Por Lucia Helena de Camargo
Desde a primeira edição, em 1929, o Oscar provoca polêmica entre os críticos e muitas vezes o sentimento de injustiça entre os perdedores. E algumas são tão mais evidentes e unânimes, como em 1941, ano de lançamento de Cidadão Kane, de Orson Welles, que figura no topo de dez entre dez listas de críticos como o mais inovador e bem elaborado filme de sua época, tendo mudado para sempre a maneira de se fazer cinema. O Oscar premiou nesse ano John Ford, como melhor diretor e filme, com Como era Verde o meu Vale. O talento de Ford é inegável, mas ficou o gosto da injustiça. O filme de Welles levou apenas o prêmio pelo roteiro original. O diretor receberia apenas um Oscar de consolação, em 1971, pelo conjunto da obra.
| Roberto Setton/AE |
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| Debora e John Kerr (Chá e Simpatia, à esq.); Gene (direita abaixo) e Cidadão Kane |
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Charles Chaplin, Scorsese,
Roberto Benigni e Richard Burton |
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Outro equívoco patente foi a premiação, em 1950, da fraca atriz Judy Holiday (Nascida Ontem), tendo entre as concorrentes as magníficas Bette Davis (A Malvada) e Gloria Swanson (Crepúsculo dos Deuses). Também em 1956 ficou evidente a injustiça: levou o Oscar de melhor filme A Volta ao Mundo em 80 dias. Quem merecia? Assim Caminha a Humanidade.
Os filmes mais comentados e cultuados nem sempre são premiados em seu tempo. Ainda na década de 1950, uma produção aclamada por muitos que chegou perto, mas não levou a estatueta, foi Cantando na Chuva, de 1952. O musical recebeu indicação na categoria de atriz coadjuvante (Jean Hagen) e pela música, de autoria de Lennie Hayton. Acabou não ficando com nenhum. Quem ganhou foi a bem menos menos conhecida canção-tema do filme With a Song in My Heart.
Um exemplo dos anos de 1970 é Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick, que concorreu aos Oscars de filme, direção, montagem e roteiro adaptado, mas também não ganhou nada. O vencedor foi Operação França, de William Friedkin, nas categorias filme, diretor e ator (Gene Hackman). Malcolm McDowell, protagonista do filme de Kubrick, nem foi indicado.
O excepcional Al Pacino também deve ter sua dose de ressentimento em relação à Academia de Hollywood. Em 1974, era o franco favorito, pela atuação O Poderoso Chefão 2, mas perdeu para o obscuro Art Carney (O Amigo de Tonto). Oito vezes indicado, viria a ser premiado apenas em 1992, ao interpretar um cego em Perfume de Mulher.
A atriz Deborah Kerr, presença marcante em A Um Passo da Eternidade (1953), nunca levou para a casa um Oscar por sua atuação em um filme. Indicada seis vezes de 1949 a 1960, foi premiada apenas em 1993, já no final da vida, com um Oscar honorário pela contribuição ao cinema. Caso parecido ao de Charles Chaplin, jamais premiado por seus filmes. Em 1971 receberia o fatídico prêmio tapa-buraco, em reconhecimento pelo conjunto da obra.
O Oscar de Melhor Filme de 1976 poderia entrar para o Livro dos Recordes como a premiação mais escandalosamente descabida da história da instituição, com a entrega da estatueta a Rocky, o Lutador e a seu diretor, John G. Avildsen. O descalabro não ocorreu por falta de bons candidatos, pois naquele ano figuravam na lista Todos os Homens do Presidente e Táxi Driver. Também Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese, foi vítima, em 1990, de um julgamento obtuso, que premiou Kevin Costner, por Dança com Lobos. Scorsese, aliás caminha para a fila dos Oscar honorários, porque nem quando criou obras-primas conseguiu a premiação como diretor.
Para salvar a lista há Ben-Hur (1959), vencedor de 11 Oscars, ao que consta todos merecidos, recordista em número de prêmios ao lado O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei (2003), último da trilogia de Peter Jackson, e Titanic (1997), este já com mérito mais discutível...
Já 1998 foi o ano dos insossos. Ganhou como melhor ator o chato Roberto Benigni, por seu filme A Vida é Bela, que venceu Central do Brasil, de Walter Salles na categoria de filme estrangeiro. A atriz escolhida foi a bonitinha e sem-gracinha Gwyneth Paltrow (Shakespeare Apaixonado). Concorriam Fernanda Montenegro (Central do Brasil) e Cate Blanchett (Elizabeth).
Nenhum brasileiro subiu ainda no tablado do Kodak Theatre para apanhar a estatueta. Em 2003, Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, sucesso de bilheteria e de crítica, no Brasil e no exterior, foi indicado em quatro categorias (direção, edição, roteiro e fotografia), mas não levou. Este ano, Jardineiro Fiel, dirigido por Meirelles concorre em quatro categorias: atriz coadjuvante (Rachel Weisz), roteiro adaptado (Jeffrey Caine), montagem e trilha sonora original. Não é um filme brasileiro (a produção é inglesa), mas vale para quem gosta de assistir a cerimônia para torcer.
De resto, este ano será difícil apontar injustiças nas categorias principais. Há o favorito de Ang Lee, mas os demais também estão no páreo. Com a possível exceção de Munique e Keira Knightley (Orgulho e Preconceito), quem ganhar leva por mérito. |