E
chega essa gente amável,
mas tão iludida e maltratada
Carlos Ossamu
Discriminados lá e aqui, os primeiros imigrantes
japoneses foram iludidos e maltratados, viraram quase escravos
nas fazendas. Para o inspetor de imigrantes de São
Paulo, era uma gente de “delicadeza fina, de educação
apreciável”
| A poesia de Haruko Kuba,
para unir os dois pontos mais distantes da Terra
Ao longo deste caderno o leitor
encontrará poesias em estilo Haiku,
a forma que a imigrante de Okayama, Haruko
Kuba, falecida em 1997, escolheu para escrever
seus diários e falar sobre a viagem,
seu olhar sobre o Brasil, sua trajetória,
sentimentos e meditações em relação
ao tempo e à família que fez
aqui. Há poemas de quando visitou o
Japão e encontrou um país muito
diferente.
Elas
foram extraídas do livro Tama
No Izumi que, em português,
significa ‘Uma gotinha dentro
de um lago’.
Na família, o livro de poesias de Haruko é uma forma
de comunicação entre a imigrante e as próximas
gerações no Brasil. O estilo de poesia japonesa Haiku é caracterizado
por ter três versos que, sem rima, são concisos e
trazem percepções sensoriais sobre a natureza.
A história de Haruko distingue-se das demais, uma vez que,
além de poeta, foi uma mulher de mente avançada para
sua época. Não contente com o casamento que lhe arranjaram
no Japão, veio sozinha para o Brasil, com um filho, em 1929,
onde conheceu o médico Shincho Kuba, que imigrou de Okinawa
no mesmo ano. Casaram-se e tiveram sete filhos. (RT)
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| Patrícia
Cruz |
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| Desembarque de imigrantes
japoneses no porto de Santos. “Se
esta gente for no trabalho o que é no asseio,
na ordem e na docilidade, a riqueza paulista terá no
japonês um elemento de produção
que nada deixará a desejar”, escreveu
Amândio
Sobral, inspetor de
imigrantes de São Paulo |
No dia
18 de junho de 1908, exatamente às 11h17, atracava no porto de Santos
o navio Kasato Maru - trazia 781 imigrantes japoneses, os
primeiros de muitos que viriam nos anos seguintes. O navio
havia partido do porto de Kobe em 28 de abril do mesmo ano.
Foram mais de 50 dias de viagem, passando pelo Cabo da Boa
Esperança, no sul da África. De Santos, vieram
para São Paulo, na Hospedaria dos Imigrantes, na Mooca,
e foram distribuídos em seis fazendas de café no
Interior do Estado.
Segundo conta a socióloga Célia Sakurai, autora
do livro Os Japoneses (Ed. Contexto), a quase totalidade
desta primeira leva de imigrantes era originária de
Okinawa, ilha localizada no sul do Japão: “Era
uma região muito pobre, de economia agrária
e muito atrasada. Okinawa era um reino, que foi anexado ao
Japão, mas com uma cultura muito diferente, até mesmo
na língua. Por isso, eles eram discriminados pelos
próprios japoneses”.
Discriminados no país de origem, esses primeiros imigrantes
também sofreram forte preconceito no Brasil. Muitos
brasileiros eram contra a vinda de asiáticos, considerados
uma raça inferior. Porém, um artigo publicado
na edição de 26 de junho de 1908 do jornal
Correio Paulistano (extinto nos anos 60) traz uma imagem
totalmente oposta da que os brasileiros faziam dos japoneses.
Quem assina o artigo é J. Amândio Sobral, inspetor
de imigrantes do Estado de São Paulo, que ficou muito
impressionado com o comportamento exemplar e a aparência
impecável dos primeiros japoneses que chegaram ao
País. “Houve em Santos quem afirmasse que o
navio japonês apresentava, em sua 3ª classe, mais
asseio e limpeza que qualquer transatlântico europeu
de 1ª classe”, escreveu Sobral.
Ao desembarcarem do navio, os imigrantes foram colocados
em um trem com destino à Hospedaria de Imigrantes,
no bairro da Mooca, em São Paulo. Quando chegaram,
Sobral observou que todos saíram dos vagões
em ordem, sem que houvesse qualquer tumulto. Dentro dos vagões
e ao longo de seu caminho não se viu uma sujeira no
chão. Na hospedaria, segundo contou Sobral, os japoneses
também se comportaram de forma exemplar. Como o refeitório
não comportava todos ao mesmo tempo, eram divididos
em grupos. “Eles têm feito as suas refeições
sempre na melhor ordem e, apesar de os últimos a fazerem
duas horas depois dos primeiros, não se ouve um grito
de gaiatice, um sinal de impaciência ou uma voz de
protesto”, contou Sobral, que ainda observou: “Surpreendeu
a todos o estado de limpeza em que ficou o salão:
nem uma ponta de cigarro, nem um cuspo, perfeito contraste
com as cuspideiras e pontas de cigarro esmagadas com os pés
de outros imigrantes”.
Um outro gesto que emocionou Sobral foi o fato de os japoneses
terem desembarcado do navio segurando bandeiras do Brasil
e do Japão feitas de seda. Eles queriam ser amáveis
ao povo que os estavam acolhendo. “Delicadeza fina,
reveladora de uma educação apreciável”,
observou Sobral. E todos se vestiam de modo simples, mas à moda
ocidental, e não com quimonos, como estavam esperando.
E “foram os próprios imigrantes que compraram
as suas roupas, adquiridas com seu dinheiro, e só trouxeram
roupas limpas, novas, causando uma impressão agradável”.
Os japoneses eram imigrantes pobres, mas agiam com dignidade
e educação. Trouxeram malas de vime, roupas
e objetos simples, mas novos ou limpos. Pela descrição
da bagagem no relatório, verifica-se que todos tinham
poucas, mas basicamente as mesmas coisas: escova e pó dental,
pente e navalha de barba (itens de higiene pessoal que na época
muitos imigrantes europeus e até mesmo brasileiros
não tinham); cobertas (futons), travesseiros (makuras)
de madeira e casacos (artigos têxteis caros para imigrantes);
pequenas ferramentas, utensílios de cozinha e frasquinhos
para guardar o molho de soja (shoyu). A maioria trouxe livros,
tinta e papel, artigos incomuns para trabalhadores braçais.
Dos 781 imigrantes que vieram no Kasatu Maru, menos de 100,
uns 13%, eram analfabetos, índice muito baixo para
a época, graças ao forte programa de educação
iniciado no período Meiji.
Sobral terminou seu longo artigo observando que os funcionários
da alfândega declararam que nunca viram gente que tenha,
com tanta ordem e com tanta calma, assistido à conferência
de suas bagagens e nem uma só vez foram apanhados
em mentira. “Se esta gente for no trabalho o que é no
asseio, na ordem e na docilidade, a riqueza paulista terá no
japonês um elemento de produção que nada
deixará a desejar. A raça é muito diferente,
mas não inferior. Não façamos, antes
do tempo, juízos temerários a respeito da ação
do japonês no trabalho nacional”.
Árvore que dá ouro
A abolição da escravatura no Brasil ocorreu
em maio de 1888, e a mão-de-obra escrava cuidava das
lavouras. Era de se esperar que os fazendeiros tratassem
muito mal os seus empregados, já que a cultura escravagista
ainda estava muito arraigada. Os imigrantes foram trabalhar
para eles.
Trazidos pela empresa Teikoku Imin Kaisha (Companhia Imperial
de Imigração), que firmou em 1907 um contrato
com a Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo
para alocar três mil imigrantes até 1910 em
várias fazendas de café, muitos japoneses pretendiam
ficar no Brasil não mais do que cinco anos, período
em que, de acordo com informações dadas pelos
agentes de emigração no Japão, seria
suficiente para ganharem dinheiro e retornarem com economias
ao país natal. “Mas havia muitos imigrantes
japoneses que não pensavam em voltar ao Japão.
Lá não havia emprego e aqui tinha muita terra,
e japonês é fascinado por terra, um pedacinho
que ele comprasse por aqui para construir um sítio
era uma coisa inimaginável no Japão”,
comenta a socióloga Célia Sakurai.
“
Com a era Meiji, o Japão entrou em um forte período
de industrialização. Foi a transição
japonesa do feudalismo para o capitalismo, e o Japão
queria rapidamente recuperar o tempo perdido. As condições
de trabalho eram até piores do que na Revolução
Industrial na Inglaterra. Havia muita gente, os salários
eram baixíssimos e muito desemprego. A emigração
também serviu para aliviar a pressão demográfica
do país”. O Brasil foi o último destino
dos imigrantes japoneses. Antes eles foram para os Estados
Unidos, Canadá, México e Peru. Nos anos que
precedem à entrada de imigrantes japoneses no Brasil,
começaram a aparecer severas restrições
nos Estados Unidos, Canadá e Havaí.
Para atrair o maior número de pessoas possível,
as agências faziam propagandas que deixariam qualquer
advogado trabalhista de hoje de cabelos em pé, algo
totalmente fora da realidade.
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Os imigrantes vieram de trem para
São Paulo e, segundo o inspetor, todos saíram
dos vagões em
ordem, sem qualquer tumulto. Dentro dos vagões
e ao longo de seu caminho não se viu uma
sujeira no chão. Na hospedaria os japoneses
também se comportaram de forma exemplar
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Como o Brasil era um país totalmente desconhecido
e exótico para os japoneses, inventavam-se fatos mirabolantes.
O cafezal era descrito como “a árvore que dá ouro”,
e a produtividade da planta seria tamanha que os galhos envergavam
com o peso dos frutos, sendo muito fácil colhe-los
com as mãos.
O contratador brasileiro comprometia-se a providenciar
moradia a cada família
de imigrantes, tudo isso estava no contrato, que por outro lado não especificava
que tipo de moradia era esta. Muitas eram antigas senzalas de barro ou casebres
de madeira, sem divisórias, sem água, sem instalações
sanitárias e sem móveis.
A alimentação ficava por conta de cada um, mas também não
se explicava o sistema exploratório de armazéns - eles tinham de
comprar tudo do armazém da fazenda, a preços altíssimos,
e no final do mês o que era consumido era abatido do salário e muitos
ficavam devendo. Os alimentos vendidos: arroz sequeiro, feijão, milho,
carne ou peixe salgado, itens que os japoneses não gostavam e mal sabiam
preparar. Os brasileiros não tinham o costume de plantar verduras nem
conheciam na época a soja, fundamental na culinária japonesa. Pela
má alimentação, muitos imigrantes ficaram subnutridos, doentes
e morreram, sem falar da malária, que também causou muitas
mortes.
Com as duras condições nas fazendas, muitos imigrantes fugiram,
vindo para São Paulo e outras cidades para trabalhar como empregados na
construção civil, comércio, empregados domésticos
e estivadores, pois alguns foram para Santos. Na década de 1910, instalou-se
em Santos um pequeno grupo de profissionais autônomos e pequenos comerciantes
japoneses e, na década seguinte, alguns imigrantes passaram a morar e
abrir negócios próximos à rua Conde de Sarzedas, na região
da praça da Sé.
O governo japonês tomou conhecimento das dificuldades dos primeiros imigrantes.
Para resolver isso, a partir de 1910 as empresas de emigração japonesas
passaram a comprar grandes áreas de mata virgem para instalar colônias,
chamadas de shokuminchi. Por este sistema de colônias, os japoneses passaram
a vir para o Brasil como produtores agrícolas, e podiam adquirir a prazo
lotes de terra pertencentes às empresas de emigração. Uma
condição muito melhor em comparação à quase
escravidão dos primeiros imigrantes. Eles passaram a cultivar arroz e
principalmente algodão, produto agrícola bastante valorizado na época,
pois base da indústria têxtil. Essas colônias foram a origem
de muitas cidades brasileiras, como Registro, Bastos, Iguape e Suzano, além
de Assaí (norte do Paraná) e Tomé-Açú (Pará).
A partir de 1941, os Estados Unidos entraram na 2ª Guerra e o Brasil se
alinhou. O resultado foi a imposição de restrições
aos imigrantes das nações inimigas. A publicação
de jornais em japonês, por exemplo, foi proibida pelo governo brasileiro,
e os Correios suspenderam os serviços entre os dois países. A imigração
de japoneses ao Brasil também foi interrompida e quem já estava
aqui passou a ser alvo de perseguição e mais preconceito.
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Nos cafezais, mais sofrimento: as
moradias eram antigas senzalas de barro ou casebres
de madeira, sem água, sem nada. A comida era
comprada, uma péssima alimentação.
E muitos imigrantes fugiram para São Paulo e
outras cidades para trabalhar como empregados na construção
civil, comércio, empregados domésticos
e estivadores
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Comunidades inteiras de imigrantes que viviam
nas cidades, principalmente Santos e São Paulo, receberam ordem de retirada. Famílias inteiras foram
expulsas de suas casas e enviadas para fazendas de isolamento no Interior. Imóveis,
dinheiro e bens dos imigrantes foram confiscados para um fundo de indenização
de guerra. O Banco América do Sul e o Hospital Santa Cruz, fundados por
japoneses, tiveram suas diretorias afastadas e passaram a ser administrados por
interventores nomeados pelo governo. Reuniões com mais de cinco pessoas
passaram a ser proibidas, incluindo festas de aniversário e de
casamento.
Após a guerra, a política brasileira de imigração
mudou radicalmente. “O Brasil tomou uma postura pouco aberta, isso de um
modo geral, não apenas com os japoneses. Com a política de industrialização
do presidente Juscelino, o governo passou a exigir que os imigrantes tivessem
qualificação profissional”, comenta a socióloga Célia
Sakurai. Entre os anos 50 e 60 uma nova geração de imigrantes japoneses
veio para o Brasil: “Como eram imigrantes mais bem preparados, com formação,
eles olhavam os japoneses que aqui estavam com certa prepotência. Teve
até briga de japoneses no bairro da Liberdade por conta disso”,
conta Sakurai.
Nos anos 80, quando o Japão assombrava o mundo comprando o Rockfeller
Center, estúdios de cinema e os seus carros invadiam a América,
passou-se a difundir a idéia da modernidade japonesa. Tudo o que vinha
de lá era de alta tecnologia. Com isso, a imagem do japonês por
aqui também melhorou, deixando de ser apenas o do tintureiro e do feirante.
Restaurantes japoneses pipocaram por toda a cidade. Hoje, saiu do noticiário,
pois a moda é falar do crescimento chinês. Mas a comida
japonesa continua em alta.
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