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E chega essa gente amável, mas tão iludida e maltratada

Diário de Bordo do Kasato Maru

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Educação é o nome do milagre desta superpotência

 

EDUCAÇÃO É O NOME DO MILAGRE DESTA SUPERPOTÊNCIA

O Japão se preparou para o desenvolvimento a partir da Era Meiji, de 1868 a 1912, com forte investimento em educação. E mesmo destruído após a 2ª Guerra, se tornou a única potência econômica oriental do século 20

O Japão de hoje é um país moderno, exibe alta tecnologia por todos os lados e apresenta uma das maiores expectativas de vidas do planeta (78 anos para os homens e 85 para as mulheres). Mas nem sempre foi assim. No século 19, o Japão era um país tão subdesenvolvido quanto o Brasil naquela época. Durante o século seguinte, mesmo passando por duas guerras mundiais e sair bastante destruído da última, os japoneses conseguiram se tornar uma superpotência, aliás, a única não-ocidental do século 20. Segundo o professor Paulo Roberto de Almeida, do Centro Universitário de Brasília, “o Brasil e o Japão partiram de patamares muito baixos no século 19, mas o país asiático, por ter investido em educação, conseguiu alçar-se à condição de país avançado no decorrer do século 20, o que o Brasil ainda não fez e não parece ter condições de realizar num horizonte previsível”.

Yoshikazu Tsuno/AFP

Segundo ele, o grande divisor de águas e que possibilitou ao Japão preparar o seu crescimento econômico foi a Era Meiji, um período de 45 anos do reinado do imperador Mutsuhito, o imperador Meiji (o imperador iluminado), que se estendeu de 1868 a 1912. Foi uma fase de grande desenvolvimento e modernização.

Até 1853, fim do período Edo (1603 - 1868), o Japão era um país feudal, com uma economia atrasada e isolada do contexto internacional. Neste ano, os Estados Unidos invadiram a baía de Uraga, forçando o país a abrir os portos para o comércio internacional. Foi uma fase de turbulência, que perdurou até a chamada Restauração Meiji, que acabou com mais de 250 anos de regime feudal do xogunato Tokugawa - o último xogun, Tokugawa Yoshinobu, renunciou em 1867 e no ano seguinte o império foi restaurado.

“ De 1870 até 1900, o Japão passou por uma grande transformação. Como uma forma de status, as pessoas das classes mais ricas usavam roupas ocidentais e enviavam seus filhos para estudar na Europa, a fim de absorverem conhecimentos ocidentais. Ao mesmo tempo, há um grande investimento na alfabetização e educação das crianças. Mais de 90% estavam alfabetizadas neste período”, diz Almeida.

A partir de 1900 começa a fase expansionista do Japão, com uma população crescente, com alguma industrialização nas áreas têxtil e de manufatura, carente ao extremo de recursos energéticos e matérias-primas. O país começou a investir pesado na indústria bélica, principalmente em navios de guerra.

Durante a Era Meiji, o povo japonês enfrentou duas guerras: a Sino-Japonesa (1894-1895) e a Russo-Japonesa (1904-1905). Ambas tiveram como um dos principais objetivos impedir a expansão russa rumo ao sul, evitando a ocupação da península coreana. Isto causaria uma ameaça constante ao Japão, já que as ilhas japonesas são próximas da Coréia.

O governo Meiji tentou influenciar a Coréia para fazer deste país a muralha de proteção dos ataques estrangeiros. Porém, essa estratégia causou atritos políticos com a China, que se julgava protetora da Coréia. Uma revolta dos camponeses coreanos, insatisfeitos com a situação econômica do seu país, mobilizou tropas japonesas e chinesas na região, iniciando a guerra Sino-Japonesa de 1894. O conflito terminou rapidamente, com a vitória japonesa. Em abril de 1895 foi assinado o Tratado de Paz em Shimonoseki, no qual a China se comprometeu a: 1) reconhecer a independência da Coréia como nação; 2) ceder ao Japão as ilhas de Formosa (Taiwan) e a península de Liaotung; 3) pagar uma indenização ao Japão no valor de 310 milhões de ienes.

Outro conflito importante foi a guerra entre Japão e Rússia, que procurava ocupar a parte nordeste da China, unindo-se à Alemanha e França para forçar a devolução da península de Liaotung à China. O Japão, que não possuía poder suficiente para enfrentá-los, acabou devolvendo a península à China. Esse episódio criou um forte antagonismo do povo japonês contra a Rússia. Porém, o que o governo japonês temia era a expansão russa até as portas do Japão, pela península coreana. Assim, o governo japonês conseguiu aliar-se à Inglaterra e declarou guerra à Rússia em fevereiro de 1904.

Com muitas dificuldades, as tropas japonesas conseguiram levar vantagem sobre as tropas inimigas. Em março de 1905, por exemplo, as tropas japonesas conseguiram expulsar os exércitos russos da província da Manchúria. A marinha nipônica, por sua vez, derrotou a poderosa esquadra do Báltico, composta por gigantescos navios de guerra russos, no estreito da Coréia, perto da ilha de Tsushima.

Em 1905, o Japão anulou os direitos diplomáticos da Coréia, e, em 1907, o imperador coreano foi obrigado a abdicar, forçando dessa forma a dissolução do exército coreano. Essas medidas do governo japonês causaram a revolta do povo coreano, surgindo vários levantes e resistências. Em 1909, o primeiro ministro japonês, Ito Hirobumi, o primeiro a ocupar o cargo de chefe de gabinete ministerial do Japão, foi assassinado por um coreano durante a sua viagem à Manchúria. Mas o movimento para a anexação da Coréia seguiu o seu processo e em 1910 (ano 43 da Era Meiji), a Coréia foi anexada ao Japão, chegando a ser “colonizada”. Nas escolas coreanas eram ensinadas a língua e a história do Japão, forçando os alunos a assimilar a cultura japonesa.

Em 1919 houve um grande movimento para a independência da Coréia, mas somente após a derrota do Japão na 2ª Guerra Mundial, em 15 de agosto de 1945, é que a Coréia se tornou independente. E, apesar de conquistar a independência, em virtude da manipulação das grandes potências, a Coréia foi dividida em Coréia do Norte (comunista) e Coréia do Sul.

Yoshikazu Tsuno/AFP

A década de 30 marcou o auge da política imperialista japonesa. Ao cobiçar as matérias-primas e os vastos mercados da Ásia, o Japão reiniciou sua investida imperialista em 1931, conquistando a Manchúria, região rica em minérios, que pertencia à China. Em 1936, os japoneses tomaram Pequim e outras grandes cidades. “A política japonesa era dominada, nesta época, por militares nacionalistas, que disseminavam a doutrina de superioridade da raça japonesa, algo semelhante ao que fez Hitler em relação à raça ariana”, comenta o professor Almeida. Até mesmo a política de migração teve o objetivo, além de aliviar o país da pressão populacional, de criar bases em outros países para a expansão do império japonês.

Após a 2ª Guerra Mundial, com o país destruído com duas bombas nucleares, o Japão conseguiu se reerguer até se tornar uma potência econômica. “O crescimento japonês pós-guerra é extraordinário. Eles usaram muito a técnica de engenharia reversa, ou seja, desmontavam um produto, aprendiam como eram feitos e remontavam, procurando o aperfeiçoamento. Foi desta forma que eles conseguiram se desenvolver e, importante, sob o guarda-chuva, ou a tutela, dos Estados Unidos, que temiam que o Japão pendesse para o bloco socialista”, explica Almeida.

O grande boom japonês ocorreu entre os anos 50 e 80. Segundo Almeida, a crise do petróleo, no fim dos anos 70 e início dos anos 80, foi fundamental, principalmente para a indústria automobilística: “Os japoneses aperfeiçoaram os sistemas de produção e desenvolveram carros mais baratos e econômicos. Fizeram sua transição democrática e os ajustes monetários sem irresponsabilidade fiscal, ou seja, fizeram o dever de casa”. Este conjunto foi fundamental para o extraordinário “milagre” japonês.


 

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