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o ISSEI YAMAMOTO
DESENHOU TODAS AS EMOÇÕES DE SUA AVENTURA
Imigrante de primeira geração,
Daizi Yamamoto tinha então 16 anos e fez os
desenhos no navio a pedido da mãe, para mostrar
que estava tudo bem. Aos 85 anos, relembra tudo com
o mesmo espírito de aventura |
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Enquanto alguns imigrantes
japoneses de primeira geração, os isseis, lembram com nostalgia
e até certa tristeza da viagem que os trouxe para o outro
lado do mundo, Daizi Yamamoto, de 85 anos, recorda daqueles
42 dias com a mesma empolgação e espírito de aventura que
tinha aos 16 anos, quando partiu de Kobe rumo ao porto
de Santos. Com o mapa mundi a postos, Yamamoto retoma na
memória o percurso que fez em 1938 e, ao apontar cada trecho
do trajeto no mapa, ele explica, misturando os idiomas
japonês e português, o nome do local que corresponde a
cada um dos 42 desenhos que fez durante a viagem.
Com papel,
lápis, caneta, giz de cera e aquarela em mãos, Yamamoto
reproduzia o que via de dentro e de fora do navio Rio de
Janeiro Maru. Há desde detalhes da embarcação, personagens
que conheceu, como também paisagens de outros países. Um
dos desenhos mostra Hong Kong ao longe, já que não era
permitido descer em todas as paradas do navio. Desta maneira,
o jovem Yamamoto registrou, do convés, o entardecer na
Indochina, o caminho até Cingapura, a Ilha de Sumatra até chegar à Africa
do Sul, onde ele pôde finalmente descer e ficar por três
dias.
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Daizi Yamamoto: “Eu
rascunhava em 10 minutos e memorizava os detalhes.
Depois, no navio, eu pintava deitado na cama, durante
o dia, já que não havia mesa”
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"
Eu rascunhava em 10 minutos e memorizava os detalhes.
Depois, no navio, eu pintava deitado na cama, durante o
dia, já que não havia mesa", explica Yamamoto, que não
deixou escapar nenhum detalhe da África: desenhou a orla
de Durban, o pôr-do-sol, os tanques de petróleo, o porto
e os navios de pesca de baleias. "Quando o navio retomou
a viagem, eu só via água e parei de desenhar. É uma pena
eu não ter conseguido desenhar o Brasil. Eu tentei, mas
quando estávamos chegando, pediram para guardar as bagagens.
Só deu tempo de escrever uma carta".
Além de tirar notas
altas pelos desenhos que fazia para a escola que estudou
no Japão, Yamamoto não teve esse trabalho durante a viagem só por prazer. Ele
tinha a missão de enviá-los para Tama Yamamoto, sua mãe, que havia ficado em
Fukuoka, no Japão, apreensiva com a viagem do filho. "Antes de embarcar com meus
tios e primos, ela disse para eu ir com cuidado. Na falta de uma máquina fotográfica
para mostrar que estava tudo bem, eu fiz os desenhos e enviei pelo correio".
O
imigrante só foi ver novamente as ilustrações 32 anos depois, quando conseguiu
visitar a mãe no Japão: "Ela havia guardado e encadernado tudo. E pouco tempo
depois ela faleceu. Era como se estivesse esperando ele buscar os desenhos",
disse a filha do imigrante, Celina, de 54 anos. Como era muito jovem, Yamamoto
disse que durante a viagem de navio não ficou triste e sentia apenas a emoção
da descoberta, já que era a primeira vez que deixava o seu país. "Eu nunca tinha
visto povos diferentes. Fiquei impressionado com as roupas que os malasianos
usavam, com os prédios e as construções inglesas em constraste com as palafitas
que vi em Cingapura. A cada desenho, me sentia mais longe do Japão e, assim,
mais estrangeiro". O imigrante era muito receptivo a tudo o que era novo e fez
amizade com passageiros de outras nacionalidades, usando o idioma inglês. "Havia
um senhor indiano, muito rico, que falava que os ingleses punham veneno na comida
de indianos bem-sucedidos. Por isso, ele fazia a própria comida". Este personagem
foi retratado e autografou o desenho de Yamamoto.
Enzo,
o primeiro rokussei, solta o seu grito de ninja
A gente vai tirar foto,
né?”
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Enzo e sua espada
de plástico:
este ninja troca fácil um lanche
do McDonalds por sashimi |
Foi a primeira frase de
Enzo Yuta Nakamura Onishi, de 3 anos, ao ser apresentado à reportagem do Diário
do Comércio em sua casa na Vila Sônia, Zona
Oeste de São Paulo. Com a pergunta, o garoto mostrou
que já percebe o assédio da imprensa neste
ano de Centenário da Imigração Japonesa
no Brasil. O motivo é que Enzo é o primeiro
rokussei do Brasil, expressão que em português
significa o primeiro descendente da sexta geração
da família de imigrantes japoneses. Basta pedir
a ele o sinal de rokussei, que Enzo levanta os seis dedinhos
e, quando questionado, fala o nome do navio que trouxe
os seus tataravós ao Brasil, o Kasato Maru.
“
Levamos Enzo ao museu e tentamos explicar o que foi a imigração,
onde os tataravós moravam e porque o chamam de rokussei.
Ele pergunta por que tiram fotos dele. Como é muito
novinho ainda não tem idéia, mas aos poucos
vai entender, assim como eu entendi”, conta a mãe
de Enzo, Vanessa Mayumi Nakamura, de 34 anos. Aos 12, ela
teve sua foto estampada em muitos jornais da comunidade
japonesa, já que foi a primeira gossei, em português,
descendente de quinta geração de imigrantes
japoneses no Brasil.
Vanessa, bioquímica e papiloscopista policial, nunca
pensou que veria essa história se repetir com seu
filho: “Não podia imaginar, já que
esperei atingir os 30 anos para ser mãe”.
Casada desde 2001 com Walter Hideo Onishi, Vanessa disse
que chegou a pensar que nem chegaria a ter um filho: “Curtimos
o casamento por três anos e, justamente na época
em que decidimos ter um bebê eu não conseguia
engravidar. Quando eu finalmente relaxei, o Enzo veio”.
Além de primeiro rokussei, Enzo também é o
primeiro neto da família Nakamura. Segundo ela,
o rastreamento que detectou que o garoto era o primeiro
rokussei foi feito pelo Consulado do Japão no
Brasil.
Além de rokussei, Enzo - que mora com os pais, avós
e bisavós - aprendeu a falar outras palavras em
japonês, principalmente aquelas ligadas ao cotidiano,
como dormir e escovar os dentes, por exemplo. Tanto é que às
vezes solta uma palavra em português com um leve
sotaque japonês na letra c (pronunciada com som de
t). Embora passe boa parte do tempo concentrado em ouvir
histórias, em assistir canais educativos japoneses,
em conversar com o amigo imaginário e mesmo em brincar
de engenheiro com pecinhas, Enzo anima-se mesmo quando
o chamam para brincar de ninja. “Oouuuuiiáaaa!”,
grita, enquanto desfere no ar os golpes com a espada de
plástico, que foram ensinados pelo avô, Ossamu
Nakamura. Além de assistir desenhos animados, Enzo
busca a inspiração no judô e fica entusiasmado
quando escuta o som dos tambores japoneses, o taikô.
Vanessa diz que se surpreende com as preferências
alimentares do filho: “Ele troca tranqüilamente
um lanche do McDonalds por sashimi. E adora tofu e brócolis.
Até parece o garoto do comercial que passa na televisão”,
conta a mãe, orgulhosa. Apesar disso, ela oferece
um cardápio metade brasileiro, metade japonês: “Em
casa, é bife, feijão e tofu”. A papiloscopista
disse que a família já é bastante
abrasileirada e assumiu a religião católica.
O marido Walter vem de família mais tradicional
japonesa, que preserva a religião e hábitos
como o de tirar os sapatos para entrar em casa até hoje. “Por
isso, Enzo aprende um pouco mais sobre cultura japonesa
e pensamos em colocá-lo numa escolinha que ensine
o idioma”.
O avô materno de Enzo, Nakamura, é o responsável
pelo resgate da história da família de sua
esposa, Neusa Mitie Nakamura, desde o Kasato Maru. “O
interessante é que as famílias Takeuti e
Kawabata vieram no mesmo navio, chegaram em 1908 e suas
histórias se cruzaram anos depois e resultou na
Neusa”, conta. Segundo Vanessa, ser a primeira gossei
não se tornou um peso para dar continuidade a essa
história: “Antes eu tive um namorado ocidental,
mas não deu certo”. Para ela, a vida do rokussei
Enzo será mais fácil na sociedade brasileira,
por conta da integração cultural: “Na
sala de aula em que estuda só ele é descendente
de japoneses, mas isso não é problema nessa
geração. Na época da minha mãe,
havia muito preconceito e as crianças tiravam sarro”. |