São Paulo, 06 de Dezembro de 2016

/ Tecnologia

O futuro pode dar certo. Só que depende de nós
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Em um livro ainda inédito no Brasil, uma dupla de consultores e futuristas reflete sobre as fabulosas inovações que o avanço tecnológico trará. Mas serão sustentáveis?

Uma crítica persistente à indústria da tecnologia é que ela não funciona mais para grandes ideias. Dizem os críticos que apesar de toda a conversa do Vale do Silício sobre mudar o mundo, Google e Facebook se dedicam, sobretudo, a contratar exércitos de codificadores para que descubram como abastecer o usuário com anúncios mais interessantes, enquanto Apple e Amazon querem apenas vender coisas novas para ele.

São opiniões contundentes, mas que deixam bem claro a decepção com uma indústria cujas inovações recentes não parecem ter resultado em uma vida visivelmente mais próspera para a maior parte dos americanos. Sim, o telefone que você tem hoje é mais potente do que o aparelho que você usava dez anos atrás. Contudo, se o seu salário não aumentou e seu emprego está em risco justamente por causa das tecnologias daquele telefone, o que há para comemorar?

Matt Rogers e Stefan Heck dizem que há motivo, sim, para comemoração. Rogers e Heck são consultores especializados em gestão e há tempos estudam de que maneira a tecnologia afeta os negócios. Em um livro novo e instigante, eles fazem uma defesa extremamente otimista da indústria da tecnologia. Eles dizem que ela pode melhorar substancialmente boa parte da nossa vida.

Se você está decepcionado com o mundo, o antídoto está no livro Resource Revolution: How to Capture the Biggest Business Opportunity in a Century  ["A revolução dos recursos: como agarrar a maior oportunidade de negócios do século"]. Rogers e Heck discorrem a respeito de vários avanços que estão surgindo — impressão em 3D, veículos autônomos, sistemas de construção modular e automação do lar, entre outras coisas — e como eles podem, com o tempo, mudar algumas das maiores indústrias do mundo e redundar em prosperidade para bilhões de pessoas.

"Surgirão tecnologias tão fabulosas como a invenção do avião"

Os autores apresentam um argumento sólido reforçado por montanhas de dados e estudos recentes de caso. No momento em que passamos a olhar para o Vale do Silício a partir dessa perspectiva, nossa mente fica atordoada com o potencial imenso das inovações que hoje se espalham pela sociedade.

"O que ainda falta fazer é colocar a tecnologia da informação, a biotecnologia e a nanotecnologia na tecnologia industrial. No momento em que começarmos a fazê-lo, desenvolveremos tecnologias tão fabulosas quanto a invenção do avião", disse Rogers durante uma entrevista recente.

Mas, espere um pouco, ainda é cedo para tirar o passaporte para o futuro. Quando esmiuçamos os melhores prognósticos de Rogers e Heck, vemos que não faltam complicações.

Com frequência, os autores olham para o mundo de um ponto de vista neutro. Eles imaginam, conforme os otimistas estão habituados a fazer, que em face de uma mudança tecnológica radical que divida a sociedade, os consumidores, as empresas e os políticos acolherão as inovações tendo em mente a melhor perspectiva possível para o longo prazo.

Os autores negligenciam o caráter desordenado da tecnologia, inclusive a possibilidade de que as pessoas rejeitem os avanços por razões sociais ou emocionais, ou que usem a tecnologia de formas ineficientes e que ninguém podia ter adivinhado.

As previsões de Rogers e Heck para o futuro do transporte automotivo são um exemplo bem acabado disso. Rogers — consultor da McKinsey, trabalhou durante algum tempo no Departamento Federal de Energia — e Heck, ex-consultor da McKinsey que hoje leciona em Stanford, dizem que os setores da economia mais maduros para a reinvenção são aqueles que hoje são extremamente ineficientes. O transporte automotivo está bem perto do topo da lista.

Os números são desfavoráveis. Depois da moradia, o automóvel é o segundo bem mais caro adquirido pela maioria dos americanos. No entanto, muitos de nós compramos carros só para estacioná-los. Em média, um carro se desloca durante 5% apenas de sua vida. Quando usamos efetivamente o carro, muitas vezes o fazemos sozinhos. O pior é que boa parte da energia do tanque de gasolina é desperdiçada por obra de um motor a combustão interna ineficiente.

Tudo isso para não falar das estradas, que consomem trechos imensos de terra para acomodar uns poucos carros. Uma autoestrada de alta velocidade atinge sua capacidade com cerca de 2.000 veículos por pista/hora, mas apenas 10% do seu espaço físico é ocupado por carros. Se acrescentarmos a esse número mais alguns carros haverá congestionamentos, porque o ser humano não é muito bom para coordenar o andamento do tráfego em comboios de veículos que se desloquem a pouca distância uns dos outros.

O custo final de um carro pode ser calculado em vidas ceifadas e feridos. Os acidentes com automóveis são a nona causa de morte no mundo todo. Nos Estados Unidos, os acidentes com carros matam cerca de 33 mil pessoas anualmente e custam à sociedade, no mínimo, US$ 300 bilhões ao ano.[No Brasil, 40,5 mil pessoas morreram em acidentes de trânsito em 2013].

Heck e Rogers dizem que a tecnologia melhorará o transporte de um modo que os custos serão substancialmente reduzidos. A maior parte dos avanços apontados pelos autores ainda são muito novos. Serviços de carona remunerada como os da Uber e Lyft, por exemplo, podem facilitar a locação de uma corrida quando necessária, o que poderá resultar na aquisição de menos carros que, fatalmente, acabariam estacionados. Além disso, agora que os serviços de carona remunerada estão testando o sistema de carona solidária paga, isso poderá resultar também no aumento da ocupação média dos veículos.

Empresas como a Tesla estão desenvolvendo uma infraestrutura de carros elétricos que darão uma contribuição enorme para que nossos carros sejam mais econômicos. Isto porque os motores elétricos convertem mais de 90% da energia em movimento, ao passo que os motores a gasolina não conseguem gerar uma economia superior a 45%.

Por fim, há os carros que dirigem a si mesmos. Os veículos autônomos, como os que o Google está construindo, ocuparão as estradas de forma mais eficiente. Será possível colocar oito vezes mais carros em uma autoestrada de alta velocidade sem que isso provoque lentidão, permitindo que nos desloquemos mais rapidamente. Com o tempo, será possível construir menos estradas que, por sua vez, exigirão menos manutenção.

 

O carro autônomo do Google: exemplo do potencial das novas tecnologias

 

Como os ciclistas do Tour de France, quanto mais próximos os carros estiverem uns dos outros quando se deslocam, tanto mais eles eliminam a resistência ao vento, aumentando a eficiência, segundo cálculos, em 20% ou mais. Os carros autônomos também seriam mais seguros, salvando talvez milhões de vidas todos os anos se substituíssem a maior parte do sistema de transporte operado pelo homem.

O maior retorno, segundo Heck e Rogers, adviria da combinação de veículos com motores elétricos, do compartilhamento de percursos e dos veículos autônomos.

"Há um grande incentivo para um Estado como a Califórnia quando diz que 'nossas faixas reservadas à carona solidária são agora pistas para os serviços de carona remunerada e veículos autônomos', disse Heck. "Eles poderiam, inclusive, ficar isentos dos limites de velocidade."

Isso criaria uma espécie de "comboio" de veículos autônomos partilhados em que carros elétricos percorreriam diferentes corredores das regiões mais afastadas do centro onde se concentram as pessoas que se deslocam de casa para o trabalho deixando-as em seu local de serviço, fazendo também entregas de encomendas ou transferindo o usuário de uma linha pública de transporte de alta velocidade para outra.

Tudo isso parece plausível. Por outro lado, assim como acontece hoje com o carro que temos, as pessoas poderiam também usar os veículos autônomos de modo ineficiente. "O que não sabemos é de que maneira nós, seres humanos, devemos mudar nosso comportamento e nosso estilo de vida em resposta a esses veículos", disse Chandra R. Bhat, diretor do Centro de Pesquisas de Transporte da Universidade do Texas, em Austin. Ele estuda como será a vida das pessoas com carros desse tipo.

E se elas acharem o transporte em veículos autônomos tão confortável que decidam se mudar para lugares ainda mais distantes do seu local de trabalho, contribuindo dessa forma para o espraiamento urbano? E se as pessoas abandonarem o transporte público em favor dos carros, muito mais interessantes? "Se eu tiver de percorrer uma distância de aproximadamente 100 km até meu local de trabalho talvez eu prefira um veículo muito maior", disse Bhat. "Talvez eu tenha um lugar para me barbear no veículo, ou talvez queira tirar um cochilo. E se, num plano mais radical, quisermos um veículo que nos proporcione momentos de lazer?"

A tecnologia 3D não vai nos estimular a comprar mais coisas desnecessárias?

Vários outros argumentos de Heck e Rogers têm um ponto cego semelhante. As técnicas de construção modular permitiriam a construção de casas e de prédios de apartamentos em ritmo mais acelerado, a preços mais baixos e com menos desperdício. Mas, será que, por causa disso, não optaríamos por casas maiores ou, quem sabe, continuaríamos a fazer reformas em razão dos baixos preços?

A fabricação aditiva — isto é, a impressão em 3D em escala industrial — talvez nos permita fabricar produtos melhores e mais em conta, mas e se a partir disso passarmos a comprar mais coisas desnecessárias?

Isto não significa que os autores estejam errados. As macroforças que eles discutem parecem irrefreáveis. Com os incentivos corretos, o futuro poderá ser fantástico. É só tomar cuidado para que o homem, esse ser inoportuno, não se intrometa.

Do The New York Times Service

 



Seu aplicativo, que virou uma febre entre os jovens, é acessado a cada dia por cerca de 150 milhões de internautas – quase 15 milhões mais do que o Twitter.

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