O escritor americano Benjamin Moser logo se adianta em explicar o título que seu primeiro livro, a biografia da escritora brasileira Clarice Lispector, recebeu em português. "Clarice vírgula. Porque nunca vai ser Clarice ponto final". Com essa simples metáfora linguística, bem ao estilo da escritora, Moser revela o quanto está imerso na vida, no pensamento e na ousadia de Clarice. Afinal, foi ela quem iniciou uma de suas obras, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, com uma vírgula. E Benjamin Moser não se cansa de viver o universo de possibilidades que a simples vírgula "clariciana", termo que ele mesmo usa, representa: uma infinidade de histórias e significados.
Depois de passar os últimos cinco anos mergulhado em uma detalhada e cuidadosa pesquisa sobre a vida de Clarice Lispector, e de escrever a mais ampla e aclamada biografia da escritora, Moser tem uma certeza: Clarice Lispector, como tema e como fonte de inspiração, é inesgotável. Ela não acaba nunca. Mais do que biógrafo de Clarice, Benjamin Moser é um apaixonado por ela e pela "herança" que deixou em seus escritos.
"Herança", aliás, foi uma palavra que Moser usou várias vezes para se referir à obra de Clarice durante a entrevista que concedeu ao Diário do Comércio na semana passada. Isso porque, para ele, Clarice não deixou apenas uma obra literária, mas registrou em seus textos e em sua vida um "modelo de introspecção, de autoconhecimento e de fidelidade à própria obra".
O interesse pela escritora começou durante uma aula de literatura brasileira na Brown University, quando a leitura recomendada para a turma foi A Hora da Estrela. "Isso aconteceu há mais ou menos quinze anos. Muito tempo depois, estava em minha casa na Holanda, com amigos, falando sobre ela e alguém me disse que começava no dia seguinte, em Paraty, a Flip em homenagem a Clarice. Peguei o avião no dia seguinte e voei 14 horas para estar lá."
Paraty transformou o interesse em fascínio e o livro Why This World - A Biography Of Clarice Lispector, publicado nos EUA em agosto deste ano, nasceu desse ímpeto de viajar, típico de um apaixonado. Na medida em que pesquisava sobre Clarice, a paixão se transformou também em sonho. "Quando comecei a escrever o livro tinha o sonho de ver o nome de Clarice no New York Times", disse Moser.
Em novembro, quando o livro ganhou sua tradução para o português, o sonho de Moser já tinha se realizado. O jornal americano elegeu a biografia como um dos "100 livros notáveis de 2009". "É a quarta vez que Clarice aparece no New York Times", celebrou o escritor, revelando mais um sintoma de sua paixão.
Com apenas 32 anos, Moser poderia comemorar o fato de seu nome estar em destaque nos jornais e revistas. Mas o que lhe dá prazer é ver Clarice reconhecida. "Depois da publicação do livro houve uma aceleração na mídia em torno da história de Clarice. Outro dia vi uma resenha do livro publicada no Vietnã", contou o escritor, feliz em ver Clarice citada naquele país tão distante do Brasil.
Coisas assim, reconheceu Moser, fizeram seu esforço valer a pena. Afinal, a pesquisa não foi fácil. Ele fez uma verdadeira peregrinação pela vida de Clarice, esteve nas cidades onde Clarice viveu, foi à cidade de seu nascimento, Tchechelnik, na Ucrânia, percorreu a Europa e, no Brasil, esteve várias vezes no Rio de Janeiro e em Recife. Entrevistou amigos, parentes, conhecidos da escritora. Mas o momento mais difícil de seu trabalho foi mesmo enfrentar o papel em branco. "O maior desafio foi contar a penosa história da família de Clarice e a derrota de seu pai", disse ele.
Pobre, vivendo em uma região miserável da Ucrânia, sem que o pai tivesse a oportunidade de se dedicar a suas paixões – a matemática e o conhecimento dos textos sagrados judaicos – e com a mãe gravemente doente depois de ter sido violentada por soldados russos, a família Lispector enfrentou momentos de desespero.
"Tudo isso teve dois impactos grandes na vida de Clarice. Primeiro, ela foi concebida com a missão de curar a mãe, de acordo com uma crença perigosa que até hoje existe na região de que uma mulher doente pode ser curada ao engravidar. E Clarice fracassou. Depois, ainda muito menina, ela ficava horas no bairro em que vivia, Boa Vista, no Recife, contando histórias mágicas em que a cura da mãe era o desfecho principal. E ainda assim, ela fracassa", conta Moser. Enfrentar o desafio de contar essa história dolorida da família Lispector permitiu que Moser revelasse pontos cruciais e inéditos da biografia de Clarice.
As histórias da menina não tiveram o poder de curar sua mãe. Mas certamente ajudaram a moldar a escritora que ela se tornaria anos depois. E mais do que isso: "Outro dia, no lançamento do livro em São Paulo, um leitor me disse que ela não fracassou, porque suas histórias ajudaram a salvar muitas vidas, as vidas de seus leitores. Eu gostei muito disso".
| www.claricelispector.com.br |
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O sentimento de fracasso deixou ainda outra marca em Clarice, e abre o caminho para a compreensão de sua relação com Deus e com o judaísmo. "A menina implora a Deus que salve a mãe, e Deus não a salva. Então, ela rompe com Deus, e o abandona como Ele a abandonou", explicou Moser.
Esse sentimento de fracasso e abandono foi o ponto de partida da concepção de Deus e de religião que Clarice iria revelar em sua obra. Clarice desprezava Deus, embora tivesse uma relação – como tudo em sua vida – ambígua com a religião e a espiritualidade. "O Deus de Clarice é absolutamente inumano, ele não toma conta das questões e das dores humanas. Ele é uma essência vital, está nos animais, na natureza, no mundo sem linguagem."
Considerada por todos como uma criança especial e, depois, como uma mulher complexa e misteriosa, Clarice não gostava dessa imagem. O mistério que aparece em suas obras e que emana de seus olhos nas fotografias, ou de suas frases que levam a linguagem ao limite, não era algo que ela alimentasse. "Ela fazia questão de dizer que esse mistério não correspondia a ela, mas as pessoas ficavam fascinadas ao perceber que ela tinha uma força incomum. Clarice, como todos os gênios, era paradoxal e não tenho a pretensão de tê-la desvendado. Há fatos pequenos de sua vida que não consegui descobrir, mas uma biografia é feita de fatos pequenos. E eu estou absolutamente comprometido com a divulgação do trabalho e da vida de Clarice."
Um compromisso que, para Moser, terá vida longa, já que, como ele diz, "há sempre mais profundidade em uma frase de Clarice. Como o amor, que só se aprofunda com o tempo", disse o escritor.
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A escritora
Clarice Lispector nasceu em Tchechelnik, na região ucraniana da Podólia em 10 de dezembro de 1920. Sua família imigrou para o Brasil quando ela ainda era bebê. Na juventude, Clarice trabalhou como jornalista. Ela publicou seu primeiro livro, Perto do Coração Selvagem, em 1943, aos 23 anos, já anunciando na obra seu estilo introspectivo e enigmático. No mesmo ano, casou-se com um diplomata e iniciou uma peregrinação por vários países. Seu romance mais conhecido, no Brasil e no exterior, é A Hora da Estrela, livro que encantou o biógrafo Benjamin Moser. Clarice morreu no Rio de Janeiro em 9 de dezembro de 1977. |
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O biógrafo
Benjamin Moser nasceu em 14 de setembro de 1976 em Houston, nos EUA. Viveu na Inglaterra, na França e atualmente mora na Holanda. Colaborador de publicações como The New York Times Review of Books e Harper's Magazine, trabalhou como editor de várias publicações e é tradutor de obras em diversos idiomas. Moser fala 10 línguas, entre elas o português, e traduziu livros dos escritores brasileiros Bernardo Carvalho e Luiz Alfredo Garcia-Roza para o inglês. Ao ler A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, ficou encantado com o poder de uso da linguagem que a escritora revela em seus textos. A biografia de Clarice é seu primeiro livro. |
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A declaração de amor de
Benjamin Moser a Clarice Lispector
Clarice na Cabeceira (Rocco, R$32) é outra novidade do mercado editorial sobre a escritora. No livro, personalidades como Carla Camurati e Rubem Fonseca apresentam seus contos preferidos de Clarice.
Uma declaração de amor. A melhor maneira de entender a biografia de Clarice Lispector que o escritor americano Benjamin Moser acaba de lançar no Brasil é levar a sério suas próprias palavras. "Eu escrevi o livro por amor", disse ele.
O sentimento fica evidente na leitura de sua obra. Clarice, (CosacNaify, R$ 79) não conta apenas a história da escritora. É um texto cheio de cuidado e precisão. Por isso, há muito mais sobre Clarice em cada uma de suas 648 páginas do que uma reflexão sobre sua vida e sua obra ou um relato dos acontecimentos de sua vida. Benjamin Moser explora o universo emocional da escritora e busca revelar as fontes da poesia, da dor, do arrebatamento, da dúvida e da inquietação existencial que apenas Clarice Lispector pode expressar.
Para escrever o livro, o jovem escritor Benjamin Moser passou cinco anos, em uma exaustiva e, como ele mesmo disse, caótica, pesquisa sobre Clarice. Dedicou-se a ela intelectual e afetivamente, investigou a fundo as origens familiares da escritora, conheceu a pequena cidade ucraniana onde ela nasceu e refez os passos de Clarice por muitas outras cidades na Europa, EUA e Brasil.
Luiz Maximiano |
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Benjamin Moser: devoção. |
Depois desse mergulho na vida de Clarice, Moser trouxe a público um drama familiar que até então ninguém conhecia. Clarice Lispector nasceu em Tchechelnik em 1920, em uma região pobre da Ucrânia, numa família judia que sofreu os horrores do antissemitismo e da violência da guerra civil que se estendia pela Rússia após a Revolução Bolchevique. A mãe de Clarice, Mania, concebeu a filha de acordo com as crenças locais, que prescreviam a gravidez como tratamento de cura para uma doença venérea. A doença foi contraída porque Mania, como muitas mulheres da região no ano de 1918, fora estuprada por soldados russos. Sem dinheiro ou acesso a tratamentos médicos, a alternativa de cura eram as crenças populares. A filha era a esperança de salvação de Mania.
Marcada mais pelo fracasso de não conseguir curar a mãe – uma missão que jamais poderia ter sido cumprida – do que por ter nascido de uma esperança, Clarice perdeu a mãe quando tinha 9 anos. Na primeira década de vida, a menina transmitia alegria e vivacidade, embora enfrentando com a família a viagem da Ucrânia para Maceió, as dificuldades financeiras no Brasil e a convivência com a doença da mãe. Refugiava-se do sentimento de fracasso e das dificuldades nas histórias que ela inventava. Muitas vezes, os personagens eram lápis de cor. Invariavelmente, o final feliz era a mágica cura de sua mãe.
Essas passagens da vida de Clarice têm desdobramentos em toda sua existência e só mesmo um biógrafo comprometido como Moser seria capaz de lidar com os fatos de modo tão cuidadoso, sem banalizações. Para mostrar quem é a Clarice que emerge desse legado familiar, Moser mergulha na história dos avós e pais de Clarice, da comunidade judaica da cidade de Tchechelnik e no contexto social e político em que o sofrimento dos Lispector era único, embora não fosse exceção.
Pelo olhar e pela pesquisa de Moser conhecemos a relação de Clarice com seu pai e suas irmãs, as paixões da escritora e alguns de seus segredos de amor. Fatos importantes de sua vida são pontuados com trechos de suas obras e, em cada capítulo, o escritor surpreende os leitores de Clarice mostrando como ela fazia de sua própria vida, e de acontecimentos cotidianos, a matéria-prima de sua ficção.
Moser investiga mitos e esclarece dúvidas que sempre existiram sobre Clarice: seu mistério indecifrável, suas supostas ligações com magia e bruxaria, suas relações amorosas, o casamento, a relação com os filhos, a separação, o trabalho como jornalista, as dificuldades financeiras, o envelhecimento, o incêndio a que ela sobreviveu, o câncer que a vitimou e, principalmente, a odisseia espiritual que viveu com sua obra literária. Tudo isso além de revelar as ambiguidades e paradoxos da escritora.
A delicadeza do biógrafo ao tratar da vida de Clarice revela aos leitores de longa data da escritora, bem como àqueles que nada conhecem de sua obra, uma mulher que viveu ao máximo a experiência de ser estrangeira, alheia e solitária no mundo.
O livro inspira uma profunda identificação com as angústias e a personalidade de Clarice, e o desejo de que ela entre em nossas vidas para ficar. Algo que só mesmo uma declaração de amor
é capaz de fazer. |
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