'Japa' aqui,
estrangeiro lá. Vida difícil esta de dekassegui
Metade dos descendentes que
vão trabalhar no Japão volta para o Brasil,
a maioria por saudade. E aí começam os problemas:
a readaptação é muito difícil
neste choque entre dois mundos bem diferentes
| Fábio
D'Castro/Hype |
|
|
Jorge Toshinobu Yshikawa
voltou ao Brasil cinco vezes
num período de dez anos: "Sentia saudades
da família"
|
|
Sérgio Minoru
Muto voltou antes da hora com saudade da
namorada: “Agora, quero arrumar um emprego aqui
mesmo" |
 |
Margarete Terumi Yamasaki
não quer voltar para
o Japão: "Mesmo que ganhe pouco, é melhor
ficar aqui" |
Aos 41 anos, Jorge Toshinobu
Yshikawa não se conforma com o atendimento público de saúde,
nem com a economia e a política, tampouco com o 'jeitinho
brasileiro', mesmo sendo ele um brasileiro, com o detalhe
de que se acostumou ao sistema social de primeiro mundo japonês.
Yshikawa trabalhou em linhas de produção de peças para automóveis
e em outras fábricas no Japão e, num período de dez anos,
retornou ao Brasil cinco vezes: "Eu sentia saudades da família
e, numa das vezes, abri minha própria empresa para, quem
sabe, ficar de uma vez".
A tentativa de empreender não deu
certo pela falta de experiência no mercado
brasileiro e as dívidas o levaram ao Japão novamente. Seu último retorno ao Brasil
ocorreu em 2006 e, desde então, um acidente e decepções com os amigos tornaram
ainda mais difícil a adaptação de Jorge ao seu país: "Quero ficar no Brasil,
voltar ao mercado de trabalho, mas ainda não sei em que área".
A história de Yshikawa ilustra bem as dificuldades pelas quais passa um universo
expressivo de brasileiros, os dekasseguis - aqueles que se fixaram temporariamente
no Japão para trabalhar como mão-de-obra direta -, mas voltaram ao seu país de
origem. A constatação é do estudo A Difícil Readaptação nas Fronteiras da Cultura:
O Retornado Dekassegui em São Paulo, do sociólogo formado pela Fundação Escola
de Sociologia e Política de São Paulo, Edson Katayama. Segundo ele, dos mais
de 300 mil brasileiros que vivem no Japão, cerca de 150 mil retornam ao Brasil.
Adaptação
A maioria, explicou o sociólogo,
está no movimento pendular, de ir e vir. Mas
aqueles que querem se fixar novamente em seu país de origem sofrem para se
adaptar aos serviços públicos brasileiros e aos salários oferecidos. Por isso,
também
têm dificuldades de conseguir um emprego, pela ausência de atualização profissional
e pelo enfraquecimento da rede de relacionamentos pessoais e profissionais. "O
dekassegui vai para o Japão para trabalhar e economiza dinheiro para comprar
um carro e uma casa no Brasil. Ao fazer isso ele não consegue manter esses
bens, porque precisa de um bom emprego, o que é difícil porque está desatualizado
e ganha bem menos. Na cabeça dele, ficam os dólares que recebia no Japão. Outra
opção de muitos é abrir a própria empresa, o que é complicado porque geralmente
o capital é mal aplicado", explicou Katayama.
O próprio sociólogo viveu na pele
a experiência, quando voltou ao Brasil depois
de morar por oito anos no Japão. A pesquisa incluiu ainda 126 entrevistas feitas
por Katayama entre 2005 e 2007, quando foi consultor de dekasseguis em uma
agência
de empregos para o Japão.
"
Ainda estou em readaptação e optei por dar continuidade
aos estudos acadêmicos. E ao fazer um paralelo sobre minha experiência dekassegui,
escolhi partir para a realização pessoal e profissional. É o ser em vez do
somente ter", disse o sociólogo que, entre 1990 e 1999 viveu no Japão e, nesse
período,
tentou permanecer no Brasil uma vez, por cinco meses: "Uma das maiores dificuldades é tolerar
novamente o jeitinho brasileiro e a corrupção, depois de ter assimilado o sistema
japonês, no qual temos o retorno dos impostos pagos em políticas públicas".
Segundo o sociólogo, a adaptação ao Japão não é difícil, porque o salário compensa
as diferenças culturais e de alimentação.
Um ponto sensível que traz os dekasseguis
de volta para o Brasil, segundo Katayama, é a
necessidade do sentimento de pertencimento, de ter uma identidade: "Aqui, o
descendente sofre o preconceito e é chamado de 'japa' e lá é estrangeiro. No
Brasil, os imigrantes japoneses se tornaram brasileiros. No Japão, eles nunca
serão cidadãos japoneses".
Saudades
Outro motivo que leva muitos
brasileiros a retornar para casa é a saudade da
família. E foi justamente a saudade da namorada que fez o engenheiro elétrico
Sérgio Minoru Muto, de 28 anos, voltar ao Brasil, depois de trabalhar por
dois anos e meio numa fábrica de componentes eletrônicos no Japão: "Eu tinha
a intenção
de ficar lá por três anos, mas minha namorada, que eu conheci no Japão, tinha
voltado ao Brasil. As saudades dela e da minha família contribuíram para
o meu retorno há três meses. Agora, quero arrumar um emprego aqui mesmo".
Por
causa da saudade da família, Margarete Terumi Yamasaki, de 32 anos, voltou
do Japão
há dez anos. Sua principal dificuldade ainda é retornar ao mercado de trabalho,
já que deixou o Brasil quando concluiu a oitava série do ensino fundamental: "No
Japão eu estudei o idioma e trabalhei em fábrica. Mas voltei para fazer o
supletivo e a faculdade de matemática. Minha dificuldade é me encontrar no
mercado, pois queria ensinar japonês". Voltar ao Japão não faz parte dos
planos de Terumi: "Mesmo
que ganhe pouco, é melhor ficar aqui".
Recolocação
|
|
Edson Katayama: “No
Brasil, os imigrantes japoneses se tornaram brasileiros.
No Japão, eles nunca serão cidadãos
japoneses"
|
Terumi, Sérgio e Jorge atualmente
fazem o curso Tadaimá, no Instituto de
Promoção
Humana Grupo Nikkei, uma organização não-governamental de apoio a descendentes
de japoneses que estão em busca de recolocação profissional. Segundo a
diretora-presidente, Leda Reiko Nakabayashi Shimabukuro, o grupo existe
desde 1989 e, neste período,
atendeu a mais de onze mil pessoas, 30% delas ex-dekasseguis: "Já recolocamos
1.500 pessoas. Por conta de uma quantidade expressiva de dekasseguis que
retornaram, criamos o grupo Tadaimá que, em português, significa Cheguei".
O
coordenador do curso, o consultor Renato Shiguero Botuem, disse que o fenômeno
de retorno dos dekasseguis se intensificou há oito anos e o objetivo é orientá-los
sobre como ingressar no mercado de trabalho: "É um trabalho de estruturação
que envolve aspectos psicológicos e de empreendedorismo". No grupo de cerca
de vinte pessoas que participam do Tadaimá, Botuem ensina sobre como devem
se comportar em uma entrevista de trabalho e até como fazer um currículo: "Na
essência, os ex-dekasseguis
querem encontrar uma forma de renda, já que voltam com pé-de-meia do Japão
e precisam manter. O problema é que eles voltam muito perdidos".
|