Decifrando Duchamp
Foto: Arquivo MMJ
Sem título, de Geraldo de Barros: imagens da Estação da Luz.
 

Marcel Duchamp, jogando com as peças brancas, aplica xeque na arte. Ameaça a realeza dos padrões estabelecidos, questiona aquilo que é feito apenas para agradar aos olhos. Propõe o conceito como principal valor do objeto artístico. Cerebral, entusiasta do xadrez, ele estudava o jogo, foi filiado a clubes e disputou torneios.

O Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, para comemorar 60 anos de idade, traz duas mostras à cidade que perfazem um panorama da obra desse artista/enxadrista, além de jogar luz sobre trabalhos de alguns brasileiros que ele influenciou. Marcel Duchamp: Uma obra que não é uma obra "de arte", com curadoria de Elena Filipovic, exibe 120 peças que exemplificam suas diversas fases e facetas. É a exposição mais completa já vista na América do Sul do trabalho do franco-americano. E Duchamp-me explora obras brasileiras inspiradas em Duchamp.

Fotos: Divulgação

Urinol de porcelana ao contrário, chamado pelo artista de Fonte,
de 1917: a arte de pinçar um objeto do dia-a-dia e expô-lo em outro contexto.

Ele viveu de 1887 a 1968, nasceu na França, mas ficou conhecido depois de mudar-se para os Estados Unidos e começar a fazer, aos 25 anos de idade, seus ready-mades, a arte de pinçar um objeto do dia-a-dia e expô-lo em um contexto diferente, como a famosa roda de bicicleta sobre um banquinho ou o urinol invertido chamado de Fonte, que por sua conotação chegou a ser recusado por diversas galerias; além do emblemático O Grande Vidro, que incorpora desenhos de máquinas, roldanas, tudo dentro de uma vitrine.

Entre as mais polêmicas criações do artista está L.H.O.O.Q. – sigla cuja tradução da expressão francesa significa "Ela tem fogo no rabo". O título, nesse caso, é que o que mais chama a atenção, já que se trata de uma interferência inconoclasta sobre uma obra de arte consagrada. Realizada em 1919 (há 38 réplicas), Duchamp pintou sutis bigodes e barba sobre uma reprodução do quadro Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci, e esperou crítica e público se escandalizarem com
sua travessura.

Fotos: DivulgaçãoDuchamp também desenvolveu experimentos óticos, alguns trazidos para a exibição, como o intricado Étant Donnés, que deixa entrever uma mulher nua, de pernas abertas. Uns levaram a sério, outros o consideravam dono de um humor irônico e preguiçoso, já que não passava os dias em seu ateliê pintando quadros ou esculpindo, para surgir meses depois com algum objeto bizarro, apresentando-o como mais um ready-made.

Talvez o artista fizesse arte como quem joga xadrez: calculando cada movimento e tentando prever a reação do oponente, no caso a sociedade que primeiro rejeitou seu trabalho, para depois render-se e cultuá-lo como um dos mais importantes artistas do século XX. Xeque-mate de Duchamp.


Duchamp-me!
 
Selecionadas por Felipe Chaimovich (curador do MAM), estão reunidas na sala Paulo Figueiredo 40 obras do acervo do museu em Duchamp-me. "Quem visitar a exposição vai se deparar com obras inusitadas, porque Duchamp quebrava preconceitos", disse Chaimovich, em entrevista ao Diário do Comércio. "As questões levantadas por ele são pertinentes até hoje."

Segundo o curador, foram usados dois critérios para determinar a escolha de trabalhos que participariam dessa parte da mostra. O primeiro, baseado na carta escrita por Marcel Duchamp para Ciccillo Maratazzo nos anos de 1960, quando o francês, morando em Nova York, faria a curadoria de uma exposição no próprio MAM, que acabou não acontecendo em razão de uma mal-explicada fuga de um funcionário com o dinheiro que seria destinado ao pagamento pelo transporte das obras dos Estados Unidos para o Brasil.

O documento, que pode ser visto agora, manifestava as diretrizes daquilo que o francês escolheria para exibir.

Fotos: Divulgação
À direita, Principia, de Vik Muniz:
influências e experimentos.

Como segundo critério, Chaimoivich buscou trabalhos que interpretassem os experimentos de ótica desenvolvidos por Duchamp. Um dos destaques nessa área é A Vista, realizada por Cássio Vasconcellos em 2002. A obra retrata uma paisagem da capital paulista formada por 67 fotografias penduradas em um eixo, de maneira a desobedecesr a perspectiva tradicional, sem qualquer simetria ou alinhamento.

Outra obra que clama para si as atenções é Principia, feita por Vik Muniz entre 1997 e 2002, que cria a ilusão de tridimensionalidade em uma fotografia, brincando de ser um antigo aparelho estereoscópico. E nas imagens captadas por Geraldo de Barros (1923-1998), esquadrias da Estação da Luz são sobrepostas, gerando também uma ilusão de ótica.

Há ainda os desenhos de Anatol Wladyslaw (1913-2004), polonês radicado em São Paulo, e Rafael França (1957-1991), alguns nunca antes exibidos ao público. "Procuramos dispor as obras de maneira didática, para que o visitante compreenda a trajetória de Duchamp e como ele influenciou outros artistas", explica o curador. (LHC)

 
Fotos: Divulgação
Planos de Viagem, de Albano Afonso (1998)
 
Marcel Duchamp: uma obra que não é uma obra "de arte" e Duchamp-me - Museu de Arte Moderna, Parque do Ibirapuera, portão 3, Av. Pedro Álvares Cabral s/nº, tel.: 5085-1300. Terça a domingo, das 10h às 18h. Ingresso: R$ 5,50. Até 21 de setembro.
Fotos: Divulgação
Fotos: Divulgação

Marcel Duchamp em 1959: enxadrista entusiasmado, talvez fizesse arte como quem põe a sociedade em xeque. Na polêmica L.H.O.O.Q., bigodes e barba sobre a Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci: travessura do francês.

Fotos: Divulgação

Why Not Sneeze Rose Sélavy?, de 1921:
um semi ready made com um termômetro e 152 cubos
de mármore dentro de uma gaiola.
 
Fotos: Divulgação

Sem título, de Geraldo de Barros:
imagens da Estação da Luz.

PerformanCes,
happenings, colagens.

No palco, as desconstruções de Duchamp,
precursor das instalações.

A influência de Marcel Duchamp nos rumos do teatro do século XX pode não ter provocado o mesmo rebuliço que causou no terreno das artes plásticas, mas está longe, muito longe, de ser desprezível.

Direta ou indiretamente, a ousadia de Duchamp, que conferiu status de obras-primas a urinóis e rodas de bicicleta, encontrou eco no trabalho de alguns dos principais encenadores do que se convencionou chamar de teatro contemporâneo, entre eles o polonês Tadeusz Kantor, o americano Bob Wilson e o brasileiro Gerald Thomas. Ainda que parasse por aí, já seria muito, mas Duchamp ainda ajudou a definir, ele próprio ou por meio de seus herdeiros artísticos, alguns conceitos hoje indissoluvelmente ligados ao palco, como as performances, os happenings e as colagens – a sobreposição de várias linguagens em cima de um mesmo gênero.

Fotos: Divulgação
Gerald Thomas: diretor polêmico e anarquista. Adepto de Duchamp,
até nos cenários.

Kantor, que ganhou reconhecimento mundial após as montagens antológicas de O Retorno de Ulisses e A Classe Morta, declarou textualmente que o movimento dadaísta foi o ponto de partida dos seus trabalhos e que ele teve em Marcel Duchamp “o seu pai espiritual”. Criado na Suíça em 1916, o dadaísmo tinha como principais premissas a valorização do ilógico e do absurdo e a denúncia contra as arbitrariedades das guerras.

Um dos símbolos máximos do dadaísmo eram os famosos ready-mades, entre eles a roda de bicicleta e o porta-garrafas, que Duchamp havia produzido três anos antes em seu ateliê de Paris.

Em suas montagens, Kantor recorreu inúmeras vezes ao uso dos ready-made como forma de resgatar de maneira artística a memória de objetos que tinham pouco a ver com os palcos.

Em entrevista à revista online Agulha, Gerald Thomas também admitiu a influência de Duchamp em sua concepção cênica. “Nem sempre o teatro influencia o teatro”, disse o diretor. “O pintor Francis Bacon tem muito mais a ver comigo e com o meu teatro, do mesmo modo que Marcel Duchamp também tem”.

E Thomas nunca fez questão de esconder esta afinidade com o gênio francês no palco. “Para compor alguns dos seus cenários, Gerald Thomas usou várias vezes as famosas rodas de bicicleta de Duchamp”, diz o ex-crítico teatral Alberto Guzik. “As marcas de Duchamp também foram muito presentes nas encenações feitas pelo americano Bob Wilson ao longo dos anos 80”, completa.

Após o encerramento das temporadas de seus espetáculos, Bob Wilson cultivava o hábito de expor em galerias vários dos objetos usados na cena, como pinturas, adereços e desenhos. Assim, fora do contexto para o qual foram criados, tais objetos cotidianos, convertidos automaticamente em obras de arte, serviam sobretudo para atestar a irreverência e a genialidade de Duchamp.


Fotos: Divulgação
Uma Vista, de Cássio Vasconcellos: transgressão e falta de simetria.
 
 
© Copyright 2008 Diário do Comércio - Todos os direitos reservados