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24/08/08
Sem desculpas, por favor...

Depoimento a Decio Viotto - O esporte é assim. A minha impressão é de que, dada a pouca estrutura que damos aos atletas brasileiros, chegar em uma final é uma grande conquista, ainda mais quando se ganha ouro. Para mim não existe isso, do Brasil que não é favorito vencer até o Brasil que é favorito, como o jogo entre os brasileiros no vôlei de praia. Não existe estatística, não existe um levantamento científico, é aquilo que Nelson Rodrigues chamou de complexo de vira-lata. Não podemos fazer interpretações selvagens. O esporte é assim, às vezes se ganha, às vezes se perde. O que se pode dizer, que é comprovado, é que onde se investe dá certo.

Não se pode exigir que se ganhe sempre. Por acaso existe alguém que sempre faça o mexido bem? Eu não conheço um. No esporte existem vários fatores que interferem, inclusive o outro que pode ser melhor que você. Não dá para querer ganhar sempre. Num país onde se rouba, se corrompe, não se pode cobrar de quem vende os móveis para que o filho continue competindo e, depois, venham reclamar por que o atleta não ganhou o ouro. Precisamos acabar com a improvisação, com a arrogância. É preciso dar valor ao esforço planejado e investir no atleta.

Tem que ter escola, método, tradição. O Brasil sempre teve bons pianistas, por exemplo, mas poucos sabem que tudo começou com investimentos feitos na época do império. Quanto a Olimpíada é preciso saber perder e saber valorizar, digamos, meia vitória. Você é capaz de jogar como a Marta? Eu não sou e você também não. O que eu acho lamentável é o atleta, depois de todo esforço dele para representar o país, que quase nada lhe dá, vir a público pedir desculpas pelo resultado que alcançou. Tenho certeza, por exemplo, que 99% da população brasileira não faz um único movimento de Diego Hypólito, mas ainda assim o sacrificaram pelo "erro" na final da ginástica.

É preciso acabar com essa idéia de que nossos atletas têm de carregar a Pátria nos ombros. Ora, eles já têm que carregar a si mesmos. Eu acho que Maquiavel em O Príncipe explica bem. O príncipe para ter sucesso precisa da fortuna e da virtú. Não basta ter apenas competência (no caso a virtú), é preciso ter a fortuna (a sorte)."

Renato Mezan
é doutor em filosofia pela USP, professor da PUC-SP e um dos mais eruditos psicanalistas do país. Seu livro Freud, Pensador da Cultura é obra de referência mundial.