Yoshito Ohno não é Mick Jagger, Bono ou Madonna. Mas a simples menção de sua visita à cidade fez com que todos os ingressos disponíveis para suas duas únicas apresentações por aqui fossem vendidos em questão de poucas horas.

Foto: Arquivo DCMas o que haveria de tão excepcional na figura deste senhor japonês de gestos longos e calculados, que se apresenta mudo e com a cabeça raspada, com uma maquiagem branca a lhe cobrir o rosto e trajes coloridos que remetem a figuras mitológicas de dragões e aves raras? Duas pistas podem contribuir para que se encontre esta resposta. A primeira diz respeito ao DNA: Yoshito (à dir.) é o único filho do lendário Kazuo Ohno, o grande mestre do butô japonês que, aos 101 anos, continua atuante no Japão, ainda que o Alzheimer comprometa cada vez mais sua memória e seus movimentos. Em segundo lugar, porque na arte e no corpo de Yoshito as revolucionárias técnicas desenvolvidas por seu pai sobrevivem e ainda provocam um encantamento sem precedentes nas platéias mundiais. Yoshito se apresenta neste sábado (15), e domingo (16), no nono andar do Sesc Avenida Paulista, dentro do gigantesco evento Tokyogaqui, que durante pouco mais de um mês vai fazer de São Paulo uma filial de tudo aquilo que de mais tradicional e high-tech o Japão tem hoje a oferecer. O próprio nome do evento, organizado para comemorar os cem anos da imigração japonesa, pretende dar a dimensão do que está à espera do visitante: Tokyogaqui pode ser traduzido como "a imagem de Tóquio aqui na cidade".

O nono andar do prédio do Sesc Paulista, dedicado inteiramente ao butô, transcende sua importância iconográfica para se converter, ainda que de maneira sutil, em um ritual de passagem para o público: o piso ganhou uma superfície irregular, o que obriga o visitante a caminhar lentamente e de maneira muito cuidadosa, num ambiente em que a iluminação artificial deu lugar a um interessante jogo de sombras. "Foi a maneira que encontramos para introduzir o público no universo do butô", diz uma das curadoras do evento, a professora Christine Greiner, autora do livro Butô, Pensamento em Evolução, da editora Escritura (já esgotado). "Convidar o público a caminhar no escuro faz parte de uma proposta sensorial para que todos entendam que o butô representa, principalmente, a discussão do corpo em crise e não o corpo idealizado. É uma dança que se alimenta dos limites entre a vida e a morte, o butô soube abandonar o padrão do movimento convencional para mergulhar no trabalho sensorial".

Yoshito Ohno vai mostrar o solo Kuu (Vazio), de 50 minutos, que lança mão de imagens e músicas utilizadas nas performances do seu pai para demonstrar o que o butô tem de mais tradicional.
 
Foto: Divulgação
O grupo japonês Condors tem todo jeito de clube do bolinha na era da balada. Criado há 12 anos e integrado só por rapazes, é saúde pura ao fazer coreografias que misturam aeróbica e pastelão. O resultado, até agora, tem sido magnífico: por onde passa deixa platléias eletrizadas. Sob a direção de Ryohei Kondo, que parece inspirar-se nas lições de Bob Fosse, os 11 dançarinos do Condors exibem-se em São Paulo com o espetáculo Júpiter - Conquista da Galáxia. Prepare-se: você vai assistir a evoluções turbinadas pela cultura pop e por frenético score roqueiro.

Teatro Sérgio Cardoso - Sala Sérgio Cardoso.
Rua Rui Barbosa, 153. Tel.: 3288-0136.
Sexta (14), 21h30; sábado (15), 21h; domingo (16), 18h. R$ 20.

 

Foto: Arquivo DC

A presença de Yoshito Ohno (seja dançando ou em seu bate-papo com o público) é, de longe, a parte mais cintilante da programação do Tokyogaqui destinada ao butô, mas está longe de ser a única. A grande ambientação que ocupa o nono andar do prédio, chamada de Ohno 101 + Kusuno (em homenagem a Takao Kusuno, coreógrafo e artista plástico que fez parte da vanguarda da dança japonesa e colaborou com Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno (acima) na criação do butô para, mais tarde, introduzir a dança no Brasil) ainda compreende uma curiosa mostra de fotos, vídeos e objetos pessoais de Kazuo Ohno, que já foi vista em Tóquio, Bolonha e Nova York. Outros dois espetáculos ocuparão o mesmo espaço utilizado por Yoshito.

O primeiro deles é Metal Red Woman, da bailarina Mitsuyo Uesugi, uma das principais assistentes de Kazuo Ohno no Japão e figura obrigatória em todas as performances que o mestre realizou ao redor do mundo nos anos de 1970. Seu solo, como era de se esperar, também foi concebido como uma grande homenagem a Ohno.

O outro trabalho é Death Poem, com os bailarinos Eiko e Koma, tidos hoje como os mais dignos representantes da dança japonesa em solo americano. "A dança destes bailarinos geniais, os objetos da exposição e as frases indicativas impressas nas paredes do nono andar vão servir como pistas para que o público faça uma imersão no butô", diz Christine Greiner. "Tudo isso deixaria Kazuo Ohno muito feliz, já que ele reserva um carinho imenso pelo Brasil. Quando ele esteve aqui, em 1986, revelou que não se lembrava de um lugar no mundo em que houvesse tantas filas para ver o seu trabalho. (SR)
 
Tokyogaqui, evento em comemoração aos cem anos da imigração japonesa, com abertura neste sábado, 15, no Sesc Avenida Paulista, Avenida Paulista, 119, tel.: 3179-3700. Terça a domingo das 13h às 21h. Com exceção dos espetáculos de dança, com ingressos a R$ 20, as demais atrações são gratuitas.

Foto: Gil Grossi
A bailarina Letícia Sekito faz o espetáculo O Japão Está Aqui?,
inspirado no Sokushin koyu hô (respiração pela sola dos pés).

Dias 22 e 23 de março, no Quinto Andar.
 
 
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