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E chega essa gente amável, mas tão iludida e maltratada

Diário de Bordo do Kasato Maru

Os fugitivos das fazendas se encontram na Liberdade
A cultura e tradição preservadas
Arquitetura para dialogar com o passado e definir o futuro
Caminho do imperador
A missão de Yugo Mabe
"Japa" aqui, estrangeiro lá. Vida difícil esta de dekassegui
Miyahira é um exemplo de sucesso. Caso raro
O issei Yamamoto desenhou todas as emoções de sua aventura
Enzo, o primeiro rokussei, solta o seu grito de ninja
Educação é o nome do milagre desta superpotência

 

MIYAHIRA É UM EXEMPLO DE SUCESSO. cASO RARO

Uma exceção no universo dos dekasseguis que retornam do Japão, o coordenador administrativo da área de Administração e Recursos Humanos da Ajinomoto em São Paulo, Enio Miyahira, tornou-se um exemplo de sucesso. Miyahira decidiu ir para o Japão em 1991, após concluir a graduação em Marketing, para trabalhar como dekassegui na linha de produção da Ajinomoto. Dois anos e meio depois, foi promovido e tornou-se responsável pela integração e contratação de funcionários brasileiros da fábrica da empresa: "Nesta época, fiz um curso intensivo de japonês, já que estava deixando a fábrica para ir para um escritório". Em 1999, o contrato de Miyahira terminou, mas ele permaneceu no país por mais três meses para fazer um curso sobre produtividade, como bolsista.

Fábio D'Castro/Hype
Leda Reiko Nakabayashi Shimabukuro: “Criamos o grupo Tadaimá que, em português, significa Cheguei"

A decisão de voltar para o Brasil foi pessoal: "Eu havia conhecido minha esposa no Japão, me casei e tive dois filhos. Em março de 2000 decidi voltar porque eles estavam no ensino fundamental e era prejudicial permanecerem no Japão por uma série de questões, como a escola, os amigos e a formação da própria identidade".

No retorno a São Paulo, Miyahira passou pelo Grupo Nikkei e por agência de empregos: "Fui um dos fundadores do Tadaimá e participei como voluntário no grupo. Deixei muitos currículos e passei por um emprego onde fiquei por três meses antes de voltar para a Ajinomoto, no Brasil". Embora não tivesse carta de referência da Ajinomoto japonesa, Miyahira tinha as referências de seus antigos colegas de fábrica, o que o ajudou a conseguir a vaga de supervisor administrativo em dezembro do mesmo ano de seu retorno. Durante este período, ele não deixou de lado os estudos e concluiu um MBA em gestão empresarial em 2007, ano em que também foi promovido a coordenador administrativo: "O segredo é correr atrás e melhorar a formação. A readaptação é difícil, mas é preciso que os dekasseguis façam uma opção ao retornar: ficar no Brasil ou no Japão. O problema é o ir e vir, que faz com que percam o rumo. É preciso ter um objetivo", concluiu Miyahira.


E, para complicar mais, surgem as doenças da volta

Rejane Tamoto
Botuem: "Na essência, os ex-dekasseguis voltam com pé-de-meia do Japão e precisam manter. Eles voltam muito perdidos". Acima, festa para brasileiros em Kobe

Há 30 anos o psiquiatra Décio Issamu Nakagawa atende em seu consultório os dekasseguis que trazem consigo os reflexos na saúde mental que o movimento migratório entre Brasil e Japão pode provocar. Segundo ele, atualmente houve uma redução significativa dos transtornos mentais entre os dekasseguis, que representam cerca de dois dos pacientes que atende mensalmente.

Segundo Nakagawa, a redução das doenças mentais dos dekasseguis se deve a um apoio maior aos brasileiros no Japão, que já tem à disposição comércio, bares, danceterias e supermercados com produtos brasileiros, e onde podem falar português

O período crítico de doenças mentais, no entanto, abrangeu toda a década de 90, período em que passavam pelo divã do psiquiatra cerca de vinte pessoas por mês. "Entre o período de 1990 e 1995, um número expressivo de pessoas saudáveis entrava em surto, poucos meses depois de chegar ao Japão. Em dez anos, muitos se suicidaram", disse.

De acordo com Nakagawa, neste período a maioria voltava do Japão com depressão, principalmente os descendentes de segunda geração, que não tinham o domínio da língua, passavam por um choque cultural, e sentiam solidão e saudade da família. "A partir de 1995, os dekasseguis começaram a voltar e levar a família para o Japão. Mas então a situação ficou crítica para os filhos de dekasseguis, com dificuldades de adaptação, e para os idosos, que foram deixados aqui. Então, foi uma transferência de problema do trabalhador para a família".

Segundo o psiquiatra, os impactos na saúde não são só mentais e há um grupo de pacientes que só adoeceu depois que retornou ao Brasil. São pessoas que passaram a ter problemas de pressão arterial, câncer, doenças degenerativas e de reumatismo: "Quando estas pessoas estavam sob forte estresse, a resistência estava elevada, porque a exigência era maior. Quando relaxaram, a imunidade caiu e as doenças afloraram"

Além disso, há o estresse da volta, provocado pela adaptação ao Brasil: "É quando a pessoa tem de começar tudo de novo. Ela estava mergulhada no Primeiro Mundo e, ao retornar, precisa elaborar tudo outra vez e fazer escolhas o tempo todo. No Japão não é preciso fazer isso porque tudo funciona". Segundo o psiquiatra, o ex-dekassegui pode entrar novamente em um quadro depressivo porque também se sente diminuído por ter trabalhado em fábrica e não como executivo ou estudante, o que garante mais status no retorno ao Brasil.

Em 1995, o psiquiatra formulou o conceito de Síndrome de Regresso, que é diagnosticada se a pessoa apresentar a partir de três de um total de cinco sintomas.

O primeiro deles é o dekassegui retornado mostrar-se dispersivo. O segundo, se apresentar distanciamento afetivo. O terceiro, sensibilidade para as diferenças (há diversidade de pessoas no Brasil e no Japão todos são iguais). O quarto é a tendência para a autodestruição (um exemplo é abrir empresa que visivelmente não tem chance de dar certo, e ter de voltar ao Japão). E o quinto é retornar para o Japão. Nakagawa explica que trabalha a psicanálise na linha dinâmica: "É um trabalho que envolve o resgate da auto-estima e da identidade, que fica abalada. Em alguns casos, é possível reverter a doença sem o uso de medicamentos". (RT)

Culinária, este legado de delícias

A integração entre brasileiros e japoneses foi tamanha que hoje eles têm mais um gosto em comum: o sushi, o sashimi, o gyosa e o tempurá. E ainda o contemporâneo Teppan-yaki.


Com o Chef Ângelo Jodai, do Restaurante Asia.

Sashimi - A palavra em português significa alimento marítimo comido cru e pode ser peixe, marisco e frutos do mar. A dica para saborear um bom sashimi é escolher uma combinação variada e os peixes devem ter carne firme e cor brilhante. Segundo o Guia da Cultura Japonesa (JBC Editora), o melhor peixe para o sashimi é o de inverno, que tem uma gordura que deixa a carne mais saborosa. Para acompanhar o peixe cru, além dos temperos shoyu e wasabi, a dica é comer os filamentos de nabos que não servem só para enfeitar o prato: têm enzimas digestivas.

Sushi - O bolinho de arroz, de formato retangular, recheado com legumes e peixes e enrolado com algas é conhecido popularmente por 'sushi'. Segundo o Guia da Cultura Japonesa (JBC Editora) na culinária japonesa, o nome do bolinho é nigirizushi, e há também muitas variações dele. Há o makizushi, um bolinho no qual o arroz e o recheio ficam sobre uma folha de alga marinha que, depois, é enrolada como um cilindro. Mas se houver variedade de recheios, o bolinho será o futomaki. Se tiver peixe cru, um tekkamaki. Se de pepino, kappamaki. Outro famoso bolinho é o temaki, que significa que o bolinho é enrolado em uma alga com a mão. Independentemente do nome, é só passar o shoyu e saborear.

Gyosa - Uma espécie de pastel da culinária japonesa, o gyosa tradicional sempre tem recheio de carne suína. No entanto, no Brasil é possível encontrar recheios de salmão e de carne bovina. Segundo o chef do Restaurante Asia, Ângelo Jodai, a massa do gyosa é feita à base de farinha de trigo e ovos, parecida com a de pastel: "A diferença é que ele é cozido no vapor e, no final, passado no óleo bem quente apenas para dourar". A porção de seis unidades é uma das entradas mais pedidas pelos brasileiros no restaurante e acompanha molho shoyu, com vinagre de arroz, limão e laranja.

Tempurá - O prato quente da culinária japonesa também conquistou o paladar do brasileiro. A receita tradicional do tempurá é simples: basicamente um mix de legumes como cenoura, abobrinha, batata doce, abóbora japonesa, quiabo e berinjela são envoltos em uma massa e fritos em óleo bem quente, junto com camarão. "Há quem peça um só de legumes ou só de camarão", disse Jodai. Segundo ele, a massa leva farinha de trigo, ovo e água, mas não é tão fácil de fazer em casa quanto parece: "O ponto da massa é complicado, não pode ser muito grosso e nem ralo. Ele também tem de ser frito em um óleo quente, na temperatura certa, que não é conseguida pelos fogões residenciais".

Teppan-yaki - No Japão, os japoneses se orgulham de ter uma culinária bem variada de pratos frios e quentes e, acima de tudo, saudável. E por isso, adoram ir aos restaurantes teppan-yaki, onde a maioria dos alimentos é feita na chapa. A idéia também faz sucesso entre os brasileiros. Segundo Jodai, uma refeição teppan-yaki é composta por um mix de legumes que, refogados, são passados na chapa e o filé mignon também na chapa: "Além de carne bovina, podem ser feitos na chapa peixes, frutos do mar e frango". Esses ingredientes são acompanhados por uma porção de arroz tradicional japonês (cozido em água apenas) e o caldo missoshiru: "É o tipo de prato quente que tem de ser servido em todo restaurante japonês no Brasil". (RT)

 


 

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