Quando as pesquisas de cultura popular de Mário de Andrade foram dar no Recife, o recatado intelectual acabou caindo no frevo “até fugir num último esbafo, pedindo a bênção pra cachorro e chamando gato de tio”, em suas próprias palavras. Tanto entusiasmo se devia à vibração do ritmo pernambucano, mas também ao fato de Mário reconhecer nele uma das manifestações genuinamente nacionais que deviam ser preservadas para a eternidade.

A idéia ficou no ar e vingou no ano passado, quando, comemorando os 100 anos do frevo (contados a partir da primeira citação na imprensa), o Iphan tombou-o como patrimônio imaterial brasileiro. Agora, um ano depois, a celebração continua com o lançamento do livro Frevo: 100 Anos de Folia, organizado por Camilo Cassoli, Luiz Augusto Falcão e Rodrigo Aguiar. É uma obra que não se destaca pela apresentação histórica – lacunar e com certo ar de “chapa branca” por seus elogios à administração do atual prefeito João Paulo Lima e Silva –, mas interessantíssima na iconografia, trazendo belas fotos e ilustrações, ou nos textos recolhidos de artistas e intelectuais que se detiveram no frevo, tais como Gilberto Freyre, Antônio Maria, Caetano Veloso e, claro, Mário de Andrade.

Um deles, por exemplo, assinado pelo teatrólogo, músico e jornalista Valdemar de Oliveira, traduz sua sublime simbiose de música e dança: “O ‘achado’ na pauta musical repercute nos pés do dançarino, plasmando uma nova forma ou modulação coreográfica; ou a idéia de um novo passo sugere uma novidade qualquer na estruturação da música”. É uma verdade tão profunda, que está na própria origem do frevo, na segunda metade do século XIX, quando o ritmo das marchas militares começou a assimilar a saborosa ginga dos capoeiristas, os “valentões”, que faziam a segurança das bandas recifenses.

Outro trecho que vale o livro é do folclorista Câmara Cascudo: “A primeira coisa que caracteriza o frevo é ser, não uma dança coletiva, de um grupo, um cordão, um cortejo, mas da multidão mesma, a que aderem todos que o ouvem, como se por todos passasse uma corrente eletrizante”. Puro carnaval do Recife!

 
 
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