Error processing SSI file
 

E chega essa gente amável, mas tão iludida e maltratada

Diário de Bordo do Kasato Maru

Os fugitivos das fazendas se encontram na Liberdade
A cultura e tradição preservadas
Arquitetura para dialogar com o passado e definir o futuro
Caminho do imperador
A missão de Yugo Mabe
"Japa" aqui, estrangeiro lá. Vida difícil esta de dekassegui
Miyahira é um exemplo de sucesso. Caso raro
O issei Yamamoto desenhou todas as emoções de sua aventura
Enzo, o primeiro rokussei, solta o seu grito de ninja
Educação é o nome do milagre desta superpotência

 

OS FUGITIVOS DAS FAZENDAS SE ENCONTRAM NA LIBERDADE

O Baixo Glicério foi o lugar escolhido no início pelos imigrantes que fugiam do regime de semi-escravidão das fazendas. Assim a Liberdade se tornou o bairro dos japoneses, com lojas, restaurantes e suas festas típicas

O bairro da Liberdade, na região central de São Paulo, é conhecido como bairro japonês, mas agora também há coreanos, chineses, vietnamitas e outras etnias. Com a lei Cidade Limpa, houve uma descaracterização do bairro, principalmente das fachadas das lojas, mas há projetos que prometem a revitalização do bairro ao estilo oriental.

Os primeiros japoneses começaram a chegar à Liberdade após 1910, com a fuga de alguns imigrantes das fazendas de café, nas quais viviam em situação de semi-escravidão. Eles procuravam um local próximo ao centro da cidade, pois ali seria mais fácil conseguir empregos ou ter condução para ir ao trabalho. Encontraram a rua Conde de Sarzedas, uma ladeira íngreme, que terminava num pequeno riacho. “Ali era o Baixo Glicério, que ficava ao lado de um brejo, um lugar onde poucos queriam morar. A maioria das casas tinha porão e, por causa da região, os aluguéis eram muito baratos”, comenta a socióloga Célia Sakurai.

Newton Santos/Hype
A festa de julho, Tanabata Matsuri - Festival das Estrelas: as principais ruas
da Liberdade ficam enfeitadas com
bambu e papel

Além dos fugitivos, Sakurai diz que alguns imigrantes, talvez desconfiados do futuro que lhes aguardava nas fazendas, deram um jeito de escapar assim que chegaram à Hospedaria de Imigrantes: “Eles foram os primeiros a se fixarem no Baixo Glicério, e como um vai chamando o outro, formou-se uma rede social”.

Com muito trabalho esses japoneses começaram a prosperar e iniciaram suas atividades comerciais: “Começaram a surgir hospedarias ou pensões que serviam comida japonesa. Imigrantes que vinham para São Paulo, para ir ao médico ou fazer algum negócio, se hospedavam ali”. Também foram abertos empórios, uma fábrica caseira de tofu (queijo de soja), manju (doce japonês com recheio de feijão azuki) e outros negócios.

Em 1932, a colônia japonesa em São Paulo já chegava a duas mil pessoas, muitos vindo do campo após encerrarem os contratos de trabalho e outros diretamente do Japão. A rua Conde de Sarzedas era o principal ponto de aglutinação, com cerca de 600 moradores nipônicos, muitos outros moravam em ruas próximas, como Irmã Simpliciana, Tabatinguera, Conde do Pinhal, Conselheiro Furtado, dos Estudantes, Tomás de Lima (hoje Mituto Mizumoto), onde foi fundado em 1914 o Hotel Ueji, o primeiro hotel aberto por japoneses em São Paulo.

Em 12 de outubro de 1946 foi criado o jornal São Paulo Shimbun, o primeiro no pós-guerra voltados para os nikkeis (japoneses e descendentes que vivem fora do Japão). Em 1º de janeiro de 1947 chegou o concorrente Jornal Paulista - ambos existem até hoje.

Com a inauguração do Cine Niterói em 1953, a rua Galvão Bueno passou a ser o centro da Liberdade, atraindo vários comerciantes, já que o movimento aumentou na região. Em abril de 1964 foi inaugurado o prédio da Associação Cultural Japonesa de São Paulo (Bunkyô) na esquina das ruas São Joaquim e Galvão Bueno.

Em 1965 foi fundada a Associação de Confraternização dos Lojistas do Bairro da Liberdade, precursora da Associação Cultural e Assistencial da Liberdade - ACAL, sob a presidência de Yoshikazu Tanaka, para defender os interesses do bairro perante as autoridades municipais e estaduais.

Grandes mudanças ocorreram no bairro em 1968. O Cine Niterói, marco inicial da prosperidade do bairro, foi obrigado a se mudar para a avenida Liberdade com a rua Barão de Iguape. A rua Conselheiro Furtado foi alargada, diminuindo a força comercial do local. Além disso, com a construção da estação Liberdade do Metrô, na década de 70, alguns pontos comerciais das ruas Galvão Bueno e na avenida Liberdade foram fechados.

Além de lojas e restaurantes japoneses, o bairro passou a oferecer outros atrativos. Todos os domingos, barracas de comidas típicas são armadas na praça da Liberdade, que é utilizada como palco para manifestações culturais. São realizadas várias festas folclóricas, entre elas:

Abril - Hanamatsuri - Festival das Flores, em conjunto com a Federação das Seitas Budistas. O desfile do grande elefante branco carregando o pequeno Buda ocorre no sábado.

Julho - Tanabata Matsuri - Festival das Estrelas, em conjunto com a Associação Miyagui Kenjinkai. As principais ruas do bairro são enfeitadas com bambu e grandes enfeites de papel simbolizando as estrelas. Os visitantes colocam um pedaço de papel com pedidos.

Dezembro - Moti Tsuki - Festival de Final do Ano. O arroz é socado em pilão para a confecção do moti (bolinhos de arroz), distribuído aos presentes para dar sorte. Sempre no dia 31 de dezembro. (CO)

A CULTURA E A TRADIÇÃO PRESERVADAS

Cerimônia do chá - Chanoyu, em japonês, a cerimônia do chá é um dos mais tradicionais costumes japoneses e não se restringe apenas a saborear a bebida mais apreciada pelos orientais. Segundo o Guia da Cultura Japonesa (JBC Editora), o ato de tomar chá envolve seis elementos, ligados entre si, e são de natureza religiosa, filosófica, ética, artística, ascética e social. Juntos, eles formam o espírito wa-kei-sei-jaku que significa harmonia, respeito, pureza e tranqüilidade. Na cerimônia do chá, é preciso seguir normas do temae que significa um conjunto de ações com o objetivo agradar o convidado. Do início ao fim, tanto o anfitrião como o convidado devem se entrosar e desfrutar do momento. Por isso, o anfitrião deve ser hábil em adornar o lugar do chá, e escolher a disposição dos utensílios, muitas vezes preparados por ele próprio. O temae também inclui a construção do recinto do chá, de um jardim de passagem e decoração.

Ikebana - De oferenda aos deuses a uma criação artística. Assim é a história da técnica de arranjo floral Ikebana. Até o século 14, as flores eram arranjadas em pé para adornar altares budistas. Depois, deixou o cunho religioso e incorporou a estética, segundo o Guia da Cultura Japonesa (JBC Editora). O Rikka é o fundamento da Ikebana, que consiste em colocar os galhos em posição vertical para recriar o conjunto da paisagem. Muitos estilos foram criados desde então. Um deles é o Moribana, em português, flores empilhadas. Outro é o Shokka, que tem uma forma preestabelecida, composta por três elementos, que devem formar um triângulo: o shin (galho), soe (que apóia o shin) e o tai (que harmoniza o shin e o soe). Respectivamente, esses elementos simbolizam o homem, o céu e a terra. A partir de 1900, a forma tradicional tem dado espaço para criações artísticas de Ikebana.

Shodou - É arte da caligrafia japonesa, composta por traços e pontos que são escritos com o pincel no papel do tipo washi, com a tinta sumi (feita de carvão). As regras do shodou são a utilização dos ideogramas japoneses (kanjis), que devem ser escritos em apenas uma pincelada, sem retoques. Um desafio, que chega à categoria de arte. Segundo o Guia da Cultura Japonesa (JBC Editora), há diversos estilos de kanjis utilizados na escrita Sho, tais como: tensho (221 a.C.), reisho (202 a.C. a 220 a.C.), kaisho (século 3), gyousho (escrita semicursiva, século 3) e sousho (escrita cursiva, século 2 a.c.)

Aikidô - Luta defensiva, que também consiste em um exercício espiritual. No aikidô, não há objetivo de vencer oponente, e a técnica consiste em derrubar e agarrar para se proteger de um ataque, na qual a força do corpo é concentrada na barriga, abaixo do umbigo. Segundo o Guia da Cultura Japonesa (JBC Editora), a arte marcial surgiu em 1883, com o mestre Morihei Ueshiba e hoje é muito utilizada por mulheres, como defesa pessoal.

Taikô - Os tambores japoneses cobertos com pele de boi estão presentes na música japonesa há cerca de 1,5 mil anos, de acordo com o Guia da Cultura Japonesa (JBC Editora). Há quem compare o som do taikô com a batida do coração, mas historicamente o instrumento era um símbolo da comunidade rural e servia até para delimitar geograficamente as aldeias. Diziam que o limite de uma aldeia era medido pela distância em que a batida do tambor era audível. No final do século 14, o taikô foi incorporado às apresentações de teatro Nô e esteve ligado a festas xintoístas. Depois da Segunda Guerra Mundial, o instrumento passou a ser tocado apenas para apresentações artísticas e, assim, se difundiu tanto no Japão como no mundo.

Religiões - O Brasil é um dos países com mais grupos religiosos japoneses fora do Japão. O xintoísmo é uma religião ligada à natureza e a ritos de fertilidade. Segundo o Guia da Cultura Japonesa (JBC Editora), há em torno de 60 grupos xintoístas, budistas e outros. Há confrarias religiosas e grupos ético-morais não organizados como religiões, além daquelas cristãs que possuem um trabalho específico para a comunidade japonesa no Brasil. Muitos grupos incorporam ainda os elementos xintoístas com outros do universo das religiões católica, espírita e umbanda. (RT)

 


 

© Copyright 2008 - Diário do Comércio - Todos os direitos reservados