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E chega essa gente amável, mas tão iludida e maltratada

Diário de Bordo do Kasato Maru

Os fugitivos das fazendas se encontram na Liberdade
A cultura e tradição preservadas
Arquitetura para dialogar com o passado e definir o futuro
Caminho do imperador
A missão de Yugo Mabe
"Japa" aqui, estrangeiro lá. Vida difícil esta de dekassegui
Miyahira é um exemplo de sucesso. Caso raro
O issei Yamamoto desenhou todas as emoções de sua aventura
Enzo, o primeiro rokussei, solta o seu grito de ninja
Educação é o nome do milagre desta superpotência

 

kasato maru (diário de bordo)
Rejane Tamoto

Ryo Mizuno, presidente da Companhia Imperial de Emigração Japonesa, responsável por trazer os pioneiros ao Brasil, escreveu
este diário rico em detalhes. Ele quase foi morto no navio por “um japonês bagunceiro”, além de acusado de propaganda enganosa

“18 de junho, quinta-feira, céu límpido. Atracamos no porto de Santos às nove horas da manhã de hoje. O vau da embarcação já estava devidamente posicionado às cinco da tarde. 220 milhas. Total percorrido: 12 mil milhas”. A descrição mostra a riqueza de detalhes da viagem feita pelo primeiro navio que trouxe os imigrantes japoneses ao Brasil, o Kasato Maru, e foi escrita em 1908 por um importante personagem desta história: Ryo Mizuno, o presidente da Companhia Imperial de Emigração Japonesa, responsável por trazer os pioneiros ao Brasil. O diário de 56 páginas começou a ser escrito no dia 28 de abril, dia em que o Kasato Maru deixou o porto de Kobe, e terminou três meses depois, com a chegada ao Brasil. Atualmente, o documento centenário encontra-se no Museu Histórico Regional Saburo Yamanaka, em Bastos, em uma caixa com ph neutro e não pode mais ser manuseado, para manter-se conservado. Por isso, as páginas foram digitalizadas pela universidade Rikkyou de Tóquio, no Japão. As páginas publicadas pelo Diário do Comércio foram cedidas pelo Museu e são referentes a anotações feitas nos dias 29 de abril e 2 de maio, e entre 18 e 22 de junho. A tradução delas foi feita por Kenji Matsuzaka, da Comissão Ashiato (em português, rastros), da Associação para a Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Segundo Matsuzaka, o diário pode ser lido, na íntegra, em idioma japonês, no livro Kasato Maru, publicado em 1958.

As primeiras anotações de Mizuno detalham aspectos do clima, latitude, longitude e milhas percorridas pelo navio. Segundo Regina Mizuno, 33 anos, esposa do filho caçula de Ryo Mizuno, uma das histórias que ele contava a respeito da primeira viagem dos imigrantes era sobre o desconforto sofrido pelos imigrantes pela demora em chegar ao Brasil - a viagem que deveria ser feita em pouco mais de 40 dias demorou 52 dias - o que quase lhe custou a própria vida: “Ele contava que o navio tinha de parar mais vezes do que o programado por problemas causados pelas forças da natureza. Por isso, ele anotou detalhes sobre o clima, temperatura e milhas percorridas. Um japonês bagunceiro resolveu instigar os demais imigrantes com um boato de que a viagem era um fato furado e que o navio não chegaria ao Brasil. Esta pessoa tentou matar Ryo Mizuno, mas um guarda entrou na frente e levou uma facada. Depois, foi socorrido em Santos, mas não resistiu”. Para evitar uma rebelião, Mizuno teria dito a todos os imigrantes que, caso o navio não chegasse ao destino combinado, ele cometeria um harakiri (suicídio). “Graças a Deus o navio chegou”, comenta Regina.

Nas últimas páginas do diário, Mizuno escreve sobre os imigrantes como neste trecho, em 19 de junho, um dia após a chegada ao Brasil: “Os imigrantes se levantaram às três e meia da manhã, fizeram uma refeição as cinco e as sete começaram a descer para o porto. Não houve tumulto, nem gente enfermiça entre os que rumavam para a Hospedaria.” Nas anotações referentes ao mesmo dia, o presidente da Companhia de Emigração cita a presença do intérprete Arajiro Miura, que havia chegado ao Brasil dois anos antes, quando assumiu o cargo de ministro-residente da Legação Japonesa no Brasil. O chefe da Legação, à época, era o ministro-residente Sadazuchi Uchida, também citado no diário. Outro personagem importante na recepção aos imigrantes, mencionado por Mizuno no dia 19 de junho, foi Takeo Goto, que também havia chegado ao Brasil em julho de 1906. Junto com outros jovens, Goto participou da abertura de um dos primeiros estabelecimentos comerciais de São Paulo, chamado Casas Fujisaki, loja cujo slogan era “O Japão em São Paulo”. Os homens ligados à loja de fogos de artifício, também citados no diário, eram Manjiro Mihara, (filho de Mizuno), Shinzo Kashiwagi e Uichi Matsuda (secretário pessoal de Mizuno), todos passageiros do navio Kasato Maru. Segundo o tradutor Matsuzaka, outros personagens citados nos trechos do diário são Bento Bueno, que era o diretor da Sociedade Imigratória de São Paulo e Carlos Botelho, que era Secretário de Agricultura. No dia 21 de junho, o intendente naval era Kenzo Fuse e o chefe de máquinas, Tatsumi Iijima.

Polêmica

A figura de Ryo Mizuno já causou muita polêmica entre os imigrantes pioneiros. Muitos atribuíram a ele a culpa pela propaganda enganosa de que no Brasil era possível colher ouro dos cafeeiros. “A idéia de que foram enganados por ele, que era chefe da companhia de emigração, perdurou entre os imigrantes de até terceira geração”, conta Regina: “Ele dizia que a propaganda enganosa era do governo e que, um dia, o Japão pagaria um preço caro por isso. No final, a culpa recaiu sobre Mizuno, que morreu na miséria e com fama de desonesto”.

Segundo o filho caçula de Ryo Mizuno, Ryo Saburu Mizuno, de 77 anos, o pai escrevia todos os dias e houve muitos diários - alguns jogados no lixo pelas esposas brasileiras dos netos de Mizuno, filhos do irmão mais velho, já falecido: “Meu pai só pensava nos imigrantes e era um idealista. Ele viajou ao Japão para buscar recursos para montar a colônia japonesa Alvorada em Ponta Grossa, no Paraná, em 1941, e ficou retido no país por causa da Segunda Guerra. Minha mãe sofreu muito, porque já estava morando no Brasil. Meu pai só conseguiu voltar ao Brasil em 1950 e, um ano depois, morreu, aos 83 anos”. O presidente da Companhia Imperial de Emigração fez 13 viagens oficiais entre Brasil e Japão. Em uma delas, em 1924, trouxe a esposa, Maki Mizuno, que não queria mais viver em Tóquio por causa dos terremotos. “Mas ela sofreu muito entre os imigrantes, que falavam mal de Mizuno. Ela pedia desculpas e não contava ao marido, em respeito a ele”, explica Regina.


 

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