Nós,
os personagens de Machado.
Como todo grande escritor, Machado de Assis é múltiplo. e um grande provocador.
Sem nunca ter saído do Brasil, abarcou o mundo.
Por Renato Pompeu
Todos nós somos personagens de Machado de Assis (1839-1908), o maior escritor brasileiro de todos os tempos e um dos trezentos escritores mais importantes de toda a história mundial da literatura, que morreu há cem anos a 29 de setembro. É o que se pode depreender da leitura de duas obras do pesquisador inglês John Gledson, Por um Novo Machado de Assis – Ensaios, 14 artigos sobre contos, crônicas, romances, personagens e temas específicos das obras de Machado, e Machado de Assis, Impostura e Realismo, um completo e detalhado estudo sobre Dom Casmurro, o romance que é a obra mais machadiana de Machado. Ambos os livros de Gledson foram editados pela Companhia das Letras.
Dos trabalhos do erudito inglês – um das dezenas de pesquisadores estrangeiros que nas últimas décadas se têm dedicado ao estudo das obras de Machado, que já pode ser considerado um escritor de fama internacional, tendo seu c\entenário de morte sido assinalado por jornais prestigiosos do mundo inteiro, como o The New York Times – surge a idéia de que nós, os brasileiros em particular, mas também os seres humanos em geral, somos, como os personagens de Machado, nem anjos nem demônios, mas apenas seres que querem ter pelo menos um bocadinho a mais do que seu quinhão, e que hesitamos apenas um pouco se, para obter esse bocadinho, temos de desgostar ou inclusive prejudicar até mesmo alguém de quem gostamos.
Assim, para falar de Dom Casmurro, queremos, como a famosa Capitu, simples remediada, ascender para uma vida social melhor, ou, como o famoso Bentinho, com quem ela se casa, nascido muito rico, queremos ser amados pelo que realmente somos, seres carentes de afeto, e não pelo que temos. Tudo na vida, como nas obras de Machado, depende de duas coisas: as posições sociais em que nascemos e pelas quais vamos passando em nossa vida, o que depende de nossas aspirações e nossas oportunidades, e as disposições psicológicas com que nascemos e que vão sendo afetadas pelas sucessivas situações em nossa existência, o que depende de nossas relações com os outros e em particular de nossos amores.
Tudo isso é universal e eterno enquanto o ser humano durar, mas está imbricado nas condições sociais de momento, e é esse segundo aspecto que Gledson enfatiza. Ele mostra como, ao contrário do que imaginava a maioria dos leitores contemporâneos da ficção do escritor brasileiro, e de seus primeiros críticos, a obra de Machado está intimamente, inextricavelmente, ligada a "seu tempo e seu país", como disse o próprio Machado. Gledson demonstra como literalmente cada frase de Machado mostra o empenho entranhado de seu autor na luta por entender o Brasil de seu tempo e de como fazer para torná-lo uma nação melhor.
A leitura dos livros de Gledson se impõe, não só para os que querem compreender mais profundamente Machado, como, e principalmente, para os que querem compreender mais profundamente o Brasil. Aqui temos um Machado não olímpico e atemporal, mas envolvido visceralmente com as questões nacionais e de momento, como a luta entre escravistas e antiescravistas, entre monarquistas e republicanos, entre conservadores e liberais, entre democratas e autoritários, entre o Brasil escravista e o Paraguai modernizante de Solano López, enfim, nos contrastes entre opressores e oprimidos. No entanto, para ficarmos nessa última vertente, devemos notar, com Gledson, que Machado não era nenhum sentimentalista, ou sentimentalóide, defensor dos oprimidos – e é isso que causava estranheza aos leitores seus contemporâneos.
Machado, sem dúvida, era impiedoso com os opressores, odiava por exemplo a escravidão e o autoritarismo, mas sua simpatia pelos oprimidos não era incondicional. Ele era impiedoso também com os oprimidos que julgava cúmplices de seus opressores, e que, ao invés de lutar contra a opressão, manipulavam os opressores para conseguir deles alguns favores que lhes melhorassem a sorte. Mostra, sem dó, como os oprimidos desse tipo constituem a esmagadora maioria, como a aspiração do oprimido não é acabar com a opressão, mas, primeiro, se tornar aliado do opressor e seu protegido, e, se possível, ascender socialmente para se tornar ele próprio um opressor. Isso está explicitado, por exemplo, no episódio do escravo que, sendo surrado impiedosamente enquanto escravo, ao se tornar livre compra um escravo a quem surra impiedosamente. É evidente que Machado não criou esse exemplo a partir de uma fabulação excessivamente imaginosa e criativa, mas a partir da observação do que ocorria à sua volta.
Outra aguda percepção de Machado, notada por Gledson, é a de que o opressor, mais do que beneficiado, é também oprimido pela própria opressão que exerce. Por exemplo, o senhor de escravos sofre menos, fisicamente, do que o escravo, mas sofre igualmente seqüelas psicológicas profundas, que não lhe deixam ser feliz. Acostumado a ter tudo e a ser servido em tudo desde que nasceu, o senhor de escravos, a par de não desenvolver todos os seus talentos e de tender a não ser empreendedor de novas situações, mas abúlico mantenedor da situação existente, também sofre afetivamente, ao perceber que cuidam dele não por amor, mas por obrigação dos escravos e interesse das pessoas livres cujos destinos dele dependem, os "agregados". Essa última situação chega até o casamento – e é aqui que podemos notar uma certa malevolência de Machado, pois ele se delicia em pintar as misérias desses casamentos caricaturais.
A acusação de que os oprimidos são em geral cúmplices de seus opressores, e de que os opressores também sofrem com a opressão, é a maior acusação, afinal, que se pode fazer contra a opressão e é a única que pode fazer tanto oprimidos como opressores se voltarem unidos contra a opressão – mas, se isso é percebido racionalmente por todos que se detêm para observar a situação, poucos, e Machado é um desses poucos, sentem essa situação emocionalmente dolorosa nas mais profundas de suas entranhas.
Machado foi também malvisto por simpatizar, não com a república, mas com a monarquia. Mas precisamos nos colocar no seu tempo e no seu lugar. Um dos problemas é que ele via a monarquia como fator de consolidação da unidade nacional e a república como foco de desagregação, o que lhe era confirmado pelos exemplos da unidade imperial do Brasil e a desunião republicana da América espanhola. Outro problema é que ele via a monarquia, com seu regime parlamentarista, como mais democrática do que a república presidencialista que se consagrava nas Américas – e de fato a República permitiu, no Brasil, a existência de regimes plenamente autoritários e mesmo ditatoriais, num grau a que o Império nunca chegou.
Por outro lado, o Império era baseado na escravidão, e desapareceu menos de um ano e meio depois dela. Mas Machado poderia ter ra zões para ver essas situações de maneira diferente. Afinal, o imperador dom Pedro II sempre fora contra a escravidão, foi o Império que pôs fim à escravidão e o governo imperial estava se preparando para ceder terras devolutas para os ex-escravos quando ocorreu o golpe militar que proclamou a República e pôs fim a esse plano fundiário. Por isso mesmo, a única guarnição que se opôs a República foi a Guarda Negra da princesa Isabel, composta de ex-escravos. Machado pensava numa monarquia como a britânica ou as escandinavas e em repúblicas como o Paraguai e a Bolívia. E é curioso especular se as rupturas violentas dos anos 1930 e do regime militar não teriam, na monarquia constitucional parlamentarista apreciada por Machado, ocorrido como simples mudanças pacíficas de gabinete ministerial.
No entanto, surge um mistério, a partir das obras de Gledson: se Machado estava tão entranhado assim em "seu tempo" e em "seu país", como sua obra pode ter, como tem, um apelo universal a todos os seres humanos e um século depois de sua morte, mais de um século depois de terem desaparecido a escravidão e os "agregados"? É o mesmo mistério com que se deparou Karl Marx, o maior defensor da tese de que cada ser humano é o produto da situação social e econômica em que se encontram ele e a sociedade em que vive: como, perguntava Marx, podemos nos comover com as tragédias gregas antigas, criadas em circunstâncias sociais e econômicas inteiramente diferentes das nossas? Marx nunca respondeu à sua própria pergunta.
Como podemos nos comover com as obras de Machado, tão tintas da escravidão, tão cheias de parentelas extensas a que se agregam "agregados" não parentes? É que a grande arte, e os grandes artistas, retratam a condição humana universal e eterna, particularizada, com emoção discreta, nas condições nacionais e de momento. O particular, já disse a filosofia, não é um singular isolado, mas um singular que representa o universal. Gledson, com toda a importância de sua obra, afinal se limita a descrever as condições nacionais e de momento que levaram às criações de Machado, mas com isso se perde o que há de mais grandioso nos textos machadianos: a particularização da condição humana universal e eterna, de carência, de não ser auto-suficiente, de não se bastar a si mesmo, de necessidade do Outro, de necessidade da Outra.
| Renato Pompeu
é jornalista e escritor. |
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