ARQUITETURA
PARA DIALOGAR COM O PASSADO E DEFINIR O FUTURO
Duas reformas estão
em andamento na Liberdade: uma para devolver ao bairro suas
características orientais. Outra, para realizar um
sonho de Manabu Mabe: museu para a arte dos nipo-brasileiros
e orientais
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Quase um século após
a chegada dos pioneiros na Liberdade, brasileiros, descendentes
de japoneses, além dos novos imigrantes chineses e
coreanos que vivem atualmente no bairro central, se unem
para transformá-lo em um ponto turístico de
grande importância na cidade. O objetivo comum é tornar
a Liberdade um bairro com tudo novo: calçadas, fachadas
comerciais e até com os famosos toris trocados. As
obras do projeto de reurbanização do bairro
começaram neste mês e se juntam a outra transformação
que ocorre na Liberdade: a revitalização do
antigo colégio Campos Salles, um prédio da
década de 10, que sediará o Museu de Arte Moderna
Nipo-Brasileira Manabu Mabe (veja na página seguinte).
Os dois projetos têm como fio condutor uma arquitetura
que dialoga com o passado, para definir um novo futuro para
a Liberdade. E ambos têm tirado o sono dos moradores,
mas por uma boa causa. Nos dois extremos do bairro, na praça
da Liberdade e na rua São Joaquim, os donos da cena
por enquanto são os operários, que transformam
o visual da região, dia a dia.
CAMINHO
DO IMPERADOR
| Divulgação |
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Para o arquiteto Márcio
Lupion, a reforma da Liberdade “é um projeto
grande e não se restringe ao ano do Centenário. É para
a posteridade”
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Uma das reformas tem o objetivo
de devolver as características orientais da Liberdade,
que haviam sido suprimidas pela lei Cidade Limpa com a retirada
das placas que continham os nomes das lojas em ideogramas
(kanjis) das fachadas. Trata-se do projeto Caminho do Imperador,
do arquiteto Márcio Lupion, da Kallipolis Arquitetura.
Ao longo do ano passado, Lupion, que já foi monge,
teve uma paciência de oriental para aprovar todas as
fases do projeto junto à Prefeitura para, neste mês,
dar início às obras. Ao custo total de R$ 55
milhões, o projeto será totalmente mantido
por recursos de patrocinadores e as reformas não trarão ônus
ao comércio local. O projeto começou com o
apoio da comunidade, por meio da Associação
Cultural e Assistencial da Liberdade (ACAL), do Instituto
Victor Kobayashi e da Associação Comercial
de São Paulo (ACSP). Aos poucos, ganhou adeptos.
Um deles é o Banco Bradesco que comprou a primeira
cota de patrocínio do projeto, no valor de R$ 5,5
milhões. O dinheiro está sendo utilizado para
a execução da primeira etapa do projeto, a
reforma da praça da Liberdade, que deve ser concluída
daqui a dois meses. Segundo Lupion, a primeira fachada reformada,
nesta etapa, é a do próprio patrocinador, que
recebeu uma arquitetura inspirada no Castelo Imperial de
Osaka. Até o final desta semana, a fachada do Banco
Bradesco, na praça da Liberdade, receberá o
retoque final para ser avaliada pelo príncipe-herdeiro
do Japão, que visitará o bairro na sexta-feira,
em função das comemorações do
Centenário da Imigração Japonesa no
Brasil. “Estamos trabalhando 10 horas por dia para
isso”, disse Lupion.
De acordo com o arquiteto, as outras 14 fachadas vizinhas
ao Bradesco, na praça da Liberdade, serão reformadas
e cada uma delas receberá elementos da arquitetura
oriental do século 17, seja um telhadinho na entrada,
uma porta em madeira, ou uma lanterna com ideograma. O detalhe é que,
dependendo do proprietário da loja e do tipo de comércio,
haverá um elemento personalizado. Se o estabelecimento
for de um chinês, por exemplo, haverá características
chinesas na arquitetura da fachada. Por último, será feita
a troca do piso da praça da Liberdade, que receberá faixas
circulares na cor vermelha, que remetem à bandeira
do Sol Nascente.
Segundo Lupion, o projeto é amplo e abrange mais cinco
fases, cuja execução depende do patrocínio
de empresas: “Temos bancos interessados em participar.
Oferecemos a eles fachadas inspiradas nos templos e palácios
de Kyoto”. Ele conta que com o aval destas empresas,
as próximas etapas do projeto abrangem a reforma das
fachadas dos tradicionais restaurantes da rua Tomaz Gonzaga,
e, em seguida, do comércio da rua Galvão Bueno
(trecho entre a rua Tomaz Gonzaga e praça da Liberdade).
As duas ruas receberão novo pavimento e calçadas.
A terceira fase do projeto é dedicada à revitalização
das praças e jardins do bairro. Uma das praças
será dedicada à religião trazida pelos
orientais, o budismo. Por isso, um enorme Buda será colocado
sobre um espelho d’água e unirá as culturas
japonesa e chinesa, com um espaço de convivência.
Em um terreno subtilizado da avenida Liberdade será montado
um museu do bonsai, que também terá jardim
japonês.
A quarta fase do projeto, segundo o arquiteto, se concentrará na
parte estrutural e envolve a troca dos portais (toris) e
dos quatro viadutos do bairro. A decoração
temática de três viadutos homenageará as
culturas que convivem hoje na Liberdade: japonesa, chinesa
e coreana. A última etapa é dedicada a troca
de todo o mobiliário urbano e, assim, serão
plantados bambus ao longo das ruas, que também receberão
cabines telefônicas em arquitetura oriental. A tradicional
feirinha que ocorre todos os domingos também promete
mudar, com barraquinhas em estilo japonês e vendedores
uniformizados, por exemplo. Os nomes das empresas patrocinadoras
serão inseridos em totens, pedras e placas que homenagearão
as famílias que vieram a bordo do Kasato Maru. “O
plano é captar os recursos para as demais fases em
quatro meses. Com a verba, as obras de cada uma das etapas
do projeto deverão durar três meses. É um
projeto grande e não se restringe ao ano do Centenário. É para
a posteridade”, explicou Lupion.
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