São Paulo, 25 de Setembro de 2016

/ Tecnologia

Futuro da primeira empresa de armazenamento em nuvem é duvidoso
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A startup Box chegou ao momento do vai ou racha: se o negócio não se reinventar, pode ser impossível continuar crescendo

Por Quentin Hardy e Matt Edge (fotos) | The New York Times

Dez anos atrás, Aaron Levie largou a faculdade para fundar a empresa Box no Vale do Silício. Em pouco tempo, ele era um dos jovens magos da tecnologia de quem se esperava grandes coisas.

Levie enfrentou obstáculos e algum progresso intermitente, mas terminou chegando ao ponto com que muitos empreendedores somente sonham: a Box lançou ações em janeiro, mas já havia arrecadado US$ 175 milhões de forma privada. Empregando 1.200 pessoas, considera-se que ela esteja na vanguarda da nova geração de companhias que prestam serviços a grandes clientes comerciais por meio de sistemas de computação em nuvem.

Agora vem a parte difícil: a sobrevivência.

Hoje, a Box vale US$ 2,1 bilhões, mas as perdas vão se avolumando e a receita não cresce o suficiente para o gosto de Wall Street. As ações da empresa caíram 25% desde que foram lançadas. E serviços rivais de pesos pesados da tecnologia, tais como Amazon e Microsoft, ameaçam os negócios.

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Levie e sua empresa estão quase chegando ao momento do 'ou vai ou racha' que outras de sua geração de jovens companhias devem enfrentar em breve: achar um jeito de cortar as perdas e ficar à frente dos concorrentes cheios de dinheiro para não correr o risco de desaparecer.

Para a Box competir, ela precisa conseguir outras pessoas para construir coisas grandes sobre o que já implantou, da mesma forma que a Apple e o Google compraram fabricantes de aplicativos que tornam seu programa móvel indispensável.

Durante uma conferência recente, a Box, que até agora tem se concentrado em armazenamento de dados na internet e tecnologia de colaboração, explicou como pretende ajudar outras empresas a montar um serviço próprio na nuvem. A meta é criar um ecossistema que garanta o crescimento continuado da mesma forma que a Microsoft fez com os computadores pessoais e a Apple com o iPhone.

BOX EVITA A BANCARROTA COM PLANO DE CONTINGÊNCIA

 Se o plano não funcionar, é pouco provável que a Box sobreviva como empresa independente e Levie, com todas essas grandes esperanças, se tornará uma nota de rodapé, alguém que teve uma grande ideia, mas não conseguiu transformá-la em um negócio duradouro.

"O aviso foi dado. Eles sabem que precisam inovar. O que distingue os vencedores é o fornecimento de um serviço valioso e necessário", disse Norman Young, analista da consultoria Morningstar.

Levie, de 30 anos, é volúvel e animado como um universitário, humor reforçado pelo figurino típico: terno, jeans e tênis de cadarço cor de laranja – embora o cabelo esteja começando a se pintar de grisalho antes da hora. Ele prefere ter uma visão positiva do drama de sua empresa. Durante entrevista, Levie disse que sua vida "é o sonho de todo empreendedor; é só tentar não pensar naqueles instantes em que todos querem bater em você".

A tecnologia que fez a fama da Box, o pareamento da computação na nuvem com aparelhos móveis, passou de uma ideia excêntrica quando a empresa foi fundada para a atual corrente predominante da computação corporativa. Empresas que surgiram do nada como o Uber se valem da nuvem e dos equipamentos móveis; velhos concorrentes como a IBM estão se reinventando para os novos tipos de informática empresarial, e os velhos gigantes da internet têm toda intenção de dominar o setor.

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Levie percebeu que a empresa tinha de fazer algo mais porque não passava de uma "ferramenta de armazenamento glorificada" que poderia ser facilmente reproduzida, disse Young, da Morningstar. Ainda segundo ele, "a questão é por quanto tempo ele consegue aguentar as pontas e se tornar o próximo grande sucesso ou se será adquirido por uma empresa maior".

Atualmente, a Box tem formas de armazenar e compartilhar quase tudo de uma empresa, sejam folhetos de marketing, radiografias, registros financeiros ou vídeos. Para Levie, ela pode ser o centro de um novo setor econômico, ajudando outras empresas e consultores terceirizados a criar aplicativos que tirem proveito rapidamente da tecnologia de colaboração na nuvem.

Por exemplo, um banco pode usar a Box para um novo aplicativo de concessão de empréstimos ou um cineasta poderia distribuir com segurança a obra mais recente a compradores interessados. Uma editora educativa pode lançar conteúdo para dez milhões de estudantes de uma vez, por meio da empresa.

"Nossa marca pode ser a representante de tudo quanto é tipo de desenvolvedores da nuvem, a 'Intel inside' da era da nuvem. A questão vai se resumir a quem conseguirá integrar diversas experiências diferentes para as pessoas", afirmou Levie.

A General Electric fez da Box um padrão para tecnologia de colaboração dentro e fora da companhia, um produto de anos de telefonemas de vendas de Levie. Meses atrás, Jeffrey Immelt, principal executivo da GE, pediu que Levie falasse ao alto escalão a respeito de sua experiência construindo a Box, sobre formas novas e mais eficientes pelas quais as empresas podem colaborar e como a Box reagiu rapidamente à mudança.

Seus modos joviais, que praticamente berram "Vale do Silício", foi um argumento de venda.

MODOS JOVIAIS DE LEVIE AJUDARAM A VENDER O PROJETO DA BOX

"Sinceramente, eu teria me decepcionado se ele viesse sem tênis", disse uma pessoa que participou da reunião, que pediu para não ser identificado ao discutir um evento extraoficial.

A Box tem 45 mil clientes comerciais pagantes, incluindo perto de metade das companhias listadas na Fortune 500. Levie disse que cortejar esses clientes – que precisam ter muita segurança, recursos e tutoriais sobre como o mundo novo funciona – é o motivo pelo qual a Box gastou tanto dinheiro. Sua lista de grandes clientes corporativos atrairá os desenvolvedores, ele acredita.

Até agora esse investimento não resultou em lucro. Quando os detalhes financeiros da Box foram revelados em apresentações antes do lançamento das ações, Om Malik, famoso blogueiro tecnológico e fã entusiasmado da empresa, a considerou uma "casa do terror".

Em seu último ano fiscal, a Box perdeu US$ 167 milhões de uma receita de US$ 216 milhões; um ganho de receita de 74% sobre o ano anterior, com uma perda líquida cinco por cento maior. Neste ano, a receita deve crescer 30%, uma retração acentuada que Levie espera driblar com a nova estratégia de atrair desenvolvedores. O relatório de resultados mais recente, de março, apontou que a empresa tinha US$ 330 milhões em dinheiro.

Esse tipo de perda, não apenas na Box, mas também em muitas outras empresas jovens do setor de tecnologia, assusta a velha guarda da área.

"Nós somos diferentes. Nós vivemos um declínio maciço em 2000 e 2001 e não consigo viver com tanto dinheiro sendo queimado. Aaron é inteligente e pragmático, mas ele e vários desses sujeitos jovens não vivenciaram períodos ruins", afirmou Brad Garlinghouse, ex-diretor-presidente da Hightail, outro serviço de armazenamento online. Ele deixou a companhia em setembro e agora é diretor de operações da Ripple Labs, sistema de pagamento via internet.

Levie fundou a Box com três colegas do ginásio, da cidade de Mercer Island, Washington. A ideia surgiu quando ele finalizava um trabalho de administração na Universidade do Sul da Califórnia, mas terminou largando a faculdade e convenceu os outros a se juntarem a ele.

Depois de todos esses anos e nove rodadas de financiamento, Levie detém apenas 3,8 por cento da Box, perto de US$ 80 milhões. "Eu adoraria ter mais, mas não trocaria o crescimento que tivemos por maior participação", ele declarou.

Nos fins de semana, Levie troca o terno por shorts rosa e camiseta branca de gola vê, e ainda mora no mesmo apartamento nos arredores da sede da empresa, dirigindo o mesmo BMW velho há anos.

"Fiz sacrifícios no lado pessoal. Gostaria de ficar mais tempo com a minha namorada. Sempre existe um estresse, mas quando você vê como isso pode ajudar em seu sonho, vale a pena", acrescentou Levie.



No universo das startups, o termo significa criar e expandir um negócio sem recorrer a investimentos externos

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