Por Sonaira San Pedro, enviada especial a Pequim
A cidade de 3 mil anos de história está cheirando a tinta fresca e acerta os últimos detalhes para receber o mundo todo na festa da Olimpíada. Arranha-céus modernos e novíssimas vias expressas em Pequim (ou Beijing, como quer ser chamada a capital chinesa) surgem na mesma velocidade que desaparecem os hutongs, bairros tradicionais de ruelas sinuosas e vida que parece ter parado em algum tempo bem distante.
As antigas lojas de departamento com a quadrada arquitetura soviética estão dando lugar a pontos-de-venda de grifes internacionais desenhados por arquitetos europeus e shoppings centers up-to-date com as últimas tendências da moda. Os milenares ideogramas estampados em placas, indicações da cidade e cardápios de restaurantes já dividem espaço com o inglês. Nos ambientes públicos, anunciam-se nas duas línguas. Os rios foram despoluídos e cerca de 200 fábricas, transferidas para bem longe da metrópole. As flores, ainda em botões, começam a se abrir nos novíssimos parques e jardins que surgem por todos os cantos.
Foto: Sonaira San Pedro |
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Pequim cheira a tinta fresca, com novos prédios. Mas a tradição se mantém nos hutongs, bairros
de ruelas sinuosas |
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É ao som do bate-estaca incessante, que dá novo ritmo às calmas canções chinesas, e com vistas para muitas obras e guindastes colossais que Pequim vive os últimos dias antes dos Jogos Olímpicos.
Mas nem tantas mudanças rápidas e gigantescas fazem da capital chinesa um lugar fake, apenas produzido para o evento. A harmonia com que a contemporaneidade e a cultura milenar convivem sensibiliza o viajante que chega à cidade.
Cenas comuns no cotidiano são executivos atravessando largas avenidas em riquixás, em direção a um encontro de trabalho ou um café com internet sem fio. A bicicleta resiste ao tempo. Elas circulam desenvoltas pelas ruas movimentadas e surpreende o fato de que o volume de bicicletas aumente em 30 milhões a cada ano. Tem ainda os jovens que vão aos templos budistas ouvindo os mantras em seus ipods e recitando-os bem baixinho.
O espetáculo vai começar - Será pontual: quando o relógio do National Stadium bater 8 horas, 8 minutos e 8 segundos, na noite de 8 de agosto de 2008, a pira será acesa e uma nova China se mostrará ao mundo. Os chineses continuam supersticiosos e optam sempre pelo número 8 em ocasiões especiais – porque, em mandarim, o algarismo se pronuncia ba, que lembra fa, que pode significar rico e trazer boa sorte.
Como tudo no país, a infra-estrutura dos Jogos Olímpicos foi planejada em dimensões gigantescas e exageradas para impressionar os olhos dos 1,7 milhão de estrangeiros que devem chegar ao território chinês para o evento. A maior vila olímpica abriga o maior centro aquático, o maior estádio... O National Stadium, que lembra um ninho de pássaro pelos contornos entrelaçados com 42 mil toneladas de aço, vai abrigar 91 mil espectadores logo na cerimônia de abertura dos jogos. Além dos investimentos do governo chinês de US$ 34,6 bilhões para a preparação do evento, os patrocinadores já desembolsam US$ 1,5 bilhão, ou o triplo do valor arrecadado nos Jogos de Atenas, há quatro anos.
Em Pequim, a Vila Olímpica abrigará 31 estádios. Doze deles são novíssimos e estão em fase final de construção, como o Cubo d'Água – já conhecido pela sua forma geométrica e a impressionante iluminação noturna. Outros oito campos esportivos foram erguidos temporariamente para o período dos jogos, como o Triathlon Venue. E outras cidades também abrigarão uma parte do show. Xangai sediará partidas de futebol. Hong Kong, conhecida internacionalmente pelas corridas de cavalo, abrigará provas de hipismo. E Qingdao, Tianjin, Shenyang e Qinhuangdao ainda farão parte do circuito olímpico.
Com tanta renovação e investimento, a nova China que os organizadores dos Jogos Olímpicos devem mostrar aos povos, é grandiosa, moderna, pacífica, limpa, cada vez mais aberta ao mundo e em constante desenvolvimento. Há quem diga que isso não passa de uma fantasia, tão alegórica como o símbolo milenar do dragão chinês: soberbo e poderoso, mas inexistente. É esperar para ver. |